‘Vilão Órfão De Vilania’, de Raphael Warlock, e a Autoestima

Saber quem somos nos dá a capacidade de conseguirmos relacionarmos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. E Raphael Warlock no seu EP “Vilão Órfão De Vilania” tem extrema consciência disso.

Assumidamente gay, Warlock sabe sua posição na cena do rap e no mundo, sendo esses dois ambientes extremamente preconceituosos. Mesmo assim o rapper não poupa críticas em rimas ácidas e criativas, sem deixar de assumir quem é e sem esquecer o que representa no cenário LGBT do rap nacional.

“Sou mais um homo / Que não sabe como / Nem porquê eu faço o que faço
A cada passo dado perco mais o sono” Versão D’ Omo (666)

Para Warlock, sua posição é algo inconsciente,protestar faz parte de quem ele é, mesmo que seja um caminho pedregoso e difícil, fazendo com que ele perca cada vez mais o sono.
Apesar disso, o rapper usa a música para elevar a autoestima, demonstrando que sabe quem é e reconhece seu potencial de mudança, não apenas para sua vida, mas para o mundo que o cerca.
Através disso, ele faz um exercício de auto conhecimento e de diagnóstico da sociedade, denunciando a hipocrisia heteronormativa.

“Mutante com orgulho / Pode até fazer barulho
Que eu embrulho tuas palavras / Nas minhas e faço entulho” – Gene X

Não só se conhecer, mas ter orgulho de quem é. E isso é o que Warlock faz, em uma genial comparação com X- Men, na música “Gene X“.

E assim como ele se compreende e se gosta, sua missão é cantar ao mundo esse amor. Mundo que segrega e assim como aos personagens dos quadrinhos da Marvel, busca uma cura para algo que não deve ser tratado como doença.

Afinal, o amor, não importa como, é inspirador e é o mesmo vindo de um “homo sapiens ou de um mutante”. Muita gente como o Warlock, suporta todos os dias o peso da homofobia, mas não perde a esperança e escolhe que através do conhecimento e do autoconhecimento, pode transformar tudo.

“Meu rap é de quebra / E requebra na cara
Dos pela e de quebra / O que quebra não sara” De Quebra – Corra

A ferramenta para fazer ser ouvido é o rap, e o MC não esquece isso, lembrando que chega para realmente quebrar tabus. Falando desde a relação entra a Homossexualidade e a religião e entre a já citada hipocrisia heteronormativa, Raphael demonstra que conhece quem deve ser atingido por suas rimas, e ele não poupa palavras para isso.

Sabendo como é tratado por quem o cerca, devido sua orientação sexual, ele usa de versos até que certa forma, bastante “sujos” para transmitir sua menagem.

Não ficando como uma forma de revidar, mas como uma manifestação de alguém que está cansado de ser atingido e de ficar em silêncio. É como um grito, não possui um alvo certo, só busca ser ouvido.

“E desde o rap contest / Piso com o converse na cara
Dos que falam pra caralho / Sobre vilania / Mas não sabem nada” – Zona do Caos

“Vilão Órfão De Vilania” é um trabalho excepcional em questão de rima e qualidade musical, mas ele vai além disso, é uma expressão de alguém que se conhece e sabe o que precisa fazer para transformar o mundo.

É um grito de autoestima e valorização do eu, no sentido de trazer um alívio para quem todos os dias sofre por ser ele mesmo, porque escolheu amar e mesmo com tanto ódio recebido, utiliza o rap como ferramenta de mudança.

Porque no fim das contas é isso que o rap é, um agente subversivo e evolutivo. Rodrigo Zin foi um dos responsáveis por dar peso, cor, leveza e profundidade em cada música, tanto na música que dá nome ao disco, como na mixagem e masterização que foi completamente realizada pelo artista de Curitiba.