Confira a última entrevista do Sabotage

Assassinado na manhã do dia 24 de janeiro de 2003, no bairro Saúde (Zonal Sul de São Paulo) próximo a sua casa, Sabotage deixou a esposa, 3 filhos e um legado na música brasileira que ecoa eternamente. Em pouco tempo Sabota lançou um álbum de estúdio (e preparava outro), atuou em dois filmes (“O Invasor” e “Carandiru”), fez trilha sonora, entre outros feitos que o fazem ser a lenda que é hoje.

A entrevista a seguir aconteceu pouco tempo antes de sua morte. Na época Sabotage estava na sua melhor fase, em ascensão. A entrevista carrega essa energia, e através das palavras do rapper percebe-se o quanto estava feliz e realizado. “Meu show é 500, 800 reais. Já é mais que um salário mínimo. Falei para a minha mãe que um dia ia viver de música, e hoje vivo de música“, diz em um trecho.

 

Conheça melhor Sabotage através de suas próprias palavras, entenda seu relacionamento com o crime, música e maconha. E adquira um pouco do conhecimento que o artista tinha através de suas críticas à sociedade e ao cinema:

[su_spoiler title=”ENTREVISTA” open=”yes” style=”simple” icon=”plus-circle”] Por que o nome Sabotage? 

— Meu irmão que já morreu vivia me chamando de Sabotagem. Você trabalha no tráfico e não vai preso — isso, para ele, era uma espécie de sabotagem. Na época eu não sabia o significado da palavra. Hoje, quase oito anos depois, eu já entendo. Sabotagem é um ato terrorista.

Mas a mensagem das suas músicas não chega a ser assim tão violenta…

— É bem antiviolência. Vi meu irmão assassinado com treze tiros no Jardim Arthur Alvim [zona leste de São Paulo]. Vivi a violência e cheguei à conclusão de que não adianta. Se eu usar da violência contra quem matou meu irmão, vou perder dois irmãos. É um cuzão filho da puta? Como todos nós, filhos da puta e irmãos. A violência é a maior besteira.

Qual efeito a violência provoca?

— O resultado da violência é você ir se transformando, sabe uma metamorfose? O cara pratica o primeiro ato de violência quando discute na rua, briga. Depois entra no tráfico, vira o terror da violência. Aí ele não vai mais bater, vai dar tiro. Aí cai um, caem dois, três, quatro, e ele cai numa cadeia, perde 10, 15 anos da vida dele. E sai com a mente podre, pensando em outro assalto. Uma hora ele vai morrer, vai ser preso de novo, procurado, não vai poder passear. É tão legal você poder passear, meu… pegar um tênis, uma calça e sair de rolê, pegar a lotação e ir embora… É tão legal respeitar todo o mundo com palavras simples, “com licença”, “obrigado”. Mas o lance é que é muito difícil ver um cara que conseguiu sair da violência.

Você conseguiu…

— Quando eu estava no crime, fazia minhas artes e corria para cá igual a um homem-bomba, com duas armas na cinta, sabe? Eles, coitados, ficavam olhando para mim e pensavam “porra, o que será que esse cara vai fazer?”. Eles gostam de ver como eu estou hoje, vêem que eu venci. Dizem até na boa, “vou fechar a porta aqui para o fumo não entrar, beleza?”. Os boys da televisão, as minas que fizeram Playboy, isso nunca me incentivou em nada. Só a favela me deixou com vontade de sair dos bagulhos…

Você nasceu na favela, não foi?

— Nasci na favela do Canão, onde hoje tem a [avenida Águas] Espraiadas [centro-sul de São Paulo]. Mas defendo a tese da periferia toda. A fome e a pobreza falam a mesma língua, assim como os ricos. Para eles é festa todo dia, de segunda a sexta, balada de mil grau, sexo e gomorra, tá ligado?

Quando você era criança, o que era a violência da favela?

— Na minha época, eu passava fome, mas tinha os caras do crime que falavam: “Você não vai nessa fita, não. Fica aí que, se arrumarmos um dinheiro, nós te damos”. Hoje isso mudou, a droga é mais forte e o crime, mais pesado. Você vê moleque de 14 anos com arma 9 mm dando tiro que nem louco na porta do salão. Você vê cara colocando roupa da Eletropaulo [a companhia de luz de São Paulo] e estuprando as minas por aí. O bagulho tá louco, mano, e a tendência é piorar… Emprego só tem na Polícia Militar. Aí o cara vira polícia, sabe que você conhece o morro e vai te atazanar para o resto da vida.

