The Get Down é ‘Illmatic’

Nas, que acabou de completar 43 anos (no dia 14 de setembro) foi um dos produtores da série que deu uma chacoalhada no mundo do Hip Hop: The Get Down, e responsável pelas rimas inclusas na série, é um dos maiores rappers da história, por tudo feito e principalmente pela sua obra prima: o álbum “Illmatic“.

Seu álbum de estreia já fez o suficiente para colocar não só sua cidade, mas seu lado do país (East Coast) no mundo. Na época somente os músicos do outro lado do país conseguiam sucesso, como Dr. Dre e Snoop Dog, Nas conseguiu quebrar isso e botar Nova York de volta no jogo — na época a cidade tinha como grande referência Rakim e Eric B.

Rakim e Eric B. serão duas figuras que com certeza estarão em todos os documentários e tudo sobre o Hip Hop do final dos anos 80, são grande referências desse mundo e figuras certas quando é hora de falar do inicio do Hip Hop. A dupla veio depois do narrado na série, resultado também dos problemas dela, a dupla era basicamente o que a série exalta: um grande MC (Rakim) e um DJ sem igual (Eric B.), ambos se completavam, foram grande sucesso na cidade, com o Eric sampleando os sucessos do Grand Master Flash (um dos participantes na série). E até o dia que eles se separaram, foram o grande sucesso de NY.

Nas
Nas

Com o tempo passando, ninguém conseguia demonstrar a realidade da cidade tão expressivamente no movimento, e o outro lado do país começou a crescer com Tupac e os gangster do West Side, até o dia em que alguém tomou o microfone e fez história.

Nas em “Illmatic” narrou o subsequente, o que era a realidade de um menino transformado pelo Rap e pela violência dos subúrbios de Nova York, e a série The Get Down contou o começo: os políticos corruptos, as drogas e os movimentos sociais, a entrada do crack, isso foi uma bola de neve. O contra movimento, para inspirar os jovens, foi o feito por Nas, Kool Herc, Bambaaataaa e os Zulus, Grand Master Flash e outros, a corrente foi algo sem tamanho para todos os rimadores atualmente e NY se tornou uma referência para o Hip Hop mundialmente.

Jermaine Cole é um grande exemplo disso, nascido na Alemanha, foi para o norte da Califórnia e buscou logo em NY realizar seu grande sonho de entrar no mundo do RAP, ao insistir e receber total apoio de Jay-Z, hoje é um dos maiores nomes, mundialmente falando.

Se destacar depois de alguns anos sem um grande MC representando seu bairro não era tarefa fácil. Desacreditado em ter retorno financeiro pela maioria das gravadoras, o “Illmatic” foi lançado pela Sony Music’s Columbia Records, de forma apressada, tendo apenas dez músicas e com diversas mixtapes, para fugir de alguns problemas de venda, como a reprodução ilegal, mas mesmo assim, atingiu as expectativas: pouco lucro. Devido ao grande número de pirataria, o álbum teve apenas 330 mil cópias no primeiro ano.

O álbum é simplesmente perfeito liricamente, referência para qualquer um querendo um bom beat, inspiração para quem precisa criar uma boa letra, ser “Illmatic” é fazer mais na hora de descrever sua vida no bairro, contar suas histórias e relatar seu amor pela música. Tem exatamente tudo, descrição, rima, ritmo, Dunn Language (gírias surgidas especificamente no Brooklyn), Jazz flow, Blues, Nas frenético sozinho, Nas arrebentando com parcerias. Vamos destrinchar o álbum em suas 10 faixas e deixar de bandeja pra você.

A Dunn Language não foi tão explorada pela série, pois ela surgiu nas ruas e no Rap, Rakim, que já foi citado aqui no texto, é um dos principais criadores dessas gírias. Entrando no mundo de “Illmatic“, ele nos faz ir pelos caminhos que cruzava diariamente. Ao som do trem, que fez parte não só do seu caminho, mas da sua rotina no Brooklyn, descritas também na série. Na música de entrada, a “The Genesis“, Nas e Faith N. descrevem o caminho para o começo de tudo. Com diálogos do filme Wild Style começando o álbum — um dos primeiros filmes com influência do Hip Hop — seguidas de versos do próprio rapper em participações em “Live at The Barbaque“, do Main Source.  A música é a passagem, o túnel, a entrada para os interiores do Queens e seu habitat.

