A era do rap mais narcisista de todos os tempos: Ego sobre linha

Rap (Rhythm And Poetry) – traduzindo de forma direta ao português: Ritmo e Poesia -, surgiu em meados dos anos 60 na Jamaica. Fora levado aos Estados Unidos na década de 70, pelo pioneiro DJ Afrika Bambaataa. O principal objetivo dessa novidade fonográfica era (além de trazer algo inovador aos ouvidos) questionar as injustiças e irregularidades ocorridas na época. Ou seja, o RAP sempre foi militante.

Em 1980, nas imediações centrais paulistana, precisamente na Rua 24 de Maio e São Bento, chegou ao solo nacional mais uma novidade: O Hip Hop. Com muita dança, música, alegria, figuras curiosas e corajosas para a época (período de ditadura) eles chamavam a atenção de quem passava. Nelson Triunfo com seu Black Power e sua coreografia singular, mostrava que acabara de chegar algo novo e bom!

Rap em si chegou, logo após o Hip-Hop, em 1988. Todo aquele bailado revolucionário, não poderia continuar sem sua trilha sonora própria (e cantada em português). Thaíde e DjHum, Código 13, O Credo e Mc Jack, estrearam com o primeiro álbum (reconhecido) somente de Rap Nacional: “Hip Hop Cultura de Rua”. O disco fora inteiramente produzido por André Jung, Nasi (ambos integrantes da banda Ira) e alguns outros Dj’s convidados a acompanhar o projeto na gravadora: Eldorado.

Músicas como: “Vicio” de Mc Jack, trazia o verso “Então eu digo e repito. Não digo por mal/ Vire as costas, pois o vicio é fatal”; Cidade Maldita “Cidade maldita onde as pessoas passam mal/ O que é certo é errado o que é errado é legal”; Thaíde e Dj Hum trazia o som “Homens da lei” que falava “Policial é marginal e essa é a lei do cão/ A polícia mata o povo e não vai para a prisão”; Código não ficava para trás em termos militantes e trazia sua faixa “Gritos do silêncio” com versos contundentes tais como: “O sistema é imprevisível/ Leva a humanidade a um fim difícil”.

O primeiro “Bolachão” – como eram chamados os discos – nacional mostrou sua face e sua forte militância. Trouxe um grito e voz às periferias. A principio era malvisto, pois tratava-se de músicas periferias, de zonas marginalizadas. A hipocrisia nacional de exclusão oculta sempre existiu. Logo depois surgiram outros grupos e MC’s extremamente relevantes e contundentes para o cenário musical e social, denunciando as desigualdades que ocorriam/ocorrem.

Geração Z

Chegamos a uma nova vertente dentro do Rap. Dividiram o gênero, sim agora minimizou os efeitos de luta social e passou a ser tratado como um “gênero musical”, em duas ramificações: A Old School (Velha Escola) e a New School (Nova Escola). A Velha Escola, o famigerado “Rap de mensagem”, é formada pelos grupos e MC’s  mais antigos, os pioneiros que traziam seus debates sociais ao publico. Já a Nova Escola, na maioria das vezes, é composta por membros mais jovem da cultura: nascidos em meados de 1990 a 2000. A conhecida (pelos sociólogos) Geração Z, iGenertaion, Geração virtual…

Com o avanço da tecnologia, as novas e velhas redes sociais, a reputação online do individuo ganha cada vez mais espaço ao mesmo tempo em que ele disputa para tê-lo. É como a história do dinheiro “Quanto mais você tem. Mais você precisa…”. E o que isso tem a ver com o Rap?

Baseado nesse modelo de exposição pessoal (online), o Rap vem se enquadrando como um portfólio de exaltação egocêntrica. Semelhante a um book fotográfico de modelos. Boa parte da ideia inicial do movimento distanciou-se. As frases de reivindicação de direitos fora alterada pelas locuções de “Sou foda!”, “Usei muita droga”, “Bebo para caralho!”, “Tenho várias vadias”, “Quero Codeína com Sprite”…

Foneticamente falando: o Rap cresceu muito, ultrapassou o Rock, virou o gênero mais vendido mundialmente. As novas tecnologias deram mais energia aos instrumentos, ampliou o leque de variedade sonora (dentro da categoria). Profissionalmente, o Rap está mais evoluído, comparado ao inicio, quando a tecnologia limitava a criatividade dos MC’s e DJ’s.

Todavia, em termos de escrita, os cadernos dos novos MCs – perdoem a generalização! -, se é que ainda se escreve músicas em cadernos, não aguentam mais a descarga de ego, a cada nova escritura.

Não que seja proibido se exaltar, superestimar-se… Pelo contrário, é até bom enxergar suas qualidades. Entretanto, o Rap merece mais! Acompanhando as letras recentes de alguns grupos e MC’s, vejo muita coisa igual: Sexismo, machismo, egocentrismo… Reclamaram tanto sobre o Funk (nacional) ter tomado esse caminho, mas estão fazendo com que o Rap siga a mesma rota.

Guardinha do Rap

De acordo com a Constituição Nacional: Todos os seres humanos têm direito a Liberdade de Expressão. Podem fazer o que querem desde que não infrinjam as leis. Esse termo é cabível ao Rap também. Todo artista pode e deve seguir seu direito de liberdade e fazer sua música da maneira que bem entender. Contudo, devemos sempre lembrar que o Rap em si é muito mais que um mero gênero musical, e é um alicerce coletivo. Ou seja: o que você compõe e canta significa e traduz a voz de muitas pessoas.

O termo “Guardinha do Rap” surgiu nos últimos anos, com relação aos ouvintes insatisfeitos com algumas letras, passando assim a criticar o artista, grupo ou música na internet. A expressão em si é usada por ouvintes que tem opiniões contrárias aos que criticaram a música. As criticas, na maioria das vezes, no YouTube e outras redes sociais, trouxe esse novo dito.

Todavia, nos questionamos até onde vão os direitos do ouvinte em criticar ou elogiar algo; e até onde o artista se deve deixar levar. Bom, supondo que o Rap tenha ficado mais Pop devido à opinião de fãs saturados da forma não muito diversificada da Old School, osrappers também devem considerar as criticas. Afinal avaliação ajuda a crescer. Sobre o novo termo – Guardinha do Rap – devo salientar que avaliar conteúdos dos quais se é ouvinte faz parte da liberdade de expressão. E, considerando o Rap como um mundo particular, nesse mundo também tem patriotas que amam esse universo, logo querem protege-lo. Sintetizando: As criticas, quando feitas com bases, são construtivas.

Escrita por Alan Criant.