Cozinheirxs de Salcity 👨‍🍳👩‍🍳 (Parte 1)

Produzir um beat é tipo cozinhar…

Duvidosas analogias à parte, o chamado instrumental sempre foi elemento essencial dentro da história do rap music.

Antes mesmo das barras serem proferidas pelxs donxs do mic, o beat funciona como um “cartão de apresentação” e dá o tom do que está por vir: seja um bate-cabeça neurótico, aquele boom bap clássico, uma love/sexy song chapante ou qualquer outra derivação que leve batidas y rimas.

Mesmo ganhando cada vez mais atenção ao longo dos anos, os tais “cozinheiros” por trás destes instrumentais costumam ser subvalorizados (isso para não dizer esquecidos).

Estamos aqui para tentar mudar essa história.

Recortei o emergente cenário de produtores brasileiros para o meu querido país Salvador-BA e contei com a ajuda de Fiteck, o menino da mão rara, para criar uma espécie de menu de beatmakers/produtores atuantes por aqui.

Como existem aquelas diferenças básicas entre beatmaker (pessoa que constrói o beat) e produtor musical (algo mais responsável por completar uma gravação, controlar as sessões de estúdio e fazer a supervisão do processo de masterização e mixagem), chamarei ao decorrer do texto os protagonistas desta matéria de cozinheiros™, ainda que a grande maioria deles executem não só as duas, mas muito mais funções dentro do complexo processo criativo que pode ser cozinhar um beat.

Sem mais introduções, confira quem anda cozinhando música na cidade de Helder Putaria. Lembrando que não é uma lista definitiva, muito mais gente produz e uma parte 2 é inevitável.

Let’s get it.

Montagem por @camposdanll, a braba

Filipe Mimoso

Ao ter o seu primeiro contato com a música em Arembepe, interior da Bahia, Filipe Mimoso foi conhecendo pouco a pouco o gostinho das músicas brasileiras e jamaicanas por influência dos pais em sua infância/adolescência.

“Aprendi noções de ritmo e grooves batucando pagode e arrocha com amigos nas ruas e colégio… Mais tarde consigo um violão e aprendo a tocar tirando músicas ‘de ouvido’ através do rádio… E só quando tenho acesso a um PC e internet, já mais velho, conheço o universo da produção musical e começo a produzir intuitivamente”, explica Filipe.

Sem citar um estilo de beat favorito, Mimoso, que após chegar em Salvador começa a trampar com direção musical, nos conta como é importante o processo de experimentação musical, algo que também se repetirá nas falas de outros cozinheiros desta matéria.

“Eu gosto é de experimentar, quando tenho a possibilidade e liberdade pra isso… Curto trap e grime, mas também valorizo muito um bom boom bap e o que foi produzido há tempos atrás. Tô sempre voltando a escutar, pesquisando os movimentos, ouço muita música instrumental, jazz, música afro-brasileira e baiana. Acabo colocando tudo isso nas minhas produções. Como não produzo só beats, misturo minhas vivências pessoais com minhas pesquisas. Às vezes expresso melhor o que quero manipulando samples, ou criando do zero, ou tocando alguma coisa na percussão, guitarra… depende”.

Representando a GANA, selo e estúdio de audiovisual criado por ele e Mayara Ferrão, Filipe Mimoso participou da produção do álbum Nada De Novo Sob o Sol – um dos grandes trabalhos do rap nacional no ano passado – do rapper Trevo, ex-Underismo.

Arte do álbum por Mayara Ferrão

“O Nada De Novo Sob o Sol acaba se tornando uma extensão do que é a GANA, no sentido de desenvolver algo com a nossa identidade, misturando ancestralidade e a sonoridade da cidade com nossas vivências pessoais. No álbum fiz a direção musical, todos os instrumentais e contribuí com alguns vocais e sugestões de letra. Todo o processo foi muito colaborativo e pensado em conjunto, a medida que eu ia desenvolvendo os instrumentais, Trevo com muita sensibilidade construía as composições”, relata Filipe.

Nada De Novo Sob o Sol foi todo produzido no quarto de Mimoso, desde a gravação, instrumentos, vozes, arranjos até os beats. O conceito de “do it yourself“, o “faça você mesmo”, é praxe por aqui.