E ai chega o primeiro murro na cara, “NY State of Mind“, uma música com o mesmo nome de outra, a qual o rapper usou como referência, feita por Billy Joel, e letra inspirada na música “Streets of New York” do Kool G.

Nas começa enrolando, assim como Books faz na série, na sua primeira vez com o microfone: um Yeah Yeah, pedindo a palavra, era sua primeira música gravada em um estúdio, e convenhamos, o cara fuzilou e deu show no microfone. Ele deixa claro o lado mais real de onde morou sua vida toda, fugindo do Empire States, e chegando ao verdadeiro estado de mente pertencente à NY. Ao som dos loops de guitarra de “Flight Time“, de Donald Byrd, e o groove do piano de “Mind Rain“, de Joe Chamber, ele descreve as ruas, como é viver a margem da sociedade, com rimas metafóricas, falando da morte próxima, do dinheiro, das drogas, violência, como no verso mais marcante da música: “I never sleep, cause sleep is the cousin of death“, o rapper mostra que cada piscada pode ser um passo para a morte e como as quebradas do Queens, Bronx e do Brooklyn fervem.

E depois de um soco na cara, é hora de sacar as armas e reagir. “Life is a Bitch” é um tiro no peito, considerada por muitos a faixa mais triste da história do Hip Hop. Nessa faixa Nas e A.Z. falam como a vida deles só faz sentido com o uso de drogas, demonstram o quanto eles já deixaram de se importar, até mesmo cozinhando o crack para serem vendidos, pra ter máximo lucro e assim correndo muito mais riscos. No verso refrão da música, isso fica claro: “Life is a bitch than you die/ that’s why we get high/ Cause you never know, when you gotta go”, ele compara a vida com o trabalho de uma garota de programa, com todos seus percalços, e será assim até morrer e por isso sempre devemos ficar chapados. Depois de tantas histórias, Olu Dara fecha a música com um solo de trompete de cair o ouvido. O beat da música foi produzido pelo Dj L.E.S.

Para entrar ‘in da gangsta shit’, vamos conquistar o mundo e ele será nosso, ou melhor, dele, seguindo o lema de Tonny Montana, do filme Scarface, vem o título “The World is Yours“. O som tem provável inspiração na música “Hey Young world” de Slick Rick. Algumas frases da faixa, devem ser destacadas, como a seguinte: “I’m out for dead presidents to represent me“. Nas pega uma gíria já feita por Rakim anteriormente, utiliza a Dunn Language, e se refere aos presidentes mortos nas notas de dólares, ou seja, significa dinheiro, posteriormente Jay-z sampleou esse mesmo verso para fazer a Diss contra o próprio Nas e assim causar uma das maiores Disses (brigas do mundo do Hip-Hop), com “Takeover” e “Ether“.

Disses são famosas no mundo do RAP, grandes brigas marcam o estilo, como a de Ice Cube e Dr. Dre, 50 Cent e Ja Rule, Ice Cube e NWA, Snoop Dogg para o Suge, muitas outras, como a mais famosa, de Tupac e B.I.G.

O provável começo dessas ‘brigas’ entre rappers tenha sido, como demonstra The Get Down, nos tempos onde os DJs disputavam quem tinha o melhor beat um contra o outro e os MCs começaram a fazer parte dessas batalhas, surgindo assim não só as Disses, como as batalhas de mc’s.

Seguindo no disco, vem a minha favorita, me acompanha por anos no mp3 e nos fones de ouvido: “Halftime” é uma música influente, todos os sons dos anos 90 têm um pouco dela, é fantástico como ele sampleia diversos mc’s como Dead End, Average White Band, entre outros e consegue fazer uma batida leve e rápida. É a única música completamente cantada por Nas, foi a primeira a estourar em todos os bairros e a primeira pronta de todo o álbum. “Halftime” é o intervalo, e você sabe que é hora de dar uma pausa porque chegamos exatamente na metade do álbum. E nos jogos de basquete e futebol americano, o show realmente acontece no intervalo e isso é feito por essa música — leitor encare essa parte do texto como nosso halftime, pare, acenda, reflita, larique e volte, para conseguir entender todo o texto sem apanhar para o cansaço das linhas.

