Entrevista: Rashid apresenta ‘A Coragem da Luz’ em Belo Horizonte pela primeira vez

Na última sexta-feira (22/07), foi a vez de Belo Horizonte receber a turnê de lançamento do disco “A Coragem da Luz“, do artista Rashid, que se apresentou pela primeira vez acompanhado de banda na capital mineira. O show aconteceu no teatro Sesc Palladium, com início às 21hrs. Mesmo sendo o teatro um local que vende os ingressos com cadeiras enumeradas, logo no início do show o público foi convocado a aglomerar-se na frente do palco, pra curtir o show no estilo que o hip hop gosta: com muita energia e papo reto.

Rashid fez um show que se manteve singular do início ao fim, mesclando predominantemente as faixas do “A Coragem da Luz” e das mixtapes “Que Assim Seja” (2012) e “Confundindo Sábios” (2013), e algumas singles também foram apresentadas. O rapper contou com a participação do público, que cantava junto tanto os sucessos recentes quanto os mais antigos de sua carreira e vibrava a cada surpresa que o espetáculo proporcionava. Rashid ainda soltou um agradecimento ao beatmaker belo-horizontino Coyote, que produziu duas das músicas do setlist do show.

A missão do rapper foi concluída com êxito, o show foi conduzido de modo que não deixou a energia cair em momento algum, a banda possuía uma sinergia que manteve o público envolvido em todo o decorrer do show, e, para relembrar a sua origem nas rodas de rima, se jogou num freestyle bem humorado onde interagia com o público, ao instrumental de “Jamrock“, do Damian Marley.

Foto por Bruno Filipi
Foto por Bruno Filipi

Além de ter proporcionado muita emoção a cada música que se iniciava no decorrer do show, Rashid, como sempre, passou a mensagem. Em suas pausas dialogou com o público, em alguns momentos falou sobre o que algumas das músicas significavam de fato e ainda discursou sobre a importância do RAP que traz o papo reto e a responsa que carregam os artistas que se atrevem a dizer o que precisa ser dito. Como ele disse a um jornal local: “O nome do disco surgiu porque a luz é como a nossa música, não pede licença. Se der uma fresta, ela entra e, não importa se é bonito ou feio, mostra o que tem que ser mostrado”, e é assim que ele se posiciona.

Antes do show, Rashid conversou com o RND e respondeu uma breve porém ampla entrevista, a cerca da #ACLtour e as perspectivas futuras de sua carreira. Também falou sobre o espaço que o RAP vem conquistando.

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Você ficou satisfeito com a recepção do público ao disco A Coragem da Luz?

Sim. Até o momento tô bem feliz. Acho que o pessoal entendeu, está entendendo ainda. Algumas coisas são bem diferentes do que eles estavam acostumados a ouvir de mim, mas eu acho que o pessoal sentiu a minha intenção real com o disco. Estão entendendo as músicas pouco a pouco. O disco ainda tá fresco no ouvido das pessoas, mas estão absorvendo bem, pouco a pouco, cada tempero e cada detalhe que eu deixei ali.

O que você acha da cena atual? Gosta de algum Mc ou grupo em específico da mesma?

Acho daora, tem muita gente trabalhando, muita gente aparecendo, fazendo coisa diferente. Havendo uma gama maior de estilos, algumas pessoas vão gostar de umas coisas, outras de outras. Existem sons mais técnicos, sons mais animados, outros de papo reto, e isso é um bom sinal. Prova que o rap tá crescendo, e com essa tendência crescente, umas coisas a gente vai amar, outras odiar, mas o ideal é aprender a respeitar todos eles. A partir desse momento tá tranquilo.

E você gosta de algum artista atual específico?

Tem vários caras que eu gosto bastante na real. Tipo o Terceira Safra, que é novo mesmo não sendo tão novo, Coruja BC1, o Godô que trampa com a gente na banda e tem seu trabalho solo, o Primeiramente, a Drik Barbosa, a Tássia Reis, que na minha opinião já deu certo, o Rico Dalasam, enfim, vários que tão aí atualmente e tão trabalhando muito bem.
Só nesses poucos que eu disse, a gente percebe que é cada um numa direção completamente diferente, e isso é bom, a gente tem opção até mesmo pra, da forma que você acorda no dia, escolher o que vai ouvir. Daora isso.

