Entrevista | Sant fala sobre a cena carioca, #VVAR, participações e novos projetos

Em março deste ano comecei uma série de entrevistas com MC’s de todo Brasil, sendo o estreante Yan Menestrel, que topou o desafio de destrinchar um pouco sobre sua carreira e falou também a cerca do novo álbum, “Relicário“, que será lançado na próxima segunda-feira (15). O entrevistado da vez, é Sant’ Clair, ou simplesmente Sant, como é conhecido.

O MC carioca, de apenas 22 anos, é dono de uma lírica sem igual e com diversos trabalhos na rua, incluindo seu primeiro disco O Que Separa os Homens dos Meninos (Vol.I), lançado em 2015. Para este trampo, contei com a parceira Becca Vilaça, diretamente de Pernambuco, que fez a ponte para a realização da entrevista e chegou junto comigo na produção das perguntas.

Mas quem é Sant’ Clair? O que ele tem feito? No que está envolvido? Ah, isso você vai descobrir no decorrer da leitura. Sant rima desde os 13 anos, está no Rap desde os 15 e afirmou: “Desde o primeiro momento de identificação, até hoje, essa porra tem sido minha vida“. Falou ainda sobre os novos projetos, mudanças, parcerias, cena carioca, #VVAR, dentre outras coisas. Confira!

Laísa: Como você vê a cena no RJ e os novos talentos que têm surgido, principalmente as crias das batalhas (a exemplo de Choice e Xamã)?

— Foi muito importante a integração do mundo virtual ao nosso. Abriram-se possibilidades, mesmo que eu tenha certo receio de estarmos saindo de uma caixa para entrar noutra, sabe? Porque, até o momento, não vejo uma cena consolidada na cidade.

— A “cena Rap RJ” é majoritariamente da Zona Sul, e isso é bem compreensível, já que, além do fator geográfico histórico social cultural que faz o cara nascido e/ou criado lá estar numa posição do grid de largada bem mais favorável que o redor, tem o fato de que, para quem não é do Rio de Janeiro, a cidade é isso aí: praia, Redentor e, no máximo, Arcos da Lapa. A Zona Norte, Oeste e Baixada Fluminense sempre estiveram em segundo plano.

— Não digo isso no intuito de tirar o mérito dos irmãos e das irmãs quem fazem um grande trabalho por lá, só estou deixando as peças na mesa. Acredito mais na variedade de cenas existentes aqui do que uma cena que nos categorize. Na Baixada, o Gordo (Caverna do Dragão Rec), vindo de SG, tem trabalhado com vários talentos, o Jhon é um exemplo, os irmãos do Autonomia é um outro.  Tem quem venha da ZO, que nem Xamã; tem a família de SG (já fora da cidade, mas ainda RJ como um todo) – igual Choice, que você também citou – que trabalha muito bem com esse lance das batalhas e é a galera que mais bem integra o real com virtual. E tem nós aqui pelos acessos da ZN trabalhando como maníacos igual Kayuá, Tiago Mac, Antiéticos, Chico Tadeu.

— Num resumão, estou gostando bastante de ser parte e ver a forma que a cena tá tomando.

Laísa: Como conheceu Marechal e se tornou parte da #VVAR?

— A gente se conheceu a partir de Mr Break (salve). Eles são amigos de longa data e desde que comecei a trabalhar com Mr, ele falava de um pro outro. Calhou de fazermos um show juntos em 2012 e nos conhecemos oficialmente.

Foto: Marina Giannetto

— Na época, ele já tinha a ideia do selo, então, trocamos umas ideias virtuais e presenciais, e demos início ao plano. Morei um tempo na casa dele, depois aluguei um kitnet com meu amado irmão MC Revolução e passei 3/4 anos internado na #VVAR produzindo – daí, lançamos um Porradão de Dois (P2) e um P5, meu primeiro disco, além de um single. Tem muita coisa ainda, não me desvinculei da #VVAR, sabe? Só fui buscar fazer agora também as coisas no meu tempo e com a perspectiva que conquistei nessa, resumindo, faculdade magnífica que passei.

