Cozinheirxs de Salcity đŸ‘šâ€đŸłđŸ‘©â€đŸł (Parte 1)

Produzir um beat Ă© tipo cozinhar…

Duvidosas analogias Ă  parte, o chamado instrumental sempre foi elemento essencial dentro da histĂłria do rap music.

Antes mesmo das barras serem proferidas pelxs donxs do mic, o beat funciona como um “cartĂŁo de apresentação” e dĂĄ o tom do que estĂĄ por vir: seja um bate-cabeça neurĂłtico, aquele boom bap clĂĄssico, uma love/sexy song chapante ou qualquer outra derivação que leve batidas y rimas.

Mesmo ganhando cada vez mais atenção ao longo dos anos, os tais “cozinheiros” por trĂĄs destes instrumentais costumam ser subvalorizados (isso para nĂŁo dizer esquecidos).

Estamos aqui para tentar mudar essa histĂłria.

Recortei o emergente cenårio de produtores brasileiros para o meu querido país Salvador-BA e contei com a ajuda de Fiteck, o menino da mão rara, para criar uma espécie de menu de beatmakers/produtores atuantes por aqui.

Como existem aquelas diferenças bĂĄsicas entre beatmaker (pessoa que constrĂłi o beat) e produtor musical (algo mais responsĂĄvel por completar uma gravação, controlar as sessĂ”es de estĂșdio e fazer a supervisĂŁo do processo de masterização e mixagem), chamarei ao decorrer do texto os protagonistas desta matĂ©ria de cozinheirosℱ, ainda que a grande maioria deles executem nĂŁo sĂł as duas, mas muito mais funçÔes dentro do complexo processo criativo que pode ser cozinhar um beat.

Sem mais introduçÔes, confira quem anda cozinhando mĂșsica na cidade de Helder Putaria. Lembrando que nĂŁo Ă© uma lista definitiva, muito mais gente produz e uma parte 2 Ă© inevitĂĄvel.

Let’s get it.

Montagem por @camposdanll, a braba

Filipe Mimoso

Ao ter o seu primeiro contato com a mĂșsica em Arembepe, interior da Bahia, Filipe Mimoso foi conhecendo pouco a pouco o gostinho das mĂșsicas brasileiras e jamaicanas por influĂȘncia dos pais em sua infĂąncia/adolescĂȘncia.

“Aprendi noçÔes de ritmo e grooves batucando pagode e arrocha com amigos nas ruas e colĂ©gio
 Mais tarde consigo um violĂŁo e aprendo a tocar tirando mĂșsicas ‘de ouvido’ atravĂ©s do rĂĄdio
 E sĂł quando tenho acesso a um PC e internet, jĂĄ mais velho, conheço o universo da produção musical e começo a produzir intuitivamente”, explica Filipe.

Sem citar um estilo de beat favorito, Mimoso, que após chegar em Salvador começa a trampar com direção musical, nos conta como é importante o processo de experimentação musical, algo que também se repetirå nas falas de outros cozinheiros desta matéria.

“Eu gosto Ă© de experimentar, quando tenho a possibilidade e liberdade pra isso
 Curto trap e grime, mas tambĂ©m valorizo muito um bom boom bap e o que foi produzido hĂĄ tempos atrĂĄs. TĂŽ sempre voltando a escutar, pesquisando os movimentos, ouço muita mĂșsica instrumental, jazz, mĂșsica afro-brasileira e baiana. Acabo colocando tudo isso nas minhas produçÔes. Como nĂŁo produzo sĂł beats, misturo minhas vivĂȘncias pessoais com minhas pesquisas. Às vezes expresso melhor o que quero manipulando samples, ou criando do zero, ou tocando alguma coisa na percussĂŁo, guitarra
 depende”.

Representando a GANA, selo e estĂșdio de audiovisual criado por ele e Mayara FerrĂŁo, Filipe Mimoso participou da produção do ĂĄlbum Nada De Novo Sob o Sol – um dos grandes trabalhos do rap nacional no ano passado – do rapper Trevo, ex-Underismo.

Arte do ĂĄlbum por Mayara FerrĂŁo

“O Nada De Novo Sob o Sol acaba se tornando uma extensĂŁo do que Ă© a GANA, no sentido de desenvolver algo com a nossa identidade, misturando ancestralidade e a sonoridade da cidade com nossas vivĂȘncias pessoais. No ĂĄlbum fiz a direção musical, todos os instrumentais e contribuĂ­ com alguns vocais e sugestĂ”es de letra. Todo o processo foi muito colaborativo e pensado em conjunto, a medida que eu ia desenvolvendo os instrumentais, Trevo com muita sensibilidade construĂ­a as composiçÔes”, relata Filipe.

Nada De Novo Sob o Sol foi todo produzido no quarto de Mimoso, desde a gravação, instrumentos, vozes, arranjos atĂ© os beats. O conceito de “do it yourself“, o “faça vocĂȘ mesmo”, Ă© praxe por aqui.

A parceria entre Mimoso e a Underismo nĂŁo Ă© de hoje. A faixa “BVIL3DVUND3R“, que integra o EP R3$idu0$, foi o primeiro trampo entre o produtor e os meninos da Under.

“Porque a gravação Ă© lĂĄ no NaCalada, Mimoso vai botar o beat”

“A faixa surge com uma proposta deles de fazer um trapfunk. Aproveito esse momento e experimento misturar o groove de pagode baiano aos flows soteropolitanos de Trevo, Alfa, e Jovem Senpa“, conta Filipe.

Depois de “BVIL3DVUND3R”, a GANA produziu a “Demotape” da Underismo, o segundo trabalho do grupo, que leva um pouco de grime com funk, alĂ©m de alguns experimentos com auto-tune.

A incrĂ­vel “Pretx Chave“, parceria da Underismo com a marca soteropolitana Produto do Gueto, tambĂ©m levou a direção musical e beat de Filipe.

“TĂŽ com o vestuĂĄrio que o cachĂȘ da Underismo proporciona…”

“A Under jĂĄ tinha o refrĂŁo e a ideia da letra que era cantada anteriormente num beat free de trap, nos reunimos e sugiro explorar de novo algo com sonoridade mais prĂłxima de nossas vivĂȘncias, e decidimos fazer. Repetindo a ideia de misturas do beat do Baile da Under, sĂł que aqui eu me aprofundo mais na estĂ©tica do pagode, toco guitarra, gravo as bacurinhas de Nobru e todos os vocais”, explica Filipe.

Em seu currĂ­culo, Mimoso tambĂ©m tem o EP “Miopia“, do rapper Shan, “uma viagem sombria e elegante pelas vivĂȘncias de Shan, que leva um pouco de jazz, boom bap, R&B e solos de guitarra” e o seu Ășltimo “prato” foi “ASA DE COBRA” do rapper Jeferson Devon. “Misturei um pouco de trap com R&B e toquei tudo, sem samples e sem automação no beat”, conta Filipe.

Um mestre cuca de mĂŁo cheia.

Dactes

Figurinha conhecida na cena soteropolitana, Christian Dactes Ă© o criador e proprietĂĄrio do estĂșdio NaCaladaRecords.

O produtor, que constantemente tambĂ©m estĂĄ Ă  frente do mic, Ă© sempre lembrado quando alguĂ©m quer uma referĂȘncia para gravar/produzir rap com qualidade em Salcity.

“Com muita coisa guardada”, jĂĄ que vive dentro do estĂșdio – Dactes mora no NaCalada -, o artista soltou recentemente a track “No Seu Nome“, uma love song gostosa, em parceria com o tambĂ©m rapper Davi Bart.

Seus Ășltimos trabalhados tĂȘm se aproximado do R&B, onde as suas letras carregadas de vivĂȘncia se misturam com a sua visĂŁo de futuro em melodias chapantes, mas Dactes, por estar em contato com vĂĄrios rappers que colam no NaCalada para começar a dar vida Ă  suas obras, dialoga com uma grande quantidade de estilos e estĂ©ticas.

O projeto de Dactes & Sico, “24″, mostra a vibe do produtor e artista.

