Entrevista: Yzalú, o rap no violão e suas referencias em outros estilos

Neste mês de março, em homenagem à mulher, iremos soltar uma série de entrevistas com as minas do Hip-Hop. A proposta é dar mais visibilidade e voz às mulheres que estão correndo pelo certo no movimento. Já conversamos com a Drik Barbosa, e hoje você lê a entrevista com a mina que é treta, na bossa e no rap.

Nascida na periferia de São Paulo, Yzálu (33 anos) começou a criar sua música aos 16 anos, e através dos vinis ao som de mestres da música popular brasileira como Bezerra da Silva, Djavan e Leci Brandão surgiu seu interesse pela música.

No Dia Internacional da Mulher, a rapper lançou o seu primeiro disco, intitulado “Minha Bossa é treta“. Com músicas harmônicas que abordam temas como gênero, amor, celebração, questões sociais, feminismo da mulher negra e contestação, Yzalú veio para elevar a representatividade feminina e a musicalidade dentro do rap nacional.

[Leia também: Conversamos com Drik Barbosa
sobre música, feminismo e preconceito]

A qualidade do disco é reflexo da garra e persistência de Yzalú que, entre economias e hora extra no trabalho, reuniu recursos para fazer um dos melhores álbuns lançados neste ano. “Nunca é tarde para tentar viver do que se ama, basta acreditar e não esperar que façam por você, não é? Se há verdade e força de vontade, apenas faça!”, ressalta a artista.

5fe48138-963e-4c8f-a74c-3b5c327c1ae4A maior referência pra Yzalú é a rainha Dina Di, “Lembro que, em 2009, tive a imensa felicidade de conhecê-la pessoalmente. Esse encontro me fez enxergar, através dela, as minhas próprias qualidades enquanto uma artista negra, oriunda dos morros da periferia do Jardim Thelma, em São Bernardo do Campo. Eu cresci na cultura marginal… E me orgulho disso”, conta a artista, que também bebe de outras fontes pra compor sua bossa.

Além das melodias vocais, a rapper se destaca entre outros mc’s pela sua proximidade ao violão. O instrumento de corda é quase uma marca registrada da artista que, com seu toque de midas, conseguiu deixar seu violão mais rap que muita batida por ai — recomendamos a as faixas “Alma Negra“, “Figura Difícil” (composta pelo Sabotage) e “É o Rap Tio” pra compreenderem essa proximidade ao instrumento.

https://m.youtube.com/watch?v=6JayAqb9664

Trocamos uma ideia com a cantora, Yzalú nos contou o que tem ouvido fora do Rap, falou da experiência em gravar uma inédita do Sabotage, o espaço das minas no rap e outras ideias, confira.

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RND: Sua música é rica em influências e musicalidade, isso é bastante visível, principalmente na MPB. O ritmo e a poesia são os maestros que regem toda essa orquestra. Mas então, porque o rap e não outro estilo musical? O que é o rap para você?

Yzalú: O Rap me ensinou a ter orgulho de quem sou, da onde vim e principal mente a ver beleza na minha arte e respeitá-la. Eu não escolhi o rap e a música, eles sempre estiveram por perto me envolvendo com muita honra, no entanto, hoje fazendo uma retrospectiva, eu percebo que o violão que eu tocava tinha mais proximidade com as batidas de rap do que com outros ritmos, apesar de tocar os outros ritmos, eu me identificava mais com um violão marginal, gangsta mesmo, música com dois acordes e um looping, entende?! É isto.

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RND: Sabotage, Maestro do Canão, um dos maiores e mais importantes nomes do Rap Nacional, já dizia a anos atrás que Rap é compromisso. Como foi pra você gravar uma letra inédita do Sabotage?

Yzalú: Uma honra e um desafio enorme. Ele foi e é o mestre, e ter tido oportunidade de musicar a letra do Sabotage, não dá pra descrever a emoção. Só tenho a agradecer à Tamires e à família pela generosidade e confiança. Foi uma experiência única.

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RND: Apreciar e conhecer diversos gêneros de musica é bastante interessante, além de abrir novos horizontes, expande as formas de criação. Qual a importância desse conhecimento e o que você tem ouvido ultimamente além de rap?

Yzalú: A última playlist que fiz tem Liniker, Baiana System, Djavan, Jovelina Pérola Negra, Gal, João Gilberto e por aí vai. Acredito que beber de outras fontes te dá a oportunidade de conhecer formas variadas e infinitas de expressar o sentimento que se traduz em música esse é o principal benefício.

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RND: Sobre a questão do domínio no rap nacional. A gente sabe que é um movimento feito por homens, mas a algum tempo as mulheres vem ganhando visibilidade, tem representado e ganhando repercussão nacional de uma forma equivalente aos homens. Como você enxerga o espaço das mulheres na cena do rap nacional atualmente?

Yzalú: Eu vejo com muito bons olhos, mas queremos ver mais nomes. Tem muita mina de responsa fazendo rap, eu poderia citar algumas Preta Rara, Drik Barbosa, Odisseia das Flores, Lauren, Tássia Reis, são só alguns dos vários nomes que tem. E quanto mais nomes surgirem não só de mulheres mais de homens também é melhor para a cena, para o mercado e principalmente o público.

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RND: O Rap é grito, um grito incomodo e por muito tempo foi marginalizado. Como foi para você lidar com os preconceitos e esteriótipos atrelados ao rap? Surgiu algum tipo de dificuldade com sua família e amigos?

Yzalú: Sempre tive o apoio da família e dos amigos apesar de não entenderem bem o Rap no Violão, eles aprenderam a gostar “rs”. O meu irmão foi a pessoa que mais me ajudou e continua até hoje, mas no início, me deparei com alguns inconvenientes sim, principalmente pelo que faço no violão. Mas acontece que algumas pessoas não entendem né, vai fazer o que? Faz parte… Por um lado é bom porque te dá mais gás pra seguir, quando dizem que você é maluco naquilo que faz é aí que você tem que continuar e a cada dia aperfeiçoar mais, foi assim que eu aprendi!

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