Entrevista: Menestrel fala sobre sua origem, desafios na carreira e vida após ‘Poetas no Topo’

Comecei uma série de entrevistas com alguns nomes da cena do Rap BR e Yan Menestrel, diretamente de Brasília, foi um dos primeiros a aceitar minha proposta. Nesse “bate e volta”, você vai saber um pouco mais sobre a origem, projetos, inspirações, ego, planos para o futuro, grupo Mandala (que não acabou), desafios, parcerias e muito mais.

Para quem não sabe, Menestrel tem apenas 17 anos (apesar da barba no rosto e desconfiança de muitos, essa é mesmo a idade dele), é uma das promessas da cena e já trabalhou com rappers renomados, participou de “Poetas no Topo”, ao lado de Makalister, Bk, Djonga, Sant e Jonas. Confira e entrevista.

Qual foi o seu primeiro envolvimento com o rap?

— Quando senti a necessidade de saber fazer alguma coisa pro meu futuro. Minha família toda por parte de pai teve a musica como profissão a vida inteira, geralmente, como instrumentistas. Eu gostava de cantar e escrever, não ouvia rap e tinha até certo preconceito com a vertente, até que ouvi o som do 3030 e vi que era possível fazer um rap original, e dai em diante comecei a focar em trabalhar com o rap.

Como foi a experiência de estar em ‘Poetas no Topo 1’, como surgiu o convite e o que mudou para você?

— Foi única! Na verdade, não foi bem um convite, quando o projeto foi idealizado, o Makalister estava no Rio, o Paulo e o Malak (Donos do Projeto) estavam comigo na hora, então os dois primeiros nomes já estavam ali confirmados, os outros quatro, sinceramente, não lembro, mas quando dei por mim a gente já estava criando a música. Tudo mudou pra mim, depois de Poetas, a galera se identificou mais com meu estilo de fazer Rap, me trouxe mais pra perto do público também, desassimilou um pouco o meu estilo de cantar ao lado do Froid. Não que isso seja ruim, mas todos nós queremos ter nosso reconhecimento pelo nosso talento, fora a satisfação pessoal de ter participado da primeira parte de um projeto tão grandioso quanto é o Poetas.

Por que Menestrel?

— No meu segundo ano estava estudando trovadorismo e me deparei com a classe de recitadores de poesia, achei o nome intrigante e pesquisei mais. Achei que, além de se encaixar muito comigo, se encaixaria muito para um rapper pelos diversos significados também.

Você acredita em representatividade no rap, acha que isso pode ajudar o ouvinte a se encontrar de alguma forma?

— Acredito sim, e o que faz você ter representatividade é a veracidade do seu texto. O Ouvinte se identifica com coisas humanas, coisas reais, que acontecem na nossa vida e de certa forma igual e bem diferente, mas passamos pelos mesmos processos de amadurecimento da infância até a fase adulta. Quando fiz a musica “Lamentável”, com Froid, tive plena certeza disso, pois fiz um texto totalmente pessoal que pessoas me param na rua até hoje para agradecer a letra. No começo, eu não entendia, mas passei a entender que as pessoas se identificam com o que é real, com o que foi vivido, até a entonação na gravação fica diferente quando você canta uma coisa que você viu passar perante os seus olhos, essa é a diferença do Clássico e do Hit, o Hit é ouvido, o clássico é respeitado, e isso que faz com que você represente uma massa, seja qual for ela.

Existem ações na sua cidade voltada para a cultura do hip hop?

— Sim, existem intervenções e batalhas semanais pela cidade, fora os projetos voltados para as penitenciárias, de oficinas de poesia, aula de produção e operação de áudio, que são ministradas por um dos integrantes do coletivo que participo (BOCA), Heitor Valente. Fora eventos com atrações grandes que são de graça, como o Elemento em Movimento, que é realizado anualmente na Ceilândia, cidade satélite de Brasília.

Fale sobre o Mandala.

— O Mandala foi meu filho mais novo, meu primeiro grupo sério de rap, eu e o Santzu fizemos dois discos e nunca lançamos, mas o Mandala foi minha maior fonte de aprendizado e orgulho, hoje tomamos rumos separados em questão de composição, tenho meu trabalho solo e ele também, mas ele ainda está no palco comigo todo show fazendo meu reforço. O Vinicius, que na época era nosso produtor, hoje é produtor dele e meu assistente mais forte, de todos os dias. O Mandala NÃO acabou, estamos dando um tempo para nos estruturarmos e amadurecermos mais, mas volta e meia vai rolar alguma coisa do Mandala pra galera!

Já passou por alguma situação em que foi prejudicado ou desrespeitado por causa da sua idade?

— Por incrível que pareça não, muito pelo contrario, geralmente quando as pessoas descobrem minha idade ficam boquiabertos, tanto os fãs, quanto a galera que está trabalhando no rap. As piadinhas são invitáveis né, mas no modo geral, todo mundo me parabeniza muito e tem um carinho maior de ouvir minha música depois de descobrir minha idade.

Qual é a maior dificuldade que você tem encontrado na cena?

— Acho que é uma coisa que já vem atingindo a cena a um bom tempo é saber lidar com o Ego, de uma forma geral.

Quando e como decidiu se tornar rapper?

— Decidi a partir do momento que vi que o Rap era um estilo em que eu podia desapegar mais do que eu sentia, expor meus sentimentos em um estilo em que eu não preciso cantar felicidade o tempo inteiro, em que eu posso ser quem eu sou sem parecer estranho. Sempre quis ser músico, mas eu não sabia em qual estilo me encaixava, porque o que eu queria falar eu não conseguia libertar integralmente cantando no MPB e o rap me proporcionava essa “Liberdade” Maior.

O que você costuma abordar em suas letras?

— Como falei acima, minha vida. Do meu acordar, ao meu dormir, tudo que acontecer vai virar poesia, porque eu acho que isso é a poesia, transcrever o que os olhos vêem e o que o coração sente, seja essa visão/sentimento bonito ou feio, feliz ou triste.

Fale sobre os seus trampos já lançados.

— Lancei recentemente dois trabalhos, um em conjunto com o Inglês, da Matrero, lá de SJC, e um solo, cujo nome é Epifania PT.2, a continuação da minha “História”. Os dois trabalhos foram muito bem recebidos pelo público, confesso que fiquei até assustado com o resultado dos dois, não só pelos números, mas pela forma madura em que o público está se portando perante as musicas e ao meu trabalho, fico extremante feliz com os comentário, focado a cada dia mais para não desapontar essas mesmas pessoas e atingir o dobro no próximo.

Quem são os rappers que te inspiram e o que você escuta?

— LK, do 3030, Ret, Edi Rock, Russ e o Bispo, de Portugal. Ouço muito MPB no meu tempo livre, mas ando ouvindo o som da galera da cena atual também, me mantendo atualizado, gosto muito de ouvir musica experimental também, achei alguns grupos dos EUA e ando tirando muito de referência.

Tem planos de lançar algum álbum em breve?

— Lanço meu álbum no primeiro semestre desse ano, meu primeiro CD com 10 faixas cujo o nome é “Relicário”. Só não decidi ainda se ele vai ser de Touro ou de Gêmeos.

Fique a vontade para falar o que desejar e também, deixar um recado para seus fãs.

— Mantenham o foco, nada é impossível e eu não sou só iluminado de conquistar o que vocês acham tão impossível de conquistar na minha idade. Isso é fruto de trabalho e esforço, deem o máximo de si e não liguem para as criticas, ninguém sabe o dia de amanhã, faça o seu, o do seu próximo, deixa que ele cuida. Bom senso é respeito, então usem sem moderação.

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