CAJACITY – Uma nova Atlanta, ou vice-versa

(A trilha sonora da matéria começa por aqui).

Em Salvador, talento, originalidade e uma legítima correria são abundantes dentro da pulsante ‘jovem cena’ underground do rap soteropolitano.

2020 chega com um ar de nova era e parece que o sentimento de “faça você mesmo” nunca esteve tão forte na Terra de Vandal e tantas outras respeitadas referências.

Ainda que subestimados e relativamente desconhecidos, brabxs artistas da cidade, historicamente repleta de arte em seu DNA, estão no corre para transformar as suas ~habilidades especiais~ em moeda. 💸💸💸

Todos eles estão espalhados por cerca de 163 bairros que compõe Salcity a.k.a Cadê a ‘solta’, Salvador?

Soteropolitanismo OG

163 bairros catalogados. A gente desconfia que tem mais, mas mesmo assim gostamos de falar, em um legítimo tom de gastação soteropolitana, que “Salvador é um ovo”. Delírio coletivo. Salvador, graças a D10S, é bem grande.

Atualmente quarta maior cidade do Brasil, reza a lenda que a primeira capital nacional é tão grande que existem alguns mundos dentro do seu raro sistema solar.

Segundo o IBGE, estimativamente 2.872.347 pessoas moraram na Terra de A Travestis e O Hits, em 2019. Dessas quase 3 milhões de pessoas, imagine quantas nutrem o sonho de viver do difícil corre que é trabalhar com arte?

Dá para te responder dizendo que o número quase chega perto da quantidade de “desgraças” (ou “la elas“) comumente proferidas pelos soteropolitanos.

São artistas 100% reais e que não estão munidos com os recursos monetários dos mundos mais privilegiados de Salvador, mas que sabem compensar a falta de privilégio com doses cavalares de autenticidade.

Na imensa bolha cultural que é o universo hip-hop brasileiro, os de verdade sempre serão os melhores do bagulho, mesmo que a indústria não costume os remunerar de forma justa. Meritocracia é lixo.

Várias merdas plastificadas, fracas de ideia e técnica, roubam o sucesso (leia-se “a visibilidade”) de gente real, que faz som real e bom para caralho.

O problema é estrutural e cíclico já que a mídia prioriza os rostos mais adequados (leia-se “brancos”) para abraçar e o público médio não tem senso crítico para filtrar o que lhe é apresentado.

É foda.

Mas bote fé que os bons artistas do underground — e todas as suas maravilhosas vertentes — continuarão por aí.

Soteropolitanismo OG 2

Voltando ao papo de Salvador e a sua imensidade: de todos os planetas existentes por aqui há um que é, reconhecidamente, o maior. Pelo menos em densidade demográfica.

Infelizmente, nunca estive pessoalmente por lá (vai chegar na melhor hora), mas, graças à nave espacial virtual do Goku, eu terei uma chance.

Melhor do que ir para Namekusei — e de mão dadas, por favor, para não se perder.

Welcome to Cazajeiras a.k.a Cajacity.

De volta para o futuro – Cajazeiras Edition

Muita vezes referenciada como “o maior complexo habitacional da América Latina“, Cajazeiras passou a ser delimitada por 14 bairros, em 2017, segundo Lei Municipal.

São milhões de histórias de milhões de pessoas no maior mundo do sistema solar soteropolitano. A região, periférica e marginalizada, cresce de forma progressiva e uma legítima ‘cena própria’ nasce diante dos nossos olhos.

Lembra daquele documentário “Welcome to the Trap” da Noisey? Violência, drogas, etc. Então, Cajacity pode ter um plano de fundo parecido em seu pulsante ecossistema de gente real, e artista por natureza.

Òwe trouxe o beat, bitch

A região ficou em primeiro lugar na lista de bairros com mais mortes violentas de Salvador em 2012 e 2017. E isso também me lembra “Welcome to Chicago“, ops, ChIraque, a cidade das gangues de rua e mãe do drill music, uma espécie de ramificação mais ‘violenta’ do trap.

É aquela coisa básica: o seu mundo dita a sua vivência. Só em Chicago poderia nascer um Chief Keef para fazer som de Chief Keef. Logo, só em Cajacity nascerão sons de Cajacity, os originais Cajasons.

Independente da quebrada ser nos Estados Unidos ou no Brasil, a parada é (e sempre será) sobre ser real.

Dá para sentir sentir o cheiro do trap de Atlanta – ou do drill de Chicago – na estética dos artistas de Cajacity, mas é claro que os filhos de CJZ (a sigla palosa de Cajazeiras) sabem muito bem dar a sua cara ao bagulho.