Davzera

Davi Nadier – ou Beirando Teto – jĂĄ Ă© conhecido fora das fronteiras de Salvador pela sua escrita suja e visceral em cima de boom baps clĂĄssicos, quase sempre produzidos pelo prĂłprio.

Beatmaker, criador e CEO do Nausea Records, seu home studio, Davzera Ă© capaz de dar vida a instrumentais Ășnicos, todos eles disponĂ­veis para deguste – e venda – no seu SoundCloud.

Muitas vezes à frente do mic, Davi tem na pista trampos clåssicos, e é certamente um dos grandes liricistas da sua era. Em tempos de popularização do trap music genérico e toda a banalização em volta disso, Davi e seu estilo servem como um antídoto e culto à originalidade.

Futurismo experimental.

Fiteck

“Nossa Fiteck, que vibe gostosa” đŸ„°

Dono de um dos SoundClouds mais agitados da cena soteropolitana, Fiteck parece viver em constante processo de droppagem.

VersĂĄtil e relativamente novo na cena, o artista jĂĄ tem um grande acervo de sons lançados (tanto no SoundCloud, quanto no Spotify) e cozinha praticamente todos os seus sons, que vĂŁo de sexy songs, plugs, bate cabeças e tambĂ©m obras mais castelantes, como exemplifica a primeira faixa do seu Ășltimo EP, Vontade de PotĂȘncia.

“Ultimamente estou focando em criar uma wave nova, fazer algo diferente com referencias nacionais, pegar elementos do funk e misturar com plug, ou um afrobeat, samplear um sambinha e deixar no ritmo de origem dele sem querer transformar em rap. TĂŽ numa vibe muito experimental”, conta Fiteck.

Com o seu novo EP “Mar Grande” agendado para ganhar as ruas logo menos, Ă© bom ficar ligado quando aparecer atualização no SoundCloud do menino Teck, o que rola quase toda semana.

King Daka

CEO do estĂșdio Terror da Leste, King Daka começou a produzir em 2009, uma Ă©poca que Salvador ainda tinha poucos estĂșdios, e deu o pontapĂ© inicial na sua caminhada.

Dono de uma caneta agressiva quando estĂĄ compondo, Daka conta que curte muito o West Coast Side e o estilo “chicano” de beat na hora de dar vida Ă  suas obras.

https://www.youtube.com/watch?v=BXbPOhMymh8

Doctor Dre, Murda Beats, Dj Paul, Zaytoven, J. Dilla, 9th Wonder, Lex Luger e Metro Boomim sĂŁo algumas das referĂȘncias do produtor, que tambĂ©m Ă© referĂȘncia pelo seu tempo de trajetĂłria na cena soteropolitana.

https://www.youtube.com/watch?v=CBxaXAKlPAk

OG.

Geeli

“Geeli tĂĄ no beat fumando haxixe” 👿

Como Fiteck, é possível dizer que Geeli faz parte de uma nova geração de beatmakers de Salcity.

Rato de SoundCloud, o à«źÉŠàč€ÏÎ±âˆ‚σ faz parte da UFFA MOB e faz parte da cena de Cajacity, um grande mundo que jĂĄ foi abordado aqui no RND.

Além de também lançar as suas rimas, Geeli vem incluído elementos do funk proibidão em suas produçÔes, onde consegue ter uma bela química ao lado de seu parceiro Swatch, o putão.

Mas não só de putaria vive as produçÔes do menino da X.

Geeli Ă© responsĂĄvel pelas produçÔes das mixtapes “O Subordinado Das Trevas” e “The Last OG” do seu brother de UFFA MOB, Lil Devil.

Nas tapes, uma mistura sombria e gangster dĂŁo o tom, sendo possĂ­vel perceber as influĂȘncias do trap underground atlantense e do drill de Chicago. Claro, com a roupagem original de Cajacity.

“Nunca mudou, nem nunca mudarĂĄ “

Faustino Beats

Influenciado por lendas como 9th Wonder, Metro Boomin, Zaytoven, entre outros, Faustino Beats começou a produzir seus primeiros instrumentais por volta de 2015.

