Dia internacional da mulher e seu eterno questionamento. Afinal de contas, o que comemoramos de fato?

Dia 8 de março, mais um dia de luta ou de luto? Sinceramente, eu gostaria que todas as mulheres pudessem ter excelentes motivos para poder comemorar esse dia, mas o fato é que várias delas morreram queimadas por reivindicar  seus direitos. Até hoje, permanecemos em uma luta diária, na eterna tentativa de desconstruir velhas atitudes e gerar novos comportamentos. Até então, há pouco a celebrar e muito por que lutar.

Bom, acredito que essa reflexão pode começar com o seguinte questionamento: “O  que comemoramos de concreto no dia 8 de março?”. Um dia que é resultado de uma série de fatos e de mulheres buscando por direitos sociais e políticos, que se deu início na segunda metade do século XIX e se estendeu até as primeiras décadas do XX.

Talvez não tenhamos o que comemorar, mas a data em si, remete a mobilização, empoderamento e uma causa de centenas de mulheres em prol da igualdade de gênero, dos direitos, melhorias, pela luta contra o machismo, contra violência e misoginia. Portanto, tudo isso envolve mais do que uma data específica no calendário, é o dia de dizer NÃO.

Algumas mulheres incríveis fizeram parte na construção desse texto, expondo sua visão e ponto de vista a respeito da data de hoje.  A primeira delas é a Maravilhosa da Nerie Bento, Assessora de Imprensa a frente da BLACK INDIE, integrante da FNMH2 (Frente nacional de mulheres no Hip Hop) e militante nas questões da mulher, sobretudo a negra.

 — 08 de março é um dia de dizer NÃO… É uma data que representa a luta pelos direitos da mulher, se estou em um país onde esta mulher ganha 30% a menos que os homens e é a maior vitima de violência, eu não tenho o que comemorar, sendo assim, não quero receber os parabéns de homens que nos demais dias do ano contribuem para que estes marcadores não mudem. Não queremos suas flores, não queremos seu parabéns e muito menos um meme bonito na rede social. Neste dia é preciso refletir sobre como cada um contribui para o genocídio destas mulheres, como somos responsáveis por fomentar e elevar os índices de estupro, feminicídio, desigualdade salarial e afins. É um dia que devemos trazer a tona todas as estatísticas e fazer com que a população, sobretudo os homens, se envergonhem dos números absurdos que temos. É dia de greve, luta e não luto. De negar trabalhos e convites que só são feitos para nós neste dia como forma de cota ou caridade. É importante ressaltar que estes marcadores afetam muito mais as mulheres negras, pois foi preciso criar outra data para refletir sobre suas demandas especificas, afinal, o 08 de março representava a luta pelos direitos da mulher branca.

Como as demais datas “festivas”, o comércio tende a mascarar o verdeiro motivo por trás de toda uma causa e a ausência de reflexão é cada vez mais comum, e cá pra nós, 8 de março não é um daqueles dias que você resolve sair de casa parabenizando  uma mulher por ela simplesmente ter nascido mulher, concorda? o buraco é bem mais embaixo.

A verdade nisso tudo é que as pessoas, principalmente os homens, se esquecem de uma maneira muita fácil das formas pelas quais nós mulheres somos vistas e tratadas dentro da sociedade, embora reafirmem de forma frequente o tal “lugar” da mulher, sempre vinculados aos malditos esteriótipos e rotulações.

Bárbara Sweet faz parte dos grandes nomes do Rap Feminino em Belo Horizonte. A Mc é conhecida por participar de grandes duelos, como o do Viaduto Santa Tereza, e principalmente pelo seu engajamento no movimento feminista. Faz questão de ser ouvida e não exita em falar.

— Pra mim nem é dia de comemorar nem dia de luto. Pra mim é dia de LUTA! A importância desta data pra mim é a possibilidade de me unir a outras mulheres pra marchar, cantar, e debater sobre nossas pautas. Acho a lição e consciência que buscamos neste dia e em todos os outros do ano é a do respeito aos nossos direitos e corpos. Ao nosso trabalho e vivências. Não é dia para flores e essas manifestações vazias de “congratulações”, é um dia de reflexão e aprendizado para os homens, para q ouçam nossas reivindicações e assimilem nossas lutas.

Então eu pergunto com toda sinceridade, qual o sentido de comemorar? Se várias mulheres ainda sofrem violência física, abuso sexual, assédio moral, psicológico, porque? se elas ainda continuam ganhando menos no mercado de trabalho, mesmo realizando dupla jornada, dentro e fora de casa, se continuam sendo rotuladas, objetificadas, estupradas, discriminadas. Certa tava Cássia Eller quando disse: “O mundo tá ao contrário e ninguém reparou”.

Gordiva! Sista Katia simplesmente compõe o quadro de mulheres incríveis e admiráveis que eu conheço. Soteropolitana, militante e grafiteira que usa sua arte como forma de posicionamento político, além de youtuber e dona da porra toda.