De forma ultra autêntica, artistas da região estão usando das suas dificuldades e realidades de pretx periféricx para tentar virar o injusto jogo que eles são obrigados a jogar. Corajoso e inspirador. 🤧

Sem mais quatchá quatchá, vamos conhecer os nomes de quem está fazendo e acontecendo pelas bandas da gigantesca CajAtlanta.

Contei com um suporte de Áurea Semiseria 💖, a querida carreta da ØNZE, artista e moradora da região, para que a catalogação de artistas fosse um pouco mais abrangente.

Certamente, vários brabxs ficarão de fora, mas nada impede uma parte 2 desta matéria, certo?

A carreta passa por cima de tu 🚚🚚🚚

EU TO NA 10

Vamos começar pelo dia que “as trevas ganharam o céu e o mundo foi ganhado pelo caos e dele nasceu a criatura mais infame que já andou pelo solo. O filho do caos, Lil Devil, the last OG”.

Silêncio. Canta Gremory.

Ele tem demônios exorcizo com um draco

Tá ligado quando você fica viciado em uma parada?

Vivo nesse mood desde que uma pessoa* me fez pegar a devida visão de Lil Devil.

Dono de alguns outros pseudônimos, o tal do Devil a.k.a Maldito Negro da 10 a.k.a Pai Veio – ou apenas Gremory mesmo – é um dos verdadeiros da cena de Cajacity e cumpre o seu papel quando o assunto é apavorar com um microfone. Sem mentiras envolvidas.

Em um tom caracteristicamente sombrio e gângster – clássico do drill – barras sobre venda de drogas, uso de armas, opressão policial e tudo que envolve ser um “negro real” são cuspidas pelo pequeno demônio de Cajazeiras 10.

Já com vários trampos solos na pista, Devil também faz parte do grupo UFFA MOB, ao lado de Drê, Geeli e Ghost.

No bloco do Kannário eu botei no cordeiro (CHUPOH)

Após dormir e acordar ouvindo 22pm no Centro e saborear todo o seu conceito renascentista, a minha única reação possível era procurar ouvir mais da palavra de Gremory e a sua gang.

Por sorte, o brabo já tem duas mixtapes na rua: O Subordinado Das Trevas e Lil Devil The Last OG. Além de várias outras obras de arte em seu perfil do Soundcloud.

Lil Devil gravou ambas as mixtapes no estúdio Balostrada Records.

Na do “Subordinado Das Trevas”, Pequeno Gremory contou, como de praxe, com O Chipado a.k.a G e e l i t á n o b e a t f u m a n d o h a x i x e na produção dos seus insanos e viciantes beats.

Jxkv e Macauleanynxg chegam na produção da track “CENAS DE HOMICÍDIO E GRITARIA” e também adicionam linhas à obra junto com Famoso Lula.

A outra, batizada de “The Last OG”, é composta por 5 faixas e traz participações de Drê, Geeli e Jovem Senpa, da Underismo, na bateníssima faixa Holy Shit Gang, produzida por Luan Òwe, a última track da mixtape.

Drill City rs

Muito sagaz para escolher os beats propícios para falar as suas insanidades, Gremory consegue beber, unicamente, das referências mais reais da cultura trap e entrega um produto verdadeiramente autêntico.

Frases marcantes (“Tô sempre pela 10, pode vim cobrar“), cacos viciantes (“Sem mentiras“), ideias reais (“Ele não tinha nada, mas ser preto é ilegal”) e linhas clássicas (“Tô de Seaway pra conquistar o mundoooo“).

Lil Devil exala autenticidade.

E muita qualidade, já que para mandar um “skrt skrt skrt skrt” desse tem que saber o que está fazendo. Vamos respeitar os ad-libers originais.

É certo que ainda ouviremos falar muito da criatura mais infame a pisar na terra em 2020. Espero que você realmente escute todas as faixas de Lil Devil disponíveis e deguste o puro sabor refinado que é a arte do Filho do Caos.

Antes de pularmos para o próximo filho de CJZ, é válido deixar aqui uma playlist com músicas de alguns artistas de Salvador nesta bela plataforma musical, da cor laranja e de nome SomNuvem.

NEM 2, NEM 3

Eu nem trafiquei, eu nem trafiquei

Dono de uma das melhores mixtapes de 2019 (segundo eu mesmo), Pivete Nobre está há um certo tempo no corre, mas é possível dizer que o nobre “guri” teve no ano passado o seu ano de maior dimensão.

O C.E.O da Estilo Solto é um homem de vários negócios. Além de assinar a sua mixtape solo, intitulada PiveteNobre, ele também aparece no projeto MIXTAPE SUJA ESTILO VOL.1 e na Mixtape Toma Conta, do seu grupo, o Saca Só.

A faixa 9 da MTC (Mixtape Toma Conta), “FAMÍLIA“, tem o apadrinhamento de um dos melhores do rap baiano/nordestino/brasileiro/mundial.

Tal qual Gucci Mane, Vandal de Verdade tem a capacidade de abençoar os que ele toca. Sem mentiras envolvidas (obrigado, Gremory, eu nunca mais tirarei isso da cabeça).

O King, como de praxe, deixou barras icônicas como “novinha para mim é criança” na track que posteriormente ganhou videoclipe. Pivete Nobre não fica para trás na caneta e ainda nos contempla com um belo refrão.

Obra de arte.

A família tá (m)unida pra tá sempre forte

Aliás, a cultura de colaboração é uma característica forte na cena de Cajacity — e de Salvador de modo geral.

Pivete Nobre colaborou com Gremory, no ano passado, para lançar o clipe da já clássica “PAONDA“, com a assinatura da Estilo Solto. No começo do audiovisual, ainda temos uma “parte extra” do brabo Drê a.k.a Garoto Falido.

Produção 100% original Cajazeiras.

Não paga de pam, cê nunca matou, não paga de pam, cê nunca matou

Foi também no ano passado que Pivete Nobre x Lil Devil x Drê colaboraram para dar vida ao clipe de “SKRRT”. Pega a visão:

Aprendi a falar inglês pra vender um tijolo ali

MAIS PERVERSO QUE UM SUICIDEBOY

CJZ, às 3h da madruga

Trampo MC, agora Trampo Raro, traz em seu vulgo uma popular gíria nacional para “trabalho”.

Por mais que o falido estereótipo de bAiAnO pReGuIçOso ainda seja profanado por desacreditados, este outro filho de Cajacity é mais um exemplo de como o povo da Boa Terra pode ser dotado de proatividade.

Criador da clássica Batalha Forte Mente, o brabo também é fechamento da Estilo Solto e tem um arsenal de tracks pesadas no seu currículo.

Um arsenal que vem desde 2015, para ser mais preciso.

“Nascido para Bilhar” é o último EP de Trampo Raro

O trap atlantense usa e abusa do conceito de “faça você mesmo“, o “do it yourself” deles.

Trampo, e certamente todos os artistas citados na matéria, mesmo focados e mergulhados nessa mentalidade, infelizmente ainda não conseguem viver apenas à base da sua arte. Então, é necessário sobreviver.

Dentro de um contexto de marginalidade que assola bairros periféricos de uma gigante Salvador, é natural que os artistas de Cajacity levem para as suas letras a arte da (sobre)vivência.

Difícil viver oprimido e cantar sobre um mundo colorido. Subjugação e opressão geram revolta, e pelos menos aqui essa revolta está virando arte.

Poesia marginal.

2k19 só calibre pesado

CARRETA DA ONZEEEEEE

Áurea Semiseria, a nova panaceia. É a divisão do ouro em espírito”, já dizia Davzera.

Há muito tempo levando o nome de Cajazeiras por onde passa, a Carreta da Onze já é figurinha conhecida na cena rap de Salvador-BA. Quem nunca foi em um show de Áurea, hein?

Mulher, negra e muito braba, o “Terror das Patrícia” é uma pioneira e hoje já pode ser vista como uma verdadeira referência quando se fala em rap/trap/grime (😮), em Salcity.

Bela, recatada e do lar é o caralho

Foram com duas bombas que a Carreta da Onze fechou o seu 2019, ano que entrou para o coletivo Balostrada.

Primeiro, passando de com força, veio “TUDUDUDU“, o novo RomPomPomPom (por que choras, Rihanna?), um empolgante som produzido por Tio Kike onde Áurea destilou toda a sua peculiar brabeza.

Certamente muitos bate-cabeças ainda serão puxados ao som de “TUDUDUDU”.

Depois, o videoclipe de ØNZEdirigido por Ifé e Rei Lacoste, encerrou o 2019 de Áurea com muita malemolência e uma voz de escopeta.

Clássica.

Tá sossego, carreta sem medo
Minha voz é uma escopeta

2020 promete bons capítulos para a vida de Aurinha. Daquele jeitão, com um episódio do Brasil Grime Show já gravado e vindo por aí.

Muita fé.

1000 ACERTOS: 1 ELOGIO, 1 ERRO: 1000 CONDENAÇÕES

Filhos de Seth é um dos artistas que não estava no meu radar e entram aqui pela bela indicação de Áurea.

Formado por Caio Japa e Piaget, o duo lançou no último mês de agosto o EP “Aprendendo com os erros da pior forma“.

Composto por 5 faixas, o trabalho foi gravada no estúdio Liberte Records e traz participações de outros nomes de Salcity como Konanzin e Fiaes.

Dentro do EP, a track “Fake Trap” chamou a minha atenção.