A importĂąncia de fazer algo com sua prĂłpria vibe Ă© um denominador comum entre todos os beatmakers citados por aqui, e Faustino fala sobre:

“Hoje em dia tĂŽ desenvolvendo minha prĂłpria vibe sem me prender a um estilo especĂ­fico. A vibe mistura trap, rnb, rock, metal e influĂȘncia africana“.

ResponsĂĄvel pelos beats das faixas 1, 2, 3, 5, 6, e 8 do seu EP de 2017, Kuro, Faustino estrelou no fim de 2019 o single “Pretos VĂŁo Cedo Pro CĂ©u“, ao lado de Yan Cloud. A mĂșsica, que foi mixada e masterizada por Faustino, teve o beat de Bart e CONFLITO, nome que aparecerĂĄ neste menu mais adiante.

Jxkv

Criar um beat tem muito (ou sempre) a ver com o sentimento do beatmaker. É o que nos conta Jxkv, outro jovem e ascendente cozinheiro da cena soteropolitana.

“Se eu tĂŽ calmo eu faço algo mais calmo, algo mais “chill“. Se eu to com raiva, eu faço algo mais rĂĄpido, mais pesado. Eu acredito que no momento de compor e produzir algo, tudo gira em torno dos sentimentos, e de como vocĂȘ vai demonstrar isso musicalmente”.

Também bastante atuante no SoundCloud, o menino Joca vem focando em cozinhar plug.

“Se eu fosse resumir meu trabalho em uma palavra simples, seria “plug“, mas como vĂĄrios produtores, temos influĂȘncias de outras coisas que somam no nosso trabalho, e dentro das melodias que eu faço e dos samples que eu uso, eu tenho influĂȘncia de muita coisa, de mĂșsica emo atĂ© soul, reggae, pop…”

Bennett

Conheci Bennett em um evento que ele estava discotecando e do nada apareceu um som de $uicedBoy$ na playlist. Claro que a sintonia bateu.

“Sabe quando vocĂȘ vĂȘ um filme e imagina uma trilha sonora em uma cena do filme que nĂŁo tem mĂșsica? Rola muito dessas. Meu estilo de produção Ă© com samples. Eu viajo em pegar os samples e dar vida a eles em vĂĄrios beats diferentes. Me identifico mais com o trap e atualmente tenho me aventurado muito em produzir plug e beats de grimes“, conta Bennet.

Fica aqui um pedido pessoal: cozinhem grimes.

“O grime tem uma parada de puxar um lado eletrĂŽnico, pelo fato do ritmo acelerado, dos sintetizadores, da distorção do grave, a pancada constante, ritmizando com um lifestyle mais ‘criminal’ e de estĂ©tica mais de quebrada, diferente da ostentação do pop trap”, comenta Bennet.

“O trap tem aquela harmonia, aquela atmosfera mais organizada e o grime Ă© mais sujo, mais propĂ­cio para punchlines e muitas barras. E os caras estĂŁo sabendo como pegar isso da gringa e botar o lifestyle BR”, finaliza.

Cabral

Artista solo e produtor musical na Zoio Records, o jovem Cabral estå hå praticamente um ano no mundo da produção.

Estudante de mĂșsica, o integrante da Zoio consegue ter uma bagagem teĂłrica e usa isso na hora de dar vida aos seus instrumentais. Entre suas influĂȘncias, Cabral cita o multi-instrumentista French Kiwi Juice.

“Tenho escutado muito FKJ (French Kiwi Juice), que faz um estilo de mĂșsica bastante experimental e instrumental. A forma como ele produz tudo sozinho, e coloca um teclado, depois grava uma guitarra em cima, tudo na mesma hora. É algo que eu viajo bastante”.

Lil Peep, morto em 2017, tambĂ©m foi lembrado por Cabral, “por ter desenvolvido uma estĂ©tica de mixagem e masterização“.

No Ăąmbito nacional, Cabral citou Dactes como referĂȘncia, alĂ©m de falar das produçÔes de Rafa Dias, produtor do grupo baiano ÀTTØØXXÁ e o manauara Victor XamĂŁ.