— Data que foi absorvida pela capitalismo, e como tudo que o capitalismo toca, o 8 de março tem sido esvaziado do seu real objetivo. É o dia de seguirmos e reafirmarmos nossa luta. Dia de afirmação, de resistência e construção de ideias coletivas para que atendam todas as mulheres e combater a violência sofrida pela mulher. Cobrar por uma legislação efetiva que nos contemple, apoie e incentive iniciativas de mulheres. Ainda estamos caminhando lentamente, mas não desatentas. As discussões tem que sair do espaço teóricos e virtuais e ocupar espaços físicos, escolas, casas, comunidade e principalmente devemos entender como funciona o sistema legislativo e como podemos usá-los a favor de nós. Construir uma sociedade menos misógina e com mais oportunidades de crescimentos para mulheres buscarem sua autonomia, de seus corpos, mentes e escolhas.

O seu parabéns dado na rua não vale absolutamente de nada, se durante  todo o ano, nessas mesmas ruas, mulheres estão sendo constantemente assediadas. É preciso que você entenda que: A cada 2 minutos, 5 mulheres são submetidas a violência e que 15 mulheres morrem a cada 2 horas vítimas do feminicídio no Brasil, 66% é o percentual de brasileiros que dizem ter visto uma mulher ser vítima de agressão física ou verbal ano passado. A violência contra as mulheres negras é bem maior que contra mulheres brancas, e isso é algo visível.  Enquanto isso o feminicídio entre mulheres branca teve queda na última década e houve um aumento entre as mulheres negras. E há uma percepção entre negros de que a violência é maior porque eles a vivenciam mais. ”Desigualdade racial e machismo é uma combinação tipo coca e mentos… explosiva e catastrófica.”

E como já era de se esperar, hoje vai ser realizada uma greve geral internacional. Mulheres de todo o mundo, em mais de 50 países vão as ruas e promete ser o maior protesto já realizado na história, com o lema: “Se nossas vidas não importam, produzam sem nós”. O foco do protesto não se limita apenas às condições de trabalho, mas também vem para mostrar quanto a mão de obra feminina é necessária e pouco valorizada.  Pra quem não se recorda, em outubro, uma adolescente argentina Lucía Pére, (16), foi assassinada. Violentada e morta por dois homens, o ato desencadeou e repercutiu uma série de protestos contra o feminicídio em toda a América Latina com os slogans: “Nem uma a menos e Vivas nos queremos“. Diante o ocorrido, centenas de mulheres saíram às ruas no dia 16 de outubro, protestando contra a violência e a banalização do assédio.

CHEGA DE FIU FIU é uma campanha contra o assédio sexual em espaços públicos.

Nascida em 24 de julho 2013, a Chega de Fiu Fiu é uma campanha de combate ao assédio sexual em espaços públicos lançada pelo Think Olga. Inicialmente, foram publicadas ilustrações com mensagens de repúdio a esse tipo de violência. As imagens foram compartilhadas por milhares de pessoas nas redes sociais, gerando uma resposta tão positiva que acabou sendo o início de um grande movimento social contra o assédio em locais públicos.

https://www.youtube.com/watch?v=q3S5kxMLa2s

Todos os dias, mulheres são obrigadas a lidar com comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual afins que se apresentam de várias formas e são entendidas pelo senso comum como elogios, brincadeiras ou características imutáveis da vida em sociedade (o famoso “é assim mesmo…”) quando, na verdade, nada disso é normal ou aceitável.

Mano, esse é um dia pra informar a vocês que nossa voz não será calada, mesmo com os índices de violência crescendo, onde mais de 500 mulheres são vítimas de agressão física a cada hora no brasil. Hoje é dia de dizer que nosso corpo nos pertence e que você não tem direito de se apropriar, que eu não preciso baixar a cabeça e sentir medo quando passo na rua. Hoje é dia de dizer que não sou obrigada a gostar do seu “psiu”, ele não me intimida. Hoje é dia de CONSCIÊNCIA, que vocês reflitam, respeitem e aprendam com a nossa luta.

Não queremos viver com medo, não queremos parabéns, não queremos flores. Não queremos ouvir comentários escrotos, nossa roupa não te dá o direito de achar que merecemos ser objeto de cobiça e, rejeitar seu beijo, não te da o direito de me espancar. Pelo amor da Deusa, queremos respeito, queremos ter o direto de VIVER em paz. Chega a ser cansativo ter que pedir por algo que é naturalmente nosso por direito. Por isso a luta nunca vai acabar, ”nem uma a menos”Sejamos Fridas, Maria Bonitas, Dandara, sejamos resistência.

Desejo a todas vocês mulheres, força, pra continuar e nunca desistir da nossa causa e o motivo de nossa luta. Vocês são lindas, maravilhosas, divas, dona da porra toda, guerreiras, e nunca deixem que nos façam sentir o contrário. Seguimos!