Você já foi preso alguma vez?

— Já, né? E eu analiso as coisas assim: há males que vêm para o bem. O inteligente é aquele que aprende com o erro do errado. Quem está no crime e não vai preso? Qualquer cara da periferia que não escuta o pai nem a mãe vai parar na cadeia ou vai morrer rápido. E aí, mano, é o seguinte: morreu, fodeu, tá entendendo? Satanás usa a TV como um livro dele! Não tem estudo na TV. Tem informação, sim, mas sobre sexo. É só pega ali, chupa aqui, alisa lá. Você não vê novela? Das 6, das 7, das 8, Malhação. Isso gera a violência.

Hoje você está casado, construiu uma família. Você se considera um sobrevivente?

— [Aponta para um senhor gordo do outro lado da rua] Ali é meu sogro. Ele fica mordidão porque eu fumo maconha. Ele me vê na televisão e diz que não sou eu. Só me chama de Maurinho… É daqueles caras do interior, humilde. Repara bem: a bicicleta dele tem um motor de moto. O velho é mil grau, uma inspiração que a gente tem. Trabalha pra caralho e não fala da vida de ninguém. Pode chegar e perguntar: “Você viu o cara do 44?”. Ele mora no 43, mas vai dizer que não viu nada.

— Ele é parte daquela maioria honesta e trabalhadora que paga o pato das ações criminosas que acontecem no morro… A cocaína não vem do morro, vem do avião da FAB. A maconha é plantada no terreno de quem? Além disso, tem os caras que buscam o neguinho na favela, dão dez reais para ele e amanhã já era. Amanhã esses mesmos caras ganham um Oscar, ganham tudo, mas o neguinho continua no barraco…

Isso seria uma crítica ao diretor Fernando Meirelles e à produção de seu filme, Cidade de Deus?

— Primeiro pego na mão dele por mostrar a realidade. Depois discordo de algumas coisas. Cadê a mãe dos caras, que não aparece nunca no filme? A molecada só cresce, vira ladrão, mata, morre. A mãe deles sofreu, chorou para não entrarem no crime. Tem que ter uma história bem contada, não é assim não! Eu fumo maconha o dia inteiro, mas vejo tudo em detalhes. Então não vem com essas de “mas isso é um filme”. Vai enrolar os boys, os caras da casa do caralho!

Você disse que fuma maconha o dia inteiro. Que efeitos te provoca?

— Eu vivo num mundo totalmente isolado. Analiso as coisas antes de fazer as paradas. Fico sentando de cantão, olhando. Então as pessoas falam: “Puta, aquele cara viaja 24 horas na maconha, será que ele pensa o quê? Será que ele não pensa em nada?”. Eles não encararam qual é a minha, mas os filhos que são adolescentes dizem: “O Sabotage é doido, escreve as músicas dele, já não tem mãe nem irmão, perdeu os primos todos assassinados, o tio está preso há 29 anos, o velho Monarca [personagem do livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella, foi retratado no documentário Travessia do Tempo, da jornalista Dorrit Harazim] ”. Conclusão: não tenho muito o que ficar rindo, mas também não tenho muito de ficar “coitadinho sou eu, culpado são vocês”. Então fico aí registrando as coisas e escrevendo, sabe?

O maconheiro sofre muito preconceito?

— Total. Tanto é que a [revista] Época fodeu a mina lá, a Cidinha da MTV…

A Soninha?

— Isso, a Soninha! Vai lá no morro perguntar se eu fumo maconha. Vou dizer que fumo e é o seguinte: você vai ganhar prêmio de melhor cagüeta, que nem o outro que morreu e deu prêmio para a Globo…

O Tim Lopes?

— Ele mesmo. Ficou rico em vitamina — debaixo da terra.

Voltando lá atrás, como começou a sua carreira na música?

— Sempre gostei de música. Com 8 anos eu já escutava Pixinguinha, Chico Buarque. Sou aquela espécie de negão que não joga uma bola, que gosta de escrever uma música, de escutar um som. Eu gosto de ouvir Cassiano… Não gosto de caras da minha idade cantando uma parada de agora. Muitos enxergam Aracy de Almeida como aquela gorda nos jurados do Silvio Santos. Vejo Aracy como uma mina de 25 anos cantando nos grandes coretos por aí. Para falar de música comigo, tem de ser professor.

Você é daquela turma de rappers que ia para o metrô São Bento, no centro de São Paulo, junto com Thaíde e DJ Hum?