A parceria entre Mimoso e a Underismo não é de hoje. A faixa “BVIL3DVUND3R“, que integra o EP R3$idu0$, foi o primeiro trampo entre o produtor e os meninos da Under.

“Porque a gravação é lá no NaCalada, Mimoso vai botar o beat”

“A faixa surge com uma proposta deles de fazer um trapfunk. Aproveito esse momento e experimento misturar o groove de pagode baiano aos flows soteropolitanos de Trevo, Alfa, e Jovem Senpa“, conta Filipe.

Depois de “BVIL3DVUND3R”, a GANA produziu a “Demotape” da Underismo, o segundo trabalho do grupo, que leva um pouco de grime com funk, além de alguns experimentos com auto-tune.

A incrível “Pretx Chave“, parceria da Underismo com a marca soteropolitana Produto do Gueto, também levou a direção musical e beat de Filipe.

“Tô com o vestuário que o cachê da Underismo proporciona…”

“A Under já tinha o refrão e a ideia da letra que era cantada anteriormente num beat free de trap, nos reunimos e sugiro explorar de novo algo com sonoridade mais próxima de nossas vivências, e decidimos fazer. Repetindo a ideia de misturas do beat do Baile da Under, só que aqui eu me aprofundo mais na estética do pagode, toco guitarra, gravo as bacurinhas de Nobru e todos os vocais”, explica Filipe.

Em seu currículo, Mimoso também tem o EP “Miopia“, do rapper Shan, “uma viagem sombria e elegante pelas vivências de Shan, que leva um pouco de jazz, boom bap, R&B e solos de guitarra” e o seu último “prato” foi “ASA DE COBRA” do rapper Jeferson Devon. “Misturei um pouco de trap com R&B e toquei tudo, sem samples e sem automação no beat”, conta Filipe.

Um mestre cuca de mão cheia.

Dactes

Figurinha conhecida na cena soteropolitana, Christian Dactes é o criador e proprietário do estúdio NaCaladaRecords.

O produtor, que constantemente também está à frente do mic, é sempre lembrado quando alguém quer uma referência para gravar/produzir rap com qualidade em Salcity.

“Com muita coisa guardada”, já que vive dentro do estúdio – Dactes mora no NaCalada -, o artista soltou recentemente a track “No Seu Nome“, uma love song gostosa, em parceria com o também rapper Davi Bart.

Seus últimos trabalhados têm se aproximado do R&B, onde as suas letras carregadas de vivência se misturam com a sua visão de futuro em melodias chapantes, mas Dactes, por estar em contato com vários rappers que colam no NaCalada para começar a dar vida à suas obras, dialoga com uma grande quantidade de estilos e estéticas.

O projeto de Dactes & Sico, “24″, mostra a vibe do produtor e artista.

Davzera

Davi Nadier – ou Beirando Teto – já é conhecido fora das fronteiras de Salvador pela sua escrita suja e visceral em cima de boom baps clássicos, quase sempre produzidos pelo próprio.

Beatmaker, criador e CEO do Nausea Records, seu home studio, Davzera é capaz de dar vida a instrumentais únicos, todos eles disponíveis para deguste – e venda – no seu SoundCloud.

Muitas vezes à frente do mic, Davi tem na pista trampos clássicos, e é certamente um dos grandes liricistas da sua era. Em tempos de popularização do trap music genérico e toda a banalização em volta disso, Davi e seu estilo servem como um antídoto e culto à originalidade.

Futurismo experimental.

Fiteck

“Nossa Fiteck, que vibe gostosa” 🥰

Dono de um dos SoundClouds mais agitados da cena soteropolitana, Fiteck parece viver em constante processo de droppagem.

Versátil e relativamente novo na cena, o artista já tem um grande acervo de sons lançados (tanto no SoundCloud, quanto no Spotify) e cozinha praticamente todos os seus sons, que vão de sexy songs, plugs, bate cabeças e também obras mais castelantes, como exemplifica a primeira faixa do seu último EP, Vontade de Potência.

“Ultimamente estou focando em criar uma wave nova, fazer algo diferente com referencias nacionais, pegar elementos do funk e misturar com plug, ou um afrobeat, samplear um sambinha e deixar no ritmo de origem dele sem querer transformar em rap. Tô numa vibe muito experimental”, conta Fiteck.