Luan Òwe

“Òwe que beat malvado” 😎

Integrante do coletivo Balostrada Records, Luan alterna a produção de beats com as suas composiçÔes.

“Gosto muito de samplear ambientaçÔes calmas e tropicais pra trazer um contraste com um bpm de trap mais acelerado entre 140 a 170 bpm. Minha maior inspiração como produção de beats Ă© Pierre Bourne, Murda beats, Geeli, Fiteck e Wheezy“.

As produçÔes – e cançÔes – do menino do beat malvado podem ser encontrados em seu SoundCloud.

Foi Luan o responsĂĄvel pelo instrumental de “ØNZE“, da braba Semiseria.

2KIKE

Parceiro de selo de Luan na Balostroda Rec, 2KIKE (ou Tio Kike) e Òwe já soltaram juntos o projeto Baloztradorehz Mixtape lançado em outubro de 2018.

ApĂłs conhecer o Fruity Loops em 2017, um dos softwares mais usados em produçÔes musicais, Tio descobriu que poderia fazer mĂșsica em casa.

Suas primeiras produçÔes foram inspiradas no trap atlantense, bebendo da fonte de artistas jå consagrados na gringa como Migos, Travis Scott, Future, Fetty Wap, entre outros nomes que ajudaram a construir o trap que se popularizou no Brasil. $uicedeBoy$ e Ghostemane também ajudaram a influenciar Tio Kike em seus primeiros preparos como cozinheiro de Fruity Loops.

Tio Kike, Luan Òwe e Lukas Vuto em “Sentro”

“Eram esses caras que me influenciavam porque eram os estilos que eu conseguia fazer no FL. Depois, estudando, eu descobri que eu posso criar qualquer estilo de mĂșsica. Mantendo a linha do trap, mas tambĂ©m tento trabalhar novas sonoridades para o meio que estou”, comenta Tio.

ApĂłs trĂȘs anos de estudos, Tio Kike foi se sentimento mais Ă  vontade.

“Sempre escutei muito Rock, tipo hardcore: Led Zepelin, Pink Floyd, Black Sabbath, Iron Maiden, Mottohead… e umas paradas do Funky tambĂ©m. James Brown, Michael Jackson, Quincy Jones, todos eles tem muita influĂȘncia em mim. A parada Ă© tentar mesclar, sair do trap padrĂŁo de Atlanta, Ă© o que venho procurando”, conta Dois Chutes.

Uma matéria tão musical como esta, não poderia deixar de conter palavras doces ao ritmo brega funk.

“TĂŽ produzindo um brega funk de mil grau hoje em dia. É uma sonoridade impecĂĄvel”, finaliza Tio.

CONFLITO

ApĂłs passar a tarde na casa de um amigo em 2016, Gabriel Nicory, mais conhecido como CONFLITO, apaixonou-se a primeira vista pela arte de produzir.

“Meu gĂȘnero musical favorito Ă© o R&B. GĂȘnero que geralmente explora sentimentos como tristeza e momentos como tĂ©rminos em forma de histĂłria sendo contadas em um instrumental com BPM baixo. É o que amo produzir. Mas lĂłgico que como produtor me encaixo no mercado e tenho demandas pra outros gĂȘneros tambĂ©m, como o prĂłprio trap, que Ă© um gĂȘnero relacionado ao boom bap com BPM mais acelerado e que usa timbres digitais e frequĂȘncias como o grave, que atuam no boombap numa intensidade menor em comparação ao trap que Ă© marcado pelos graves”, ensina CONFLITO.

Nomes internacionais como Bryson Tiller, 6LACK, PARTYNEXTDOOR e “caseiros” como Faustino Beats e Dactes sĂŁo alguns dos artistas citados por Gabriel para referenciar os seus gostos de R&B. JĂĄ no trap, Travis Scott, Tyga, Roddy Rich, Recayd Mob e MatuĂȘ sĂŁo outros citados.