A próxima música é a “Memory Lane (Sittin’ In Da Park)“. “I’m taking niggas on a trip straight through memory lane” é o verso que melhor resume o som, Nas com 20 anos falas como se fosse um velho contando sua biografia. Isso porque vivendo em uma zona suburbana não se tem infância ou juventude, aos 14 anos o rapper já se sentia com 25, e não porque queria, mas pelas responsabilidades assumidas, ele mesmo diz isso em suas entrevistas, parece estranho um jovem querendo falar sobre o que viveu, mas sendo da favela, com 20 anos, você já viu e passou por tanta coisa e pode dizer que fez história, só em estar vivo. E observamos isso em The Get Down, ainda na escola Ezekiel convive com diversos desafios diários e é testado a superar desafios de gente grande. A música conta com um belo sample da música “We’re in Love” de Reuben Wilson, mostrando mais uma vez o conhecimento musical de todos envolvidos no álbum.

Chegamos à carta ao amigo na prisão, muitas músicas de rap reproduzem essa mesma carta, desde Dina Di até o Dexter, seja de dentro pra fora, ou de fora pra dentro da cadeia, e Nas não foi diferente. Rimando de forma direta, em meio a um “One Love” memorável no mundo do rap, Nas senta novamente com seu Buddha Sack (grande saco de maconha) e começa a pensar como ele e seu amigo trancaficante eram parceiros na escola e agora a merda chegou tão no alto a ponto do seu amigo estar preso enquanto ele bota sua caneta para funcionar. Essa música é história, são casos que acontecem comumente em meio as realidades do mundo do Hip Hop, não será nenhuma surpresa se algum dos membros do The Get Down for preso e não fizer parte do sucesso junto ao personagem principal.

https://www.youtube.com/watch?v=4xwuNTatTGU

Essa é a hora da perfeição. Em um beat lento, rimando frase por frase, totalmente contrário ao feito na última música principalmente, e em todo o álbum, Nas engatilha cada palavra e faz baterem na mente como golpes do Shaolin Fantastic. Ao beat do grande Large Professor, “One Time 4 Your Mind” te envolve e contamina e em um momento de luz, o rapper demonstra que domina todo e qualquer ritmo, dando o toque final para crítico algum achar qualquer erro.

https://www.youtube.com/watch?v=DSztF78vJIc

Começamos a ver um fim. Em “Represent“, Nas ‘representa’ a sua quebrada Queensbridge e canta sobre toda a maconha fumada e balas trocadas. Com batida do DJ Premier, a música volta ao ritmo rápido, mas graças a lírica de Nas, tudo se faz claro enquanto ele rima. O culto a erva se torna claro no mundo do Hip Hop, até mesmo na série, com diversas cenas, inclusive no primeiro episódio, com Mylene chamando Ezekiel para fumar um escondido.

https://www.youtube.com/watch?v=MoAbx_GMr7U

Por último, e muito importante, colocando Nas no segundo lugar no pódio de rapper do lado Leste na época, vamos ao clássico: “It ain’t hard to Tell“. Com diversos samples de muitas músicas, desde Michael Jackson até Stanley Clarck, o som demonstra o sonho de todo produtor, já chegar com peso, desde a primeira batida, tem um ritmo mais do que pesado, se chamando Deus da erva, citando a Five-Percent Nation (uma crença vinda do catolicismo e valorizando os negros). A música em seu total é uma valorização à cannabis e, com um flow tão sensacional, ela finaliza deixando claro o posto de segundo colocado da Costa Oeste à Nas.

Neste álbum, Nas demonstrou pro mundo a possibilidade de ser “Illmatic” e se juntar com a galera, pegar beats e rimas de diversos outros produtores e MCs para criar a sua obra, The Get Down é Illmatic também da mesma forma, com Soul, Funky, romance, drama, documentário, Gospel e muito, muito RAP clássico, a história encanta e será cantada por muito tempo. Mesmo que o enredo não tenha sido o mais elogiado, a história por trás deve ser destacada e o rap sempre agradecerá.

Por fim, pare e escute este clássico, depois procure a série, complete sua coleção do RAP com esses dois clássicos que demonstraram que a mistura é a evolução, seja a mistura do Disco com o Funky, Soul com o Gospel, Mylene e Ezekiel, Nas e os rappers da Queensbridge, EDM e Rap como acontece atualmente, a música vive na união e sempre será assim.