— Ficava escutando rádio e ouvia que os caras se encontravam na estação São Bento. Eu falava: “Pô, do jeito que estou aqui no morro, vendendo droga para comer um arroz e feijão, não vou chegar lá nunca”. Eu já estava no crime a milhão. Minha mãe morreu, meus irmãos morreram, não tinha nada a perder. Aí veio uma luzinha: “Não é porque você não tem sua mãe que vai ficar sem estudar. Vai ter de estudar e cantar ao mesmo tempo”. Então entrei na escola.

Qual é a primeira música marcante de sua vida?

— Quando ouvia “O Meu Guri” [de Chico Buarque], aquilo era o meu retrato no morro. Porque eu era vendedor de droga. E, quando vinha a polícia, corria para dentro do morro, guardava os bagulhos em tal lugar, a arma em outro, trocava de roupa e ia para dentro do meu barraco. Chegava lá, meu pai estava vendo televisão, e meu coração batendo na boca. Aí entravam os homens, perguntavam se ele não tinha visto nada e ele “não, não”. Ficava olhando para mim, para os policiais, e quieto. Ele tinha medo dos caras, mas eu dizia para ele: “Você não viu nada, não vai falar nada. Se vierem aqui falar que vendo droga, você não diz nada”.

O que você está ouvindo hoje?

— Sou um cara que mistura. Estou escutando Eminem, aí vou pegar Naná Vasconcelos. “Pô, esse cara é louco! Ele misturou um bagulho de fora com isso aqui [aponta para um barraco que toca alto Pena Branca e Xavantinho].” Tá escutando? Tá me entendendo? Um cara me perguntou como eu consegui misturar a levada rápida do Eminem com o sotaque do Chico. Mano, eu entrei na música dos caras, imaginei e inverti. Essa é a música!

Você é criticado no meio rapper por misturar tanta coisa tão diferente?

— Com 8 anos eu vendia droga, aos 15 perdi minha mãe e meus irmãos, vivi no crime e saí dele cantando música. Os caras respeitam.

E você, qual crítica faria ao rap de hoje?

— Antigamente o rap falava assim: “Vamos rezar para que a gente consiga pelo menos o pão de cada dia”. Agora está assim: “Mano, vamos brindar, champanhe, caviar, Chivas”. Conheço gente aqui dentro da favela que está brindando com ki-suco. Não é bem por aí, irmão.

Isso soa uma crítica indireta aos Racionais. Eles abriram várias portas para o rap, não?

— Para um cara igual eu, RZO, Possemente, Zulu, tudo bem. Mas e os caras que estão chegando agora? Ninguém quer ouvir… Só estão falando deles, então só vão comprar CD deles. Não, mano, a união faz a força!

E quem encabeça essa união? Quem são os caras que lideram o rap no Brasil?

— É uma quadrilha, igual torcida de time. Eu não tenho núcleo para isso, mas você vê uma galera com camiseta do Sabotage, Racionais, 509E, tá ligado? Se essa galera pega um cara no meio do show dizendo que não canto porra nenhuma, vai querer dar botinada no cara igual a torcida de futebol.

Como foi participar do filme O Invasor?

— Aprendi bastante com o Paulo Miklos, principalmente aquelas paradas de doidão. Ele falou assim: “Você não tem insônia?”. Eu tenho. “Então por volta das duas horas da manhã começa a escrever uma música. Você vai perder a insônia e vai querer ela de volta.” Outro cara foi o Beto [Brant, diretor]. Ele tinha mostrado uma parada para mim que não concordei. “Isso aqui não cabe, nunca vi um cara da favela falar isso aqui”, eu disse. Eram as falas do Anísio, personagem do Paulo. Umas paradas meio Mauricinho de faculdade. Aí ele deu corda e fui mudando tudo. Você fez o lado de lá falar a língua da periferia… Hoje os globais sabem falar gíria. Caio Blat, Rodrigo Santoro, os caras que conviveram comigo nas filmagens do Invasor e do Carandiru não conseguem mais falar normal. A Mariana Ximenes também…

Conte um pouco como foi gravar Carandiru, com o diretor Hector Babenco.

— Foi foda, mano. Eu dizia: “Isso não existe”. Ele dizia que era um filme, e eu dizia que era a realidade. Aí ele começou a dar ouvido. Mas é um cara rígido… Exige de mim, como exige do bonitão. Quer saber é do filme dele pronto, senão põe outro no lugar. Também, se você não tiver objetivos, vai chegar onde?

Você compôs um rap com Babenco, não foi?