Becca: Tua parceria com Kayuá é de vida, né? Sintonia de irmão, que já rendeu outros trabalhos. Me conta, como foi o processo de produção do clipe ‘’Leões’’?

Foto: Reprodução

— Conheço Kayuá há uma década. Se pá, um pouco menos ou até mais. O conceito visual da parada é mostrar nosso habitat, filmamos na Rua da Abolição, bairro da nossa área, com alguns de nossos amados amigos e muita fé em Deus e em todas crianças.

Becca: A letra do single tem linhas grandiosas, é forte e faz jus ao título. Qual a mensagem que vocês quiseram passar com ela?

— Essa música, ”Leões“, foi muito desafiadora. Consegui canalizar o que queria – essa afirmação e exposição do que representamos e quem somos -, mas eu não havia calculado o quão doloroso seria lidar com essa responsabilidade durante o processo. Foi um sentimento semelhante ao da composição de meu primeiro disco. Por aqui, carecemos de muitas coisas, mas o que nos mais fere é a falta de referências. Foi só notar isso que, automaticamente, nos dispusemos a preencher essa lacuna. O resultado ainda está por vir.

Laísa: O que vê de diferente do tempo que você ia para o Planet Music pra hoje?

— As pessoas. De lá pra cá, o gênero inflou e as pessoas foram lidando com isso, cada um com seu jeito. Minha maior mudança foi buscar entender como eu poderia manter o caminho da minha verdade nesse balanço que o tempo é.

Laísa: O que mudou pra vocês após as participações em Poetas no Topo e Favela Vive?

— Eu me arrisco a dizer que foram duas das ações mais importantes do Rap em 2016, então estar envolvido nisso me fez enxergar e entender um pouco mais a respeito de quem sou enquanto artista e para com o quê represento.

Poetas no Topo 1

Becca: No dia 8 de maio, Inglês soltou o primeiro single do EP “Sumério”, que contou com a sua participação e do 3030. Em um trecho da música você fala: “E se for competir, to pronto pra ação… então, não mete Rap mediano’’. Qual a tua visão a respeito das mensagens e da vivência que vem sendo passada nas letras da galera que vem compondo a nova escola do Rap?

— O nível tem subido, mas ainda está bem abaixo do digno, tratando-se da realidade do mercado. É um processo, a criançada de hoje está crescendo/amadurecendo e as novas crianças têm encarnado com outras perspectivas. Acredito num futuro próspero.

Becca: Sobre parcerias, vai sair um som teu com o Menestrel, não é? Pode nos adiantar algo?

— Eu me vejo bastante no Menestrel. Alguém precisa checar o registro desse rapaz, inclusive. Minha teoria é que só foram no cartório depois que o safado tinha 2 anos, no MÍNIMO. Dá uma olhada naquela barba, Becca, é sério… Eu demorei anos pra ter um bigode! Hahaha. Brincadeiras a parte, gostei demais desse som! Batida do meu querido Slim e o vídeo está no porte de Uriel Calomeni. Meu verso eu fiz pra tattoo que tenho no braço (salve, Finho) de uma formiga chamada Siafu – vale a pesquisa.

Foto: Reprodução

Laísa: Você já tem projetos para esse ano? Quais são?

— Além do disco colaborativo com Kayuá, tenho uma fita para dropar no último semestre com 9 faixas. Até lá, temos um single meu com participação especial de Diomedes Chinaski e um outro de LP Beatzz, com participações de Luccas Carlos, JL e eu. Tem outras cositas más, só que aí perde a energia do silêncio.

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De Sant, esperem muitas novidades. Chegamos até aqui e espero que vocês tenham gostado. Caso tenham sugestões para novas entrevistas, enviem para: [email protected] A próxima entrevista é com o rapper baiano DOI$ A$, aguardem.

Agradecimentos: Hebert Amorim (@artdeft)