“Meu estilo de produção Ă© caracterizado pelo uso de alguns timbres que nos fazem sentir certa nostalgia. Prezo pela ambiĂȘncia, coesĂŁo e a construção de um som. Tem que mexer com meus sentimentos e ser de arrepiar. Tento me encaixar na cena como o cara que trabalha com o mĂĄximo de artistas possĂ­vel. Se o artista se esforça pra viver de mĂșsica, tem minha atenção“.

Atualmente na gravadora ZĂłio Records, CONFLITO avisa que jĂĄ tem material pronto e nĂŁo para de produzir um dia sequer.

torajjjosu

É possĂ­vel que vocĂȘ jĂĄ conheça Kolx a.k.a torajjjosu pelas suas linhas fenomenais – e Ă s vezes indecifrĂĄveis – nas mĂșsicas do jĂĄ citado por aqui grupo Underismo.

Artista nato, além de rimar, Kolx também då vida a instrumentais extremamente peculiares, que é possível ser encontrados no seu canal do SoundCloud, perto da terceira camada da terra.

Pra falar a verdade, eu nem me considero um produtor. É sĂł mais uma forma de eu conseguir pĂŽr a minha arte para fora. Sentia que precisava de um estilo de produção prĂłprio para mim”, explica o Rato Sujo.

“Comecei a produzir umas paradas mais ligadas ao lo-fi. Escuto muito Knxwledge, que fez uma faixa do To Pimp a Buterfly, de Kendrick. Ele Ă© um dos produtores que eu mais curto e o que me fez entrar no lo-fi, alĂ©m da arte de me mostrar a arte sample, que, para mim, Ă© uma imitação da vida. Acho que essa Ă© a tĂ©cnica de produção mais apurada que existe. A caracterĂ­stica replicante que o sample tem Ă© uma caracterĂ­stica do prĂłprio ser humano. Meu estilo de produção parte muito disso, tirando sons, vozes, de umas paradas e transformar em atmosfera“, comenta tora.

Kolx Productions

Sem dĂșvidas, a liberdade e criatividade para experimentar sĂŁo caracterĂ­sticas marcantes de Kolx.

Por nĂŁo me considerar um produtor, isso me dĂĄ muita liberdade para fazer uns bagulhos que um produtor nĂŁo faria. E Ă© de Ă©poca, Ă s vezes faço algo mais padrĂŁo, com cara de beat, e Ă s vezes gosto de fazer sĂł o instrumental. Gosto de ouvir as vozes das pessoas e tambĂ©m considero isso como mĂșsica”.

Sujeira refinada.

LAELA

MC, beatmaker e integrante do NSABBAS, selo de produção artĂ­stica e musical, LAELA mostra um pouco das suas credencias na faixa mais recente do seu SoundCloud, a cativante “TrapjazzpĂŁocommanteiga“.

“Considero minha produção muito original e particular. Diria que no princĂ­pio a minha forma de criar beats se parecia um pouco com a do Tyler The Creator”.

Produzindo e tendo contato com o rap hå quatro anos, Elana Christini, a LAELA, era do Coletivo Vira Lata e hoje, além de integrar o jå citado NSABAS, também faz parte da Batalha das Bruxa, onde não cola Barbie, muito menos Xuxa.

Aquaib

Cozinhando beats hĂĄ trĂȘs anos, Aquaib, vulgo da menina Bianca, desde sempre teve contato com o rap, mas Ă© mais uma das minas desincentivadas por ouvir o falido papo de “rap Ă© coisa mais para homem”.

Em caminhada solo, Aquaib nos conta um pouco sobre o seu processo criativo.

“Eu acredito que para produzir sou mais pela emoção/humor, pois acabo passeando nas vertentes que eu crio. Apesar de me enxergar essa linha do rap/trap, tambĂ©m chego num lo-fi manhoso, do nada, quase na mesma intensidade que alcanço um beat que imagino uma letra mais agressiva.

Mais “pratos” de Aquaib podem ser degustados – e adquiridos – em seu perfil no SoundCloud.

Chapei aqui.

Velho Nabs

Fazendo parte de um duo de Doom metal junto com Thalles Petrus, Nabs foca seu estilo de produção no trap, mas, pela influĂȘncia do duo, gosta bastante do grave, entĂŁo costuma colocar isso nas suas obras.