— Fiz a trilha sonora. Ele escreveu umas paradas de águas turvas, uns bagulhos lá de onde ele nasceu, da Argentina. Aí me explicou que águas turvas significava águas sujas, escuras. Ele começou a me explicar e eu fiz a música com ele. Deu um bagulho violento. O nome é “Sai da Frente que Vem Gente”.

Você fez filmes, aparece na mídia. A exemplo do Xis, que participou da Casa dos Artistas, você já sofreu críticas por isso?

— Ninguém fala isso para mim. Mas para o Xis… vixe, só faltaram bater no cara. O caso é que ele plantou uma parada e fez outra. Entra na Casa dos Artistas do nada e diz que não arruma a cama porque é favelado. Vendeu uma imagem que não corresponde à da favela. É, e aí já era. O Belo [cantor carioca acusado de envolvimento com o tráfico], você acha que está malvisto? Nada, meu, a galera gosta dele, as minas, a criançada. A gente já conhece ele, sabe que nasceu na favela, passou por circunstâncias, teve problemas também. Vocês não sabem disso.

Alguém já chegou questionando suas atitudes, te intimando?

— Nada. Sou vacinadão nesses baratos. Já foi o meu tempo de crise, de dar porrada. Sabe o que falo para o cara? Pergunto o que ele não gostou e digo que vou melhorar. Pago até esse mico [risos]…

Comparando seu som ao dos Racionais, ele é, digamos, menos contundente. Você concorda com essa avaliação?

— Eu mudei a técnica vocal, a levada. Depois do meu CD, é Jão pra cá, Tio pra lá, essas paradas que veio da cadeia, do velho Monarca. Tanto é que no Invasor já tem um Jão e um Tio, bem antes de sair qualquer lançamento de rap [os termos aparecem no último trabalho dos Racionais MC’s, Nada como um dia após o outro dia]. O Anísio é total Jão… Quando o Beto [Brant] me perguntou se existia um Anísio, disse que em cada periferia, cada botequinho, tem um.

Você virou sucesso na periferia. Como lida com isso?

— Me chamam de fodidão. Mas fodidão é o caralho! Fodidão está lá em cima e manda sol, chuva, trovão e estoura essa porra se quiser, tá ligado? Eu olho no olho do cara e vejo se ele merece, se é amigo de verdade. Porque hoje em dia seu inimigo não tem cor nem tem cheiro. E não é só na favela que é assim. É na faculdade, no trabalho.

Você se considera um líder?

— Eu queria poder falar “vamos trabalhar” e que os caras viessem na minha. Eu falo: “Mano, já vendi droga, já tomei tiro de polícia, já dormi no matagal por causa de polícia e de ladrão querendo me pegar. No mundo do crime você arruma vários buchichos”. Aí uns falam: “É mesmo, né”… Mas, depois que eu saio fora, continuam fazendo a mesma coisa. Mano, a paz não se prega assim [fazendo o sinal da campanha “Sou da Paz”], mas com comida, estudo. [Aponta para um senhor] Aquele velhinho ali é muito inteligente, mas não tem trampo. Os adolescentes, só na maconha — na zona sul já tem até uma lei que diz que se alguém ligar reclamando porque tem gente fumando na porta, quem vai preso é quem ligou.

Você se sente um vitorioso?

— Meu show é 500, 800 reais. Já é mais que um salário mínimo. Falei para a minha mãe que um dia ia viver de música, e hoje vivo de música.

O que você vai deixar para seus filhos?

— Eu falo para eles: “O pai, daqui a uns 40 anos, se chegar lá, vai perder a voz, o pai fuma maconha, cigarro… Portanto, vai estudar, porque eu já alcancei o que queria”.

Quais são seus próximos trabalhos?

— Fiz uma participação com o Sepultura, regravamos um Public Enemy. Os Titãs querem regravar “Um Bom Lugar”, se ainda tiver espaço no disco novo.

Qual vai ser o seu futuro?

— [Pensativo] Vou ficar fazendo cabeças por aí com o rap…

Vamos simplificar a pergunta: como vai estar daqui a dois anos?

— Puta que pariu… [Pensativo] A tendência é só piorar… Se o Lula não der jeito, meu Deus do céu, estamos todos pegos!

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[ATUALIZAÇÃO]

Anteriormente, informamos que a dita “entrevista do Sabotage é exclusiva e foi lançada através da revista TRIP”. Erramos! A entrevista é de fato a última do Sabotage, no entanto, não estava guardada e foi publicada em março de 2003.

Desculpa por isso! Corrigimos a matéria.

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VICE: Registrou, Já Era: As informações sobre a morte do Sabotage

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