Como pausei “AmarElo” e fui ouvir “Opaco” de Nochica

Em um tempo tenebroso para estar morando no Brasil, uma certa carga de negatividade/revolta/tristeza parece sempre estar presente no país do futebol – e essa alcunha não é verdade, mas sim uma mentira repetida várias vezes.

O nem tão querido Brasil Brasileiro sempre teve suas famigeradas mazelas, mas hoje a parada simplesmente embucetou até um ponto em que os caras jogam “AI-5” na roda e nada acontece. Bem bizarra a omissão do cidadão BR, na verdade, mas são por essas merdas que somos sufocados day by day.

Para fugir da toxicidade presente em várias situações da interatividade social moderna, artes poderosas como a música servem como um verdadeiro desafogo.

Foda-se o hype do Kanye West

Pois hoje, dia 31 de outubro, Halloween para estadunidenses e soteropolitanos graças a Fashion Piva, eu fiquei sabendo que o rapper Emicida, certamente um dos melhores e maiores da sua época, lançou um álbum batizado de “AmarElo“.

Há muito tempo o menino Leandro não faz rap com a minha cara de rap favorita e eu não estava nem um pouco hypado para o lançamento, mas a gente sempre dá aquele saque.

Então… parei na segunda ou terceira faixa. Como eu esperava, a ~~vibe musical~~ não me conquistou e isso é normal. Nada contra Emicida e ao seu incrível legado, muito pelo contrário, gosto muito de Leandro, mas “AmarElo” não é algo que eu, hoje, pretendo consumir.

Quem lembra?

É importante frisar que o artista Emicida tem todo o direito de fazer o estilo de música que quiser = até porque tem status e talento para tal – e ganhar todo o dinheiro que ele certamente merece ganhar, eu que não tenho a obrigação de consumir tudo que ele lançar. 🤪🤪🤪🤪🤪🤪🤪

Aliás, rola muito disso: a fan base se vê obrigada a gostar de tudo que o seu artista preferido lança. Parece não saber que é possível deixar o ‘fanclubismo’ de lado – até porque fan club só serve para estregar – e seguir outros caminhos.

Sem precisar chegar naquela parte de “dar um chance ao álbum“, eu também fiquei sabendo, no mesmo dia, que o artista Nochica tinha lançado a mixtape “Opaco“, lá no RJ.

A única coisa que eu já tinha ouvido de Nochica até então era essa track aqui abaixo, chamada “Violento” e que “o nome da faixa já fala por si só“.

Já deu para perceber a diferença de vibe de “Violento” para “AmarElo”, certo? Como diriam aqui em Salcity: another flavor.

Acontece toda hora e daqui uns anos eu posso voltar a pensar se vale a pena dar uma chance para “AmarElo“. Só invoquei a comparação por um motivo: acredito que vivemos em um momento que pede mais agressividade, postura e papo reto do que “afagos no coração” e o rap, essencialmente, é dedo na ferida.

Musicalidade doce as vezes tem amargura“, como diz Trevo, da Underismo, neste som aqui:

Então lá fui eu ouvir a mixtape do menino Nochica e o que eu encontrei foi tudo o que eu esperava. Em 11 faixas, a cria do underground carioca deixa muito claro que está em sessão de descarrego e expõe seus demônios em uma mixtape repleta de sujeira, beats insanos e linhas de soco.

Mixtape com cara de álbum

Não sei para vocês, mas para mim é um dos melhores trabalhos de 2019 com uma facilidade incrível.

Nochica, como o rap, é agressivo e revoltoso. Isso faz parte da essência do bagulho e não pode se perder.

Viva o undergrounderismo.

Volto na próxima.