RND Entrevista: Kamau fala sobre o seu novo clipe “Tudo uma questão de…”

“Sentiu falta?”, pergunta Kamau logo no início de “Tudo uma questão de…”, música inédita que o rapper lançou dia 1 de dezembro.

Com 20 anos de carreira, 2017 não poderia passar batido sem material novo circulando e o rapper sabe muito bem como instigar seu público, uma base fiel de fãs que o segue desde 1997 com os primeiros sons.

Diferente de seu modus operandi já conhecido, nesta nova faixa, a escrita é mais solta, desamarrada de um tema principal – o que deixa o ouvinte livre para interpretar. A rima é mais lúdica e o beat encorpado pelo baixo lembra o rap de Detroit, berço de Dilla, Black Milk e outros produtores que inspiram suas criações.

Criada por Grou (produtor musical e beatmaker), a base foi concebida inicialmente como um remix de “Com Licença”, faixa de abertura do último lançamento de Kamau, o EP “Licença Poética” (2015), mas foi repensada para esta inédita de agora.

Depois de criada a letra, Kamau convocou Júlio Mossil para somar com o baixo, Jhow Produz complementando os teclados e o DJ Erick Jay para as colagens já características dos sons do MC.

“Tudo uma questão de…” é a segunda faixa da série criada por Kamau, Avulso, sucedendo “Contra” (2016), e precedendo a comemoração de 10 anos do primeiro álbum solo, “Non Ducor Duco” (2008).

A inédita também acena para a próxima década da carreira do MC, verdadeiro legado e arquivo do hip hop feito no Brasil.

Próximo de fechar 10 anos do CD “Non Ducor Duco”, o que mudou no Kamau musicalmente e pessoalmente desde então?

Musicalmente muita coisa mudou, eu já tenho uma perspectiva muito diferente do Rap. No “Non Ducor Duco” eu tava começando a andar sozinho. Na real, em 2005 eu lancei a mixtape “Sinopse“, mas eu ainda tinha o Simples e o Consequência tava dando um tempo. Mas no “Nun” foi meio que apostar tudo. Eu lembro de entrar no estúdio com quatro músicas e falar “mano, tem que sair um álbum disso”. Eu ainda não tinha o álbum formatado e agora eu penso em fazer algo parecido, mas com muito mais estrutura, muito mais conhecimento e até com mais dinheiro guardado.

Pessoalmente uma pessoa mais madura, pois já passei dos 40 anos e lá eu recém tinha passado dos trinta. Tenho uma outra relação com a família e outras coisas que já começo a pensar diferente porque querendo ou não a gente pensa que depois que o tempo passa algumas coisas já estão mais próximas de se assentar. Mas a essência de quem gostava de fazer música naquela época e gosta de fazer música agora, se mantém.

Vem álbum novo para 2018?

Em  vou comemorar os dez anos do “Non Ducor Duco”, mas não posso prometer, mas eu quero muito chegar no resultado pretendido para o “Mosaico“. Então, eu quero fazer o “Mosaico” para 2018, sim. Se eu posso prometer e afirmar? Não. Não posso prometer nem afirmar porque depende de várias outras coisas.

O clipe mostra aparentemente a ideia de uma “continuidade” da tua trajetória através da fita, passando de pessoa em pessoa até voltar a ti. Como você avalia o teu legado nesses vinte anos de carreira?

É muito difícil pra mim avaliar o meu legado. Acho que legado é visto por quem está de fora. Pra mim é a vida mesmo, não é o que eu pretendo deixar, nem o que eu acumulei. Eu continuo na caminhada e nem sempre eu olho na bagagem pra ver o que tem e falar pras pessoas “tem isso”. Mas, eu acho que eu sempre pensei em passar o que eu sabia pra algumas pessoas próximas e isso se expandiu conforme o tempo ia passando ao alcance do que eu queria passar e aprendendo sempre né?

Sempre aprendi com os mais velhos e também os mais novos. Depois de um tempo passei a aprender mais ainda com os mais novos e continuo aprendendo com os mais velhos. O KL Jay me ensina tanto quanto o DJ Will. Então eu aprendo com o Nego Max, aprendo com o Mano Brown, aprendo com o DJ Nyack, aprendo com Zudizilla. O que mais prezo nesses vinte anos é o aprendizado, a aplicação desse aprendizado e propagar o que aprendi pra outras pessoas. Acho que o meu papel aqui é esse.

Quais as tuas influências no momento?

Minha principal influência no momento é o tempo. O tempo no geral. O tempo decorrido, o tempo que eu ainda tenho, o tempo que eu tô aqui, o tempo que as coisas duram. O tempo que eu quero que as minhas coisas permaneçam pelo mundo, girando pelo mundo, mas musicalmente, ainda muito das mesmas: Racionais, Dilla, Jay Z, Just Blaze, Madlib, ATCQ, aqui no Brasil ainda muito do que eu aprendi com o DMN, com o RZO, com Posse Mente Zulu, Thaíde e DJ Hum, com o Hip Hop Cultura de Rua, todas essas influências essências eu ainda carrego, e ainda buscando novas: Kendrik Lamar, Jay Cole, Zudizilla, Síntese, Dj Nyack, Discopédia, são várias….

Podemos esperar algum trabalho coletivo com o Kamau para 2018?

Bom, trabalho coletivo com Kamau eu não sei… não posso garantir. Eu agora não faço parte de nenhum coletivo em si, a não ser o Laboratório Fantasma, no qual sou um artista de booking, eles vendem os meus shows, mas não sou um artistas cem por cento Laboratório Fantasma, sou Plano Áudio/Laboratório Fantasma – Plano Aúdio é minha concepção musical, artística, de carreira e tudo mais, e o Laboratório Fantasma vende os shows a partir do que eu criar por aqui, criar do meu jeito, mas eu sempre tô aí na escuta, de olho atento nas coisas que vêm. Eu não considero que eu era do Simples, que eu era do Consequência, eu sou do Consequência, sou do Simples, e sempre vou fazer o possível pra levar essa história junto, levar os parceiros comigo, por isso que eu tô no disco novo do Sagati, no do Henrique Fuentes, o Agora, com a Stéfanie também no próximo disco dela; mas não posso garantir que vai ter algo coletivo.

Aproveite para conferir o último trabalho de Kamau: