Psicopretas: Uma aula sobre colorismo

É inegável a importância de um projeto como o Psicopretas, principalmente no rap brasileiro, onde o discurso racial nunca foi tão bem abordado e explorado como está sendo agora. Em um país onde ainda se é muito confusa a questão da miscigenação, com tantos tons de pele dividindo o mesmo espaço, a autoaceitação é essencial. A criadora da cypher, a mc Sistah Chilli, conta que a ideia surgiu a partir de uma necessidade de união entre as pessoas pretas de pele retinta e de pele mais clara, uma vez que ambas sofrem por conta do racismo, mesmo que em níveis diferentes.

“Quando entrei no facebook, há 2 anos atrás, comecei a ver discussões por conta do colorismo, reconheço meus privilégios de pele preta menos retinta, mas ver a divisão que isso causava acabou com a minha autoestima. Vi várias irmãs na mesma situação e adoecendo, comecei a escrever e observar mulheres reais de quebrada, mais e menos retinta, cis e não, observei por meses. Uma produtora se ofereceu pra gravar um clipe meu (meu time hoje, a Narceja) daí resolvi contar o meu projeto e eles abraçaram comigo, então fomos dando vida à Psicopretas.”

Esse discurso fica explícito já no primeiro verso do primeiro Psicopretas, onde a Sistah Chilli diz:

“É que pra nós é muita treta/
ver uma preta contra outra preta/
Destruindo nossa luta
Um branco inventa e “ceis” aceita?!/”

A primeira cypher é composta por Danna Lisboa, Bia Doxum, Anarka, Dory de Oliveira, Cris SNJ e pela própria Chilli, com o instrumental assinado por Rasec. Todas abordam o colorismo na letra, dos mais variados pontos de vista, de uma forma bastante agressiva e mostrando a presença que o assunto precisa ter.

A veterana Cris SNJ rouba a cena com o último verso, dando uma aula de métrica com um flow noventista afiadíssimo, rimando várias palavras que terminam com -eira:

Descem escadas depois sobem ladeiras/
Cruzam fronteiras/ entre bairros ignoram trincheiras/
Sobrevivência acham várias maneiras/
Sinal da cruz e atravessam estrada de várias maneiras/
Maloqueira/ enfrentam diversas barreiras/
a cor da pele influi com isso ouve besteiras/
Do tipo neguinha, fedida, vulgo barraqueira/
mas é o barraco que defende aqui a nossa bandeira/
Cultural, social, ancestral, musical/
na luta em que as pretas fazem sua carreira/
Descem a madeira/
pra viver no estado racional/

Psicopretas Vol. 1

Oito meses depois temos a continuação, Psicopretas Vol. 2 chega tão ácida quanto a primeira cypher e tão necessária quanto. Agora o time conta com Yzalú, Gabi Nyarai, Alinega, Meg Tmthc e Monna Brutal, além da Sistah reprisando e agora com Vibox no beat.  

Numa cena assumidamente machista (vide casos de agressão e abuso constantes), o projeto cumpre o papel fundamental de representação feminina, tanto cis quanto trans, no rap. Linhas de autoafirmação, como “Tipo bruxa de Salem, pretona periculosa/ Num país que é preto, cês sonha com buceta Rosa/”, da Gabi Nyarai, são extremamente necessárias, principalmente na atual situação do país, num modo geral.

A Alinega, d’OCRIME77, chama a atenção na música entrando com uma melodia seguida de rimas pesadas, quebrando um pouco o padrão da cypher:

Não é mais Bibi Perigosa agora é “alitreta”
Nois é placktundum flow tiro de “escopreta”
Bem problemática tipo neguinho do kaxeta
Todo ouro e poder pras “bucepreta”

E já na sequência entra a Meg Tmthc com mais melodia, acompanhada de um flow carregado de sentimento na voz, tanto que um abraço depois de ouvir esse verso viria bem a calhar.

Finalizando a cypher, chega a Monna Brutal com uma presença absurda! Ela entrega o tipo de verso que traz uma reflexão ao mesmo tempo que faz com que o ouvinte bata a cabeça durante a música:

Enche a boca pra dizer que o preço foi pago, ironia?!
Numa era em que brota MC fazendo apologia à ato nazista.
Me pergunta o porquê de eu não ser ”a pacifista”
É que minha pele ocupa a maioria das covas, prisões e periferias.

Psicopretas Vol. 2

Ambas as cyphers, Volumes 1 e 2, são de extrema relevância representativa e se fazem necessárias na vida de muitas pessoas que não se enxergam num grupo étnico específico, perdidas pela confusão que é a miscigenação brasileira.

Ouça agora Psicopretas: