Uma reflexão sobre passado, presente e futuro do Rap brasileiro

Sou um fã saudosista e assumido do rap dos anos 90. Tanto aqui como na gringa, a golden era consolidou as maiores lendas do estilo.

Admiro todo o tipo de rap: de crítica social e política, de festa, gangsta, de realidade, de amor. Não existem limites para a expressão e escolha de temas quando falamos de rap.

Os anos 2000 em diante mudaram um pouco a cara do rap. Na gringa, os raps de festa e ostentação ganharam força e por aqui o rap falando da realidade perdeu a força.

A distância do rap com os valores e elementos da cultura hip hop deixaram o som dos gringos cada vez mais pop. Mas aí tu pergunta: onde quero chegar?Eu digo, hoje em dia tudo o que acontece aqui é reflexo do que acontece lá!

Ao contrário do que muitos mc’s brasileiros pregavam antigamente (manter o estilo ‘brasuca’, sem copiar os gringos), hoje em dia, de modo geral, não se tem mais a preocupação no que se diz a originalidade.

Ainda hoje escuto muitos dos grupos que me marcaram na década de 2000: Consequência, Simples, Ascendência Mista, Elo da Corrente, Pentágono, Primeira Audição, Mzuri Sana, Contra Fluxo e por aí vai. Grupos esses que não chegaram ao patamar de consagrados como Racionais, Facção, 509-e, Sabotage, mas ainda sim ficaram na história com sua originalidade e qualidade.

No final da década e começo dos anos 2010, outros ótimos grupos e rappers surgiram na cena: Rapadura, Relatos da Invasão, Primeira Função, Síntese, U-Flow, Nocivo Shomon, Emicida, a consagração de Criolo, ainda “Doido” e tantos outros.

Infelizmente de alguns anos pra cá alguns rappers acabaram deixando de lado a essência da cultura e estimularam uma nova geração totalmente distinta ideológica e musicalmente.

Letras com assuntos fúteis, o distanciamento do rap com os demais elementos da cultura hip hop e a preocupação maior com o lançamento de hits do que com o conteúdo dos sons me fizeram desacreditar totalmente na nova cena que tinha surgido.

Eu quase já não conseguia mais distinguir um mc do outro. Via todos com o mesmo flow, mesma base, mesmos assuntos. Levadas cada vez mais melosas e comerciais que me faziam desistir de ouvir determinados sons.

O rap de alguns anos pra cá ganhou cara, forma e conteúdo muito diferentes do que estávamos acostumados. A maior prova disso é a importação do trap que vem dominando a cena. Eu particularmente não sou fã. Vejo de modo geral todos iguais.

Será que o rap deve aceitar qualquer um? Simplesmente vejo muitas “boy bands” travestidas de rappers surgindo. Maluco que até ontem cantava em grupo de pagode meloso e agora embarcou na onda do rap. Esses realmente carregam a bandeira? Se depender deles o rap vai parar aonde?

Vamos combinar que está fácil se dizer mc. Se encher de tatuagens, fazer cara de mal e falar qualquer besteira no mic já te faz ser ídolo de vários pivetes.

Alguns chamaram de evolução. Eu não, chamo apenas de mudança. Evolução quanto música? No que se refere a produção, sim, o rap evoluiu. Mas e quanto a cultura? Houve evolução?

O que eu via no momento era uma molecada idolatrando novos mc’s e grupos, porém desconhecendo os pilares do estilo e os clássicos que fizeram eu e outros milhares a amar o rap. É como ser fã de Blink 182 e não conhecer Bad Religion, gostar de Belo e desconhecer Fundo de Quintal, se dizer rockeiro, escutar NX Zero e não saber quem é ACDC. Entendem o raciocínio? Qual o preço da popularização da música?

Sim, eu já vi um moleque de camiseta do Run Dmc se dizendo fã de rap, mas que comprou a camiseta porque tinha achado bonita e nem tinha ideia do que estava escrito nela.

A falta de essência e de pesquisa influenciou, no meu modo de ver, negativamente uma geração que passou a curtir rap apenas pelo boom do momento, sem se preocupar em manter a qualidade e somente em falar sobre temas banais e sem profundidade.

Essa geração adotou certos grupos como inspiração para ingressarem como mc’s. Grupos esses que na maioria das vezes não fazem a cabeça do pessoal mais antigo do rap. Esses mesmos expressam em seus sons o que a molecada de 16 anos quer escutar. Somente isso.

Simplesmente não absorvo, escuto e tampouco gosto de boa parte desses a que me refiro.

Mas após esse desgosto com a cena, com mc’s bons no anonimato e diversos outros sem compromisso ganhando a cena, eis que surgem diversos promissores rappers: BK, Djonga, Sant, Froid, Baco, Diomedes Chinaski, ADL, Rincon Sapiência e mais, firmando na cena. Primeiramente, Coruja, entre outros trouxeram a mim a esperança de que o rap original voltou. Cada um com seu estilo, flow, inspirações e lírica. Os cds de BK, Síntese e Djonga na minha opinião, uns dos melhores dos últimos anos. Simplesmente inspiradores e viciantes.

Sulicídio” foi o soco na barriga que a cena precisava. A cutucada nos protagonistas da cena que definitivamente fez história no rap nacional. E funcionou. A cada mês que passa são mais e mais ótimos lançamentos como há tempos que eu não via.

Não se trata de inveja e sim o desabafo sobre uma cena engessada em modismos com muitos mc’s acomodados em seus hits para público adolescente. Nada nem ninguém cresce sem críticas.

Não pense que sou contra esse tipo de mc. Pelo contrário, pois como eu disse, não existe limite para se expressar. Se quer falar de festa, drogas, mulheres, fale. Apenas não aceito que isso vire o exemplo do que é rap para a nova geração.

O rap e o hip hop sempre tiveram na sua base o engajamento social, com o objetivo de salvar e mudar vidas. Essas letras em questão passam que mensagem? Mudarão a visão e vida de quem?

Que os novos mc’s que estão surgindo coloquem o rap novamente nos eixos e possam fazer a diferença para o mundo com a sua música.

Torço para que mantenham a qualidade, inteligência e originalidade para que futuramente possam ser referência assim como Racionais, MV Bill, Sabotage, RZO, Facção, Black Alien, SNJ entre outros são até hoje.

Salve o rap e a cultura hip hop do Brasil!