Muita sinceridade e resistência marcam as linhas, a produção e o clipe de Rato e Ralph em ‘O Inimigo (RapFlow Jazz)’

Na última quarta feira, 1° de fevereiro, Rato e Ralph, representando muito bem o Vale do Paraíba, mostraram no lançamento “O Inimigo (Rapflow Jazz)” como é viver o rap no subterrâneo taubateano. O instrumental do Rato e o clipe deram a atmosfera perfeita pra ideia que deveria ser transmitida.

Assim que eu vi o clipe pela primeira vez aquele beat com toques marcantes de jazz, que valorizam muito bem a escola que ele foi pro rap por sinal, e aquelas cenas dentro do coletivo cultural Colmeia, me trouxeram logo a sensação de uma sinceridade e uma hospitalidade muito grande. Pro Rato, além da musicalidade ser das favoritas, o alicerce por trás disso é muito forte: “Gosto da essência do jazz e tudo o que ele significou e significa. Jazz é música proibida, é música preta, é música de resistência, e ainda que seja em um recorte de sample, acho importante trazer essa essência pro nosso Rap.

Me senti em casa. Pode ser porque eu não nego nem por um segundo a minha raiz do Vale, mas é também parte do poder daqueles que fazem da vida sentimento e do sentimento arte. “A nossa contribuição é como se fosse um rap sem maquiagem, é o nosso som, a nossa vida, eu sou aquilo ali que eu to transparecendo. Então a gente busca esse tratamento humano com o rap, todo mundo que tá ali no clipe faz parte disso, mesmo não tendo o estereótipo dele. Elas são o rap porque tão sendo elas. O hip hop é isso né? É poesia, a poesia é você se expressar sem medo, livre. Então a gente vem nessa pegada de tratar tudo como rap, como jazz, tratar o fluir da vida como o flow, fazer essa relação”, me explicou Ralph.

No som o verso que fala que “a conduta não muda pro show” sintetiza bem essa postura do mc que não é um personagem, mas que vive o rap. As linhas vieram nessa pegada consciente que já é costume desses manos com muita história. Além disso a dupla foi muito feliz na na produção, no clipe e de como se formou essa composição de elementos.

De propósito e sem querer todo o contexto criado é uma forma de resistir a esses tempos franzinos de amor. Pra quem não sabe, o Coletivo Colmeia é de responsabilidade dos dois e das suas esposas. Intimidade, cultura e troca de experiências é o que marca o ambiente. Trazer um clipe gravado lá dentro, com uns amigos próximos e um pessoal que normalmente cola lá, falando palavras sinceras e conscientes em um beat que traz muito da história do rap é mais que revolucionário, porque é acolhedor, porque faz enxergar a proximidade do outro.

Difícil em tempos que a gente se bate na rua pela cor da camiseta, e como bem lembrado pelo Rato coxinhas e petralhas se batem e se curvam à supremacia bancária. Perfeito sucesso do sistema ao disfarçar o inimigo, e perfeito sucesso deles ao perceberem e conseguirem se colocar em uma posição de questionamento através de tantos elementos diferentes.

O Rato me explicou com mais detalhes essa relação: “Ali no clipe só tem gente que também está presente nos eventos, saraus e afins, ou seja, são os que fomentam as atividades que o Colmeia promove. E essa é a vacina, sabe Ana?! Estar entre os nossos e criar situações de edificação espiritual coletiva. Acho que esse é o caminho. Se abastecer de positividade pra enfrentar a Babilônia adoecida, é muito amor emanado. Uma atmosfera que é criada e acho que a revolução começa assim, ali é um pequeno núcleo, sei que outros núcleos existem e assim, de núcleo em núcleo, o despertar das consciências acontece e revolução já começou.

Esse é o caminho certo, o Ralph foi pontual: “Acho que a importância é seguir o coração e o nosso coração fala que esse é o caminho, a colmeia é a nossa maloca cultural.” Daqui pra frente vão ser mais saraus, provavelmente em breve mais uma edição do Ideias na Colméia e força total no volume dois do “A Rima é Imã“. Nós agradecemos. Olha só esse clipão mais lindo!

Trecho da música
“É o ritmo, é o RAP, é o flow, conduta não muda pro show jow/ O dia clareou, faça jus aos céus azuis (uoooow)/ Eu vou falar pá tu, skate e maracatu/ Aqui no nosso Vale, ou lá no do Anhangabaú/ De norte a sul, trago o Dalsin no fone e também trago Exu do Blues/ E “Ralph e Rato” é o nome igual Chicago Bulls!”