Com o seu novo EP “Mar Grande” agendado para ganhar as ruas logo menos, é bom ficar ligado quando aparecer atualização no SoundCloud do menino Teck, o que rola quase toda semana.

King Daka

CEO do estúdio Terror da Leste, King Daka começou a produzir em 2009, uma época que Salvador ainda tinha poucos estúdios, e deu o pontapé inicial na sua caminhada.

Dono de uma caneta agressiva quando está compondo, Daka conta que curte muito o West Coast Side e o estilo “chicano” de beat na hora de dar vida à suas obras.

https://www.youtube.com/watch?v=BXbPOhMymh8

Doctor Dre, Murda Beats, Dj Paul, Zaytoven, J. Dilla, 9th Wonder, Lex Luger e Metro Boomim são algumas das referências do produtor, que também é referência pelo seu tempo de trajetória na cena soteropolitana.

https://www.youtube.com/watch?v=CBxaXAKlPAk

OG.

Geeli

“Geeli tá no beat fumando haxixe” 👿

Como Fiteck, é possível dizer que Geeli faz parte de uma nova geração de beatmakers de Salcity.

Rato de SoundCloud, o ૮ɦเρα∂σ faz parte da UFFA MOB e faz parte da cena de Cajacity, um grande mundo que já foi abordado aqui no RND.

Além de também lançar as suas rimas, Geeli vem incluído elementos do funk proibidão em suas produções, onde consegue ter uma bela química ao lado de seu parceiro Swatch, o putão.

Mas não só de putaria vive as produções do menino da X.

Geeli é responsável pelas produções das mixtapes “O Subordinado Das Trevas” e “The Last OG” do seu brother de UFFA MOB, Lil Devil.

Nas tapes, uma mistura sombria e gangster dão o tom, sendo possível perceber as influências do trap underground atlantense e do drill de Chicago. Claro, com a roupagem original de Cajacity.

“Nunca mudou, nem nunca mudará “

Faustino Beats

Influenciado por lendas como 9th Wonder, Metro Boomin, Zaytoven, entre outros, Faustino Beats começou a produzir seus primeiros instrumentais por volta de 2015.

A importância de fazer algo com sua própria vibe é um denominador comum entre todos os beatmakers citados por aqui, e Faustino fala sobre:

“Hoje em dia tô desenvolvendo minha própria vibe sem me prender a um estilo específico. A vibe mistura trap, rnb, rock, metal e influência africana“.

Responsável pelos beats das faixas 1, 2, 3, 5, 6, e 8 do seu EP de 2017, Kuro, Faustino estrelou no fim de 2019 o single “Pretos Vão Cedo Pro Céu“, ao lado de Yan Cloud. A música, que foi mixada e masterizada por Faustino, teve o beat de Bart e CONFLITO, nome que aparecerá neste menu mais adiante.

Jxkv

Criar um beat tem muito (ou sempre) a ver com o sentimento do beatmaker. É o que nos conta Jxkv, outro jovem e ascendente cozinheiro da cena soteropolitana.

“Se eu tô calmo eu faço algo mais calmo, algo mais “chill“. Se eu to com raiva, eu faço algo mais rápido, mais pesado. Eu acredito que no momento de compor e produzir algo, tudo gira em torno dos sentimentos, e de como você vai demonstrar isso musicalmente”.

Também bastante atuante no SoundCloud, o menino Joca vem focando em cozinhar plug.

“Se eu fosse resumir meu trabalho em uma palavra simples, seria “plug“, mas como vários produtores, temos influências de outras coisas que somam no nosso trabalho, e dentro das melodias que eu faço e dos samples que eu uso, eu tenho influência de muita coisa, de música emo até soul, reggae, pop…”

Bennett

Conheci Bennett em um evento que ele estava discotecando e do nada apareceu um som de $uicedBoy$ na playlist. Claro que a sintonia bateu.

“Sabe quando você vê um filme e imagina uma trilha sonora em uma cena do filme que não tem música? Rola muito dessas. Meu estilo de produção é com samples. Eu viajo em pegar os samples e dar vida a eles em vários beats diferentes. Me identifico mais com o trap e atualmente tenho me aventurado muito em produzir plug e beats de grimes“, conta Bennet.

