Com Kyan o Hexa vem!

Kyan, artista do selo Ceia Ent, lançou ontem o clipe de Menor Magrinho. Foi a gota d’água para escrever um texto sobre uma das grandes revelações da cena. O beat do Dj Mu540 sampleia o hit ‘Senta em Mim Xerecão [Pam pam pam pam hoy]’ de Mc Magrinho. O trio de ataque é fechado por Lucas Zetrê, responsável pela direção. Esse é basicamente o time fechado desde a Mandrake, primeiro clipe do canal do artista no youtube.

Kyan, que é da Baixada Santista, usa e abusa da simbologia do funk de São Paulo. A Lacoste já virou uma marca registrada nos audiovisuais do artista, dos bonés as munhequeiras. Além disso, vemos marcas “antagônicas” como Nike e Adidas sendo usadas no mesmo kit, como nesse último lançamento. As camisas de time não faltam, nem o copo de Whisky e galo. E é ai que entra o elemento surpresa desse time, o stylist Neguinho de Favela. Ele assinou a Direção de Stylist/ Fotografia de Menor Magrinho e Tropa da Lacoste.

A estética trazida por Neguinho de Favela vem da vivência da juventude negra das favelas do Brasil, principalmente de São Paulo, com influência de periferias de alguns lugares Europa. O futebol é um grande agregador nesse sentido, já que vemos as referências nas roupas e nas letras também. As camisas de time, as marcas, as grifes, se tornam a expressão de jovens que nem sempre tiveram condições de ter, mas que agora conseguiram conquistar.

Mais uma vez vemos jovens negros lançando tendência, seja no streetwear ou na moda fashion. E querendo ou não, são essas pessoas que mais consomem marcas sport como Nike, Adidas, Oakley, Lacoste, entre outras. E muitas vezes essas marcas não valorizam o seu público real. Ou seja, é bom ficar de olho nesses jovens promissores.

Kyan e Mu540 (leia-se Neymar e Ganso de 2011) em seus primeiros lançamentos direcionaram suas produções para o trap. Na ‘Tropa da Lacoste‘ o beatmaker já flerta com o UK Drill, que a gente vê referências nas roupas e acessórios também.

Mas as influências funk sempre estiveram presentes nos beats, de Pente de 100, passando por Tang com Tasha e Tracie até chegar neste último lançamento. Essa é uma das grandes qualidades de Mu540 como beatmaker, a grande competência para fazer essa mistura. Ele não tem o costume de errar. É uma das grandes revelações em termo de produção que temos hoje na cena. E a parceria com Kyan é um casamento perfeito.

As letras de Kyan sintetizam a sua experiência como jovem negro e de favela no Brasil. Ele tem uma característica anti-polícia, apontando o racismo das diversas corporações policiais do Estado. Em ‘Cana-lhas‘ denuncia as ações autoritárias e racistas dos que supostamente deveriam assegurar a todos. Mas tudo que vemos é a violência sofrida pela população pobre e negra nas mãos da polícia. Para resumir, o discurso contra a polícia de Kyan é uma forma de protesto e de resistência através da arte.

Além disso, ele vem abordando diversas outras contradições em ser um artista negro no Brasil que começa a ascender com seu trabalho. Em “Menor Magrinho“, Kyan se afirma, não só como um artista talentoso, mas como jovem que veio de baixo e tá conquistando tudo através do seu esforço.

É a sua vivência, sem ter que maquiar nada nas suas músicas, tirando seu lazer também como qualquer ser humano. Isso tudo sem falar da capacidade melódica e de rima de Kyan. Caneta afiadíssima.

A assinatura de Lucas Zetre na direção se encarrega de mostrar toda a vivência e a estética construída por Kyan, Mu540 e Neguinho de Favela. Os passinhos, a quebrada de fundo, os amigos, o stylist, sendo colocados nas telas através das melhores produções audiovisuais da cena do rap atualmente. Considero ser o melhor audiovisual de Kyan.

Os Meninos do Hexa são realidade!

Obs: Se cuidem. Quem puder, fique em casa. De qualquer forma, se protejam, usem máscara e lavem bem as mãos. Vidas Negras Importam.