O que foi mais comentado é que o ACL foi o passo mais sólido da sua carreira. Dado esse grande passo, quais são os passos futuros? Tem algo pra dizer pro público que tá no aguardo?

Temos muita ideia pra ser trabalhada ainda com o disco e muita ideia pra ser trabalhada pós disco também. Mas agora, justamente por tá sentindo essa parada de que o disco ainda tá fresco pro público, queremos continuar trabalhando ele. Também tamo no foco de fazer a loja voltar a todo vapor, porque demos uma pausa na loja pra dar total atenção ao disco.

Continuando a falar sobre os passos futuros, pretende fazer clipe pra alguma faixa do disco?

Sim. Já temos alguns clipes em vista, começamos algumas ideias e tem um web-clipe pra sair, que no caso é um clipe mais simples. E os outros clipes, estamos trabalhando pra que sejam uma parada maior, algo bem produzido. Tem muita coisa pra rolar ainda com o disco e fora o disco, esse ano vai ser corrido, graças a Deus.

Quem te acompanha notou que foi feito nas suas mídias o Faixa a faixa, que foi um projeto interessante onde você explicou cada faixa do ACL em vídeos curtos. Geralmente os artistas passam muita coisa nas entrelinhas de suas obras mas deixam a livre interpretação do público. Qual foi a motivação para fazer diferente?

Fiz por vários motivos na real. Primeiramente eu quis ajudar as pessoas a compreender mesmo o que eu pensei na hora de fazer o som. Eu tenho vários fãs que fazem rap também e eu achei que eles iam gostar muito de saber ali os detalhes, do que levou o Rashid a escrever aquilo. E eu queria que esses fãs que fazem música se inspirassem mais, e até mesmo os fãs que não fazem, achei importante que eles entendessem as referências. Foi estudado várias coisas pra fazer o disco. Foi um período que eu fiquei sem lançar trabalhos e li muito, pesquisei muita coisa, assisti várias paradas, viajei muito também. Foi bom pra expandir a mente, e eu queria que a parte dos fãs que não conseguiram entender o disco, entendessem as motivações por trás disso tudo. Além de achar que esse projeto traria um diálogo mais próximo, aproximaria a relação com os fãs.

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Não é comum MCs usarem banda, por ser algo mais trabalhoso, que exige muito mais do artista e da equipe, tanto musicalmente como em questão de estrutura. Você usou alguma referência, ou tem alguma motivação específica para tê-lo feito?

Sim. Tive várias motivações, várias! Uma delas é a busca da evolução do show. A evolução que a gente busca nas gravações e buscou nesse disco, estamos buscando no show também. É como transformar o show em algo mais palpável, mais especial. Pra gente o show já era foda, e pras pessoas também era, pelos comentários que recebíamos. Já era foda, mas a gente queria dar um passo a mais. A pessoa ouve a música e vem dizer “sua música fez algo pela minha vida”, e isso é muito importante pra gente, então o intuito foi transformar o show numa ferramenta com essa mesma potência, da pessoa vir no show e sair com esse mesmo tipo de sentimento, com outra energia. A real da parada foi trazer esse mesmo tipo de energia e de responsa pro show também, mesmo que dê muito mais trabalho trabalhar com banda, por ser mais gente e tal, no fim das contas vale muito a pena!

E outra motivação foi ver que dá pra fazer a parada, também há espaço pra fazer esse trabalho. Criolo, Emicida, Rael e outros contemporâneos também fazem esse tipo de trabalho, o público do rap aceita isso também, e isso não desliga a gente da raiz da parada. A gente só soma ao acrescentar esse tipo de coisa, por mais que existam pessoas que acreditem que show de rap com banda, seja menos original.

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Entrevista: Camila Soares
Fotos: Bruno Filipi