Fica aqui um pedido pessoal: cozinhem grimes.

“O grime tem uma parada de puxar um lado eletrônico, pelo fato do ritmo acelerado, dos sintetizadores, da distorção do grave, a pancada constante, ritmizando com um lifestyle mais ‘criminal’ e de estética mais de quebrada, diferente da ostentação do pop trap”, comenta Bennet.

“O trap tem aquela harmonia, aquela atmosfera mais organizada e o grime é mais sujo, mais propício para punchlines e muitas barras. E os caras estão sabendo como pegar isso da gringa e botar o lifestyle BR”, finaliza.

Cabral

Artista solo e produtor musical na Zoio Records, o jovem Cabral está há praticamente um ano no mundo da produção.

Estudante de música, o integrante da Zoio consegue ter uma bagagem teórica e usa isso na hora de dar vida aos seus instrumentais. Entre suas influências, Cabral cita o multi-instrumentista French Kiwi Juice.

“Tenho escutado muito FKJ (French Kiwi Juice), que faz um estilo de música bastante experimental e instrumental. A forma como ele produz tudo sozinho, e coloca um teclado, depois grava uma guitarra em cima, tudo na mesma hora. É algo que eu viajo bastante”.

Lil Peep, morto em 2017, também foi lembrado por Cabral, “por ter desenvolvido uma estética de mixagem e masterização“.

No âmbito nacional, Cabral citou Dactes como referência, além de falar das produções de Rafa Dias, produtor do grupo baiano ÀTTØØXXÁ e o manauara Victor Xamã.

Luan Òwe

“Òwe que beat malvado” 😎

Integrante do coletivo Balostrada Records, Luan alterna a produção de beats com as suas composições.

“Gosto muito de samplear ambientações calmas e tropicais pra trazer um contraste com um bpm de trap mais acelerado entre 140 a 170 bpm. Minha maior inspiração como produção de beats é Pierre Bourne, Murda beats, Geeli, Fiteck e Wheezy“.

As prodṳ̵es Рe can̵̤es Рdo menino do beat malvado podem ser encontrados em seu SoundCloud.

Foi Luan o responsável pelo instrumental de “ØNZE“, da braba Semiseria.

2KIKE

Parceiro de selo de Luan na Balostroda Rec, 2KIKE (ou Tio Kike) e Òwe já soltaram juntos o projeto Baloztradorehz Mixtape lançado em outubro de 2018.

Após conhecer o Fruity Loops em 2017, um dos softwares mais usados em produções musicais, Tio descobriu que poderia fazer música em casa.

Suas primeiras produções foram inspiradas no trap atlantense, bebendo da fonte de artistas já consagrados na gringa como Migos, Travis Scott, Future, Fetty Wap, entre outros nomes que ajudaram a construir o trap que se popularizou no Brasil. $uicedeBoy$ e Ghostemane também ajudaram a influenciar Tio Kike em seus primeiros preparos como cozinheiro de Fruity Loops.

Tio Kike, Luan Òwe e Lukas Vuto em “Sentro”

“Eram esses caras que me influenciavam porque eram os estilos que eu conseguia fazer no FL. Depois, estudando, eu descobri que eu posso criar qualquer estilo de música. Mantendo a linha do trap, mas também tento trabalhar novas sonoridades para o meio que estou”, comenta Tio.

Após três anos de estudos, Tio Kike foi se sentimento mais à vontade.

“Sempre escutei muito Rock, tipo hardcore: Led Zepelin, Pink Floyd, Black Sabbath, Iron Maiden, Mottohead… e umas paradas do Funky também. James Brown, Michael Jackson, Quincy Jones, todos eles tem muita influência em mim. A parada é tentar mesclar, sair do trap padrão de Atlanta, é o que venho procurando”, conta Dois Chutes.

Uma matéria tão musical como esta, não poderia deixar de conter palavras doces ao ritmo brega funk.

“Tô produzindo um brega funk de mil grau hoje em dia. É uma sonoridade impecável”, finaliza Tio.