Durante pouco mais de 2 minutos, Piaget solta linhas de soco direcionadas à falsa cena trap formada por seus vários trappers de mentira.

Após a popularização e glamourização do ‘trap life’ dentro do rap BR, muito da essência do movimento se perdeu, ou melhor, se descaracterizou.

Pois é, o que havia nascido como música de bandido vendedor de crack foi virando branquelo retardado falando de prometazina.

Você gostando ou não, o movimento tem as suas raízes. Não prego um “engessamento” do bagulho. É bom que existam as ramificações da parada, e isso já aconteceu/acontece bastante, mas não adianta se não for real.

Hoje, nos Estados Unidos, em um contexto industrial musical totalmente diferente, o dinheiro rola em peso para os grandes expoentes do trap music.

No Brasa, “Matuês” influenciam toda uma nova geração, descaracterizam o movimento, e ainda costumam ficar com o pouco dinheiro e reconhecimento existente dentro da cena. Trágico.

Mas voltando ao trabalho dos meninos do Filhos de Seth: os beats do EP são assinados por Azzasp, Max no beat, Leo SX e Silveira.

“Nas suas letras só vejo glock, se tem uma na frente você entra em schock“.

⚡⚡⚡

ENCAIXO NELA COMO ENCAIXO NO BEAT

Você quer hit, bebê?

Lançaram a braba, de fato

Os meninos Nnine, Jee, Nork, Cajivis e Neguinho formam o grupo Khalid Akil Mob.

No fim de novembro de 2019, um gostoso hit apareceu nas ruas de Cajazeiras e, por tabela, Salvador.

Lancei Foda-se” tem uma cara própria de sexy song e fica na cabeça de primeira. O beat viciante de Nael Black foi milimetricamente dividido para os cinco MC’s do grupo e os caras souberam entregar um produto de 2 minutos e 5 segundos eficiente e cativante.

Dirigido por Vitor Carvalho, a música chegou também em forma de videoclipe.

É aquele papo de ser hit mesmo sem ter todas as milhões de visualizações que o som merece, sacou? Imagina se fosse a Recayd Mob que lançasse um som desse? A fanbase — e a mídia sulista — iriam surtar.

Aqui vai uma playlist com músicas e feats dos membros do emergente grupo. Cajazeiras fez de novo.

LUTANDO PELA VISIBILIDADE DA ARTE PRETA

E diante do Santo eu prefiro ser sujo

“Sei que eu vivo no inferno, mas eu tô certo, na música eu tenho um dom”.

Na única track postada em seu canal no Youtube até agora, o Coletivo Usque contou com a produção de Robert Jack e instrumental de Júlio César para lançar um real trap de preto.

Longe de maquiagens, Bertho, Jack Kazore, Yago Santana e Young Dante 21 pesaram nas linhas rimando sobre o que tem lugar de falar para rimar. A track leva a produção da Calih Company.

“A Usque vai ser o seu novo vício”.

Olho nas próximas aventuras dos meninos em 2020.

PASSO POR PASSO, ANDO NA RETA

Zakyn Sodré fecha o nosso rolé por Cajacity em mais uma indicação vinda de Aurinha Semiséria.

No país que é penta cheio de bala no pente

Depois de iniciar pelos traps insanos e macabros de Lil Devil, começamos o fim do rolé por Cajazeiras com a pegada noventista de “Passos“, cortesia do menino Zakyn.

Prometendo a Mixtape Disparo para 2020, Sodré mostrou algumas das suas credencias no videoclipe produzido por Trindade Nordestina, com o beat de GS Beats e gravação/masterização do conhecido estúdio NaCalada Rec.

Na obra, Zakyn solta linhas de desabafo que casam perfeitamente com o ritmo clássico do boombap escolhido. Num tom de hino, a canção fala sobre temas como representatividade negra, poder de superação e a desigualdade cruel que é ser um negro periférico. Tópicos imortais dentro do rap.

Mas não é só de boombap que vive o menino Sodré.

MC’s vendidos, MC’s vendados

A track “Kamikaze”, de janeiro de 2018, já mostrava um Kazin à vontade para rimar em beats mais “neuróticos”, digamos assim.

Gravada no estúdio Kzadavea, o legítimo bate-cabeça assinado por Robert Jack (olha ele de novo) é instigante e as rimas agressivas de Sodré agregam de forma certeira.

Versatilidade, Cajazeiras também tem.

Tá saudável.

Ufa. Ou melhor, uffa. rs

Muita gente boa, hein? 2020 está só começando e “o underground não falha e eu sigo na escolta“.

Seguiremos acompanhando os passos dos reais de Cajazeiras e de todo o sistema solar de Salcity.

Muita fé para os reais.

*Com a revisão y supervisão de Dani Campos, a braba.

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