“Minhas maiores influĂȘncias estĂŁo em Salvador mesmo, como Vandal, Nova Era, os meninos do Pinauna Rec, Venas, Diego 157, Kalmia, Sbornia Social, Galf, Foda-se LTDA
“, cita Nabs.

“Carregando a bagagem dos graves distorcidos do Doom metal, o noise do rock//punk underground e os batidĂ”es do hip-hop clĂĄssico“, Ă© assim que Nabs diz misturar os elementos – ou seriam ingredientes? (rs) – dentro da base de trap.

Salamanka

Representando a Santa Rosa Rec, Pedro Ribeiro a.k.a Salamanka Ă© mais um dos cozinheiros de Salvador que explora cada vez mais os tirmos regionais.

“A vibe que eu considero uma especialidade minha Ă© o bass music, que sĂŁo as mĂșsicas que tem como principal caracterĂ­stica o grave, a presença do 808 bem forte, mas eu busco sempre variar e trabalhar com os ritmos regionais”, comenta Salamanka.

O pagodão baiano é uma das grandes artes com ar de 100% Bahia e é claro que não poderia deixar de ser citado em uma matéria tão soteropolitana como essa.

Eu cresci ouvindo pagodĂŁo baiano e tenho usado muito isso na mistura com o trap. Por isso considero meu estilo de produção livre, apesar de atuar na cena do bass music da cidade, eu busco unir outras coisas e fazer com que o trap atinja um outro pĂșblico”, explica Sala.

A mistura da icĂŽnica track GOOSEBUMPS de Travis Scott com uma suingueira legitimamente baiana Ă© possĂ­vel ser degustada no canal de Salamanka, no SoundCloud.

Em janeiro deste ano, Salamanka participou da produção de “Mete Dança II“, que sucede o hitzaço “Mete Dança“, de Fashion Piva, parceiro constante de estĂșdio do produtor.

Eder X

Atualmente com 31, Eder Cruz estĂĄ envolvido com mĂșsica desde os seus 13 anos. Uma grande caminhada que passou por bandas de Rock in Roll (de 2003 a 2013) e o fez frequentar o underground soteropolitano.

“NĂłs fazĂ­amos tudo, de produção, montagem, marketing
 foi uma grande escola. Eu nunca tive objetivos de mercado, fazia mĂșsica para movimentar e lutar pelos direitos das minorias”.

Hoje estudando piano, o produtor também serve como um mentor dos pivetes do UFFA Mob, todos eles crias de Cajacity.

Eder ganhou notoriedade ao também ser um dos principais betmakers de uma das revelaçÔes do rap baiano no ano passado, Pivete Nobre, com a sua sensacional mixtape de estreia.

“Eu sou apaixonado por boom bap, aquela parada que vem das entranhas, apesar de ter produzido pouco nesse estilo. Os artistas que mais me influenciam sĂŁo Mos Def, Sabotage e Black Alien“.

Integrante da Estilo Solto, Eder Ă© mais um representante da forte coletividade visĂ­vel entre os artistas de Cajazeiras.

“Quando eu comecei a produzir o trap, o estilo estava super diferenciado, jĂĄ com diversas vertentes, e a parceria com Pivete Nobre me ajudou bastante”, comenta.

E fechamos.

No total finalizamos este menu de cozinheiros com 19 nomes e certamente tem vĂĄrios outros excelentes por aĂ­.

De perfis mais experientes a nomes mais novos, o fato em comum entre estes 19 mĂșsicos Ă© a força criativa para dar vida ao que acredita e tem como referĂȘncia.

A produção independente Ă© uma marca de todo artista contemporĂąneo e ferramentas ainda pouco exploradas pelo grande pĂșblico, como o SoundCloud, contĂȘm uma cena em emergente expansĂŁo.

Sensacional playlist no SoundCloud sĂł com artistas de Salvador

Se vocĂȘ quer deixar uma sugestĂŁo de outros produtores sobre uma possĂ­vel parte 2, meu Twitter estĂĄ aqui e vai ser um prazer trocar essa ideia.

Até a próxima y fé.