CONFLITO

Após passar a tarde na casa de um amigo em 2016, Gabriel Nicory, mais conhecido como CONFLITO, apaixonou-se a primeira vista pela arte de produzir.

“Meu gênero musical favorito é o R&B. Gênero que geralmente explora sentimentos como tristeza e momentos como términos em forma de história sendo contadas em um instrumental com BPM baixo. É o que amo produzir. Mas lógico que como produtor me encaixo no mercado e tenho demandas pra outros gêneros também, como o próprio trap, que é um gênero relacionado ao boom bap com BPM mais acelerado e que usa timbres digitais e frequências como o grave, que atuam no boombap numa intensidade menor em comparação ao trap que é marcado pelos graves”, ensina CONFLITO.

Nomes internacionais como Bryson Tiller, 6LACK, PARTYNEXTDOOR e “caseiros” como Faustino Beats e Dactes são alguns dos artistas citados por Gabriel para referenciar os seus gostos de R&B. Já no trap, Travis Scott, Tyga, Roddy Rich, Recayd Mob e Matuê são outros citados.

“Meu estilo de produção é caracterizado pelo uso de alguns timbres que nos fazem sentir certa nostalgia. Prezo pela ambiência, coesão e a construção de um som. Tem que mexer com meus sentimentos e ser de arrepiar. Tento me encaixar na cena como o cara que trabalha com o máximo de artistas possível. Se o artista se esforça pra viver de música, tem minha atenção“.

Atualmente na gravadora Zóio Records, CONFLITO avisa que já tem material pronto e não para de produzir um dia sequer.

torajjjosu

É possível que você já conheça Kolx a.k.a torajjjosu pelas suas linhas fenomenais – e às vezes indecifráveis – nas músicas do já citado por aqui grupo Underismo.

Artista nato, além de rimar, Kolx também dá vida a instrumentais extremamente peculiares, que é possível ser encontrados no seu canal do SoundCloud, perto da terceira camada da terra.

Pra falar a verdade, eu nem me considero um produtor. É só mais uma forma de eu conseguir pôr a minha arte para fora. Sentia que precisava de um estilo de produção próprio para mim”, explica o Rato Sujo.

“Comecei a produzir umas paradas mais ligadas ao lo-fi. Escuto muito Knxwledge, que fez uma faixa do To Pimp a Buterfly, de Kendrick. Ele é um dos produtores que eu mais curto e o que me fez entrar no lo-fi, além da arte de me mostrar a arte sample, que, para mim, é uma imitação da vida. Acho que essa é a técnica de produção mais apurada que existe. A característica replicante que o sample tem é uma característica do próprio ser humano. Meu estilo de produção parte muito disso, tirando sons, vozes, de umas paradas e transformar em atmosfera“, comenta tora.

Kolx Productions

Sem dúvidas, a liberdade e criatividade para experimentar são características marcantes de Kolx.

Por não me considerar um produtor, isso me dá muita liberdade para fazer uns bagulhos que um produtor não faria. E é de época, às vezes faço algo mais padrão, com cara de beat, e às vezes gosto de fazer só o instrumental. Gosto de ouvir as vozes das pessoas e também considero isso como música”.

Sujeira refinada.

LAELA

MC, beatmaker e integrante do NSABBAS, selo de produção artística e musical, LAELA mostra um pouco das suas credencias na faixa mais recente do seu SoundCloud, a cativante “Trapjazzpãocommanteiga“.

“Considero minha produção muito original e particular. Diria que no princípio a minha forma de criar beats se parecia um pouco com a do Tyler The Creator”.

Produzindo e tendo contato com o rap há quatro anos, Elana Christini, a LAELA, era do Coletivo Vira Lata e hoje, além de integrar o já citado NSABAS, também faz parte da Batalha das Bruxa, onde não cola Barbie, muito menos Xuxa.

Aquaib

Cozinhando beats há três anos, Aquaib, vulgo da menina Bianca, desde sempre teve contato com o rap, mas é mais uma das minas desincentivadas por ouvir o falido papo de “rap é coisa mais para homem”.

Em caminhada solo, Aquaib nos conta um pouco sobre o seu processo criativo.

“Eu acredito que para produzir sou mais pela emoção/humor, pois acabo passeando nas vertentes que eu crio. Apesar de me enxergar essa linha do rap/trap, também chego num lo-fi manhoso, do nada, quase na mesma intensidade que alcanço um beat que imagino uma letra mais agressiva.

Mais “pratos” de Aquaib podem ser degustados – e adquiridos – em seu perfil no SoundCloud.

Chapei aqui.

Velho Nabs

Fazendo parte de um duo de Doom metal junto com Thalles Petrus, Nabs foca seu estilo de produção no trap, mas, pela influência do duo, gosta bastante do grave, então costuma colocar isso nas suas obras.

“Minhas maiores influências estão em Salvador mesmo, como Vandal, Nova Era, os meninos do Pinauna Rec, Venas, Diego 157, Kalmia, Sbornia Social, Galf, Foda-se LTDA…“, cita Nabs.

“Carregando a bagagem dos graves distorcidos do Doom metal, o noise do rock//punk underground e os batidões do hip-hop clássico“, é assim que Nabs diz misturar os elementos – ou seriam ingredientes? (rs) – dentro da base de trap.

Salamanka

Representando a Santa Rosa Rec, Pedro Ribeiro a.k.a Salamanka é mais um dos cozinheiros de Salvador que explora cada vez mais os tirmos regionais.

“A vibe que eu considero uma especialidade minha é o bass music, que são as músicas que tem como principal característica o grave, a presença do 808 bem forte, mas eu busco sempre variar e trabalhar com os ritmos regionais”, comenta Salamanka.

O pagodão baiano é uma das grandes artes com ar de 100% Bahia e é claro que não poderia deixar de ser citado em uma matéria tão soteropolitana como essa.

Eu cresci ouvindo pagodão baiano e tenho usado muito isso na mistura com o trap. Por isso considero meu estilo de produção livre, apesar de atuar na cena do bass music da cidade, eu busco unir outras coisas e fazer com que o trap atinja um outro público”, explica Sala.

A mistura da icônica track GOOSEBUMPS de Travis Scott com uma suingueira legitimamente baiana é possível ser degustada no canal de Salamanka, no SoundCloud.

Em janeiro deste ano, Salamanka participou da produção de “Mete Dança II“, que sucede o hitzaço “Mete Dança“, de Fashion Piva, parceiro constante de estúdio do produtor.

Eder X

Atualmente com 31, Eder Cruz está envolvido com música desde os seus 13 anos. Uma grande caminhada que passou por bandas de Rock in Roll (de 2003 a 2013) e o fez frequentar o underground soteropolitano.

“Nós fazíamos tudo, de produção, montagem, marketing… foi uma grande escola. Eu nunca tive objetivos de mercado, fazia música para movimentar e lutar pelos direitos das minorias”.

Hoje estudando piano, o produtor também serve como um mentor dos pivetes do UFFA Mob, todos eles crias de Cajacity.

Eder ganhou notoriedade ao também ser um dos principais betmakers de uma das revelações do rap baiano no ano passado, Pivete Nobre, com a sua sensacional mixtape de estreia.

“Eu sou apaixonado por boom bap, aquela parada que vem das entranhas, apesar de ter produzido pouco nesse estilo. Os artistas que mais me influenciam são Mos Def, Sabotage e Black Alien“.

Integrante da Estilo Solto, Eder é mais um representante da forte coletividade visível entre os artistas de Cajazeiras.

“Quando eu comecei a produzir o trap, o estilo estava super diferenciado, já com diversas vertentes, e a parceria com Pivete Nobre me ajudou bastante”, comenta.

E fechamos.

No total finalizamos este menu de cozinheiros com 19 nomes e certamente tem vários outros excelentes por aí.

De perfis mais experientes a nomes mais novos, o fato em comum entre estes 19 músicos é a força criativa para dar vida ao que acredita e tem como referência.

A produção independente é uma marca de todo artista contemporâneo e ferramentas ainda pouco exploradas pelo grande público, como o SoundCloud, contêm uma cena em emergente expansão.

Sensacional playlist no SoundCloud só com artistas de Salvador

Se você quer deixar uma sugestão de outros produtores sobre uma possível parte 2, meu Twitter está aqui e vai ser um prazer trocar essa ideia.

Até a próxima y fé.