Sulicidio não foi o bastante?

Venho abordar um tema que acredito que muitos artistas do Nordeste, Centro Oeste, que não são da capital, vão se identificar e concordar (claro, podem discordar também).

Sabemos que a atenção dada para os artistas que não são do Eixo RJ-SP é insuficiente em relação ao talento que eles possuem. E a melhora – pouca – veio com o lançamento de “Sulícidio”, por Diomedes Chinaski e Baco Exu do Blues. Porém, isso pareceu não bastar para que as coisas melhorassem de fato. O que quero dizer com isso? Que mesmo após esse reviravolta de “Sulicidio”, os bruxos lendários do Norte continuam sem ser ouvidos e, sim, estou ouvindo essa faixa nesse exato momento. 

Convidei alguns ótimos artistas que não são do eixo ou das capitais onde se concentram todo mercado, para falar sobre as dificuldades que passaram durante a carreira. E se você ainda não ouve esses caras, agora é a hora de começar: RT Mallone Nego Gallo e Aggin.

Antes de mostrar a opinião deles, preciso reforçar algo: Eu entendo que todos os lugares tem pessoas na correria e quando digo que existe um mercado que olha mais pro eixo, acabo desmerecendo o corre de muita gente. Mas o intuito dessa matéria não é esse, sabemos que no ‘Underground’ de todo o Brasil existe muitas pérolas a serem lapidadas. Mas sabemos que quem é do eixo, não necessariamente da capital, só do estado, já tem maior notoriedade, com menos tempo de corre comparado a quem é de fora. E sim, inexiste peso pra falar disso, são rimadores superficiais, simples que tem muito mais destaque, em relação a artistas que se dedicam pra rimar bem, com uma estética bem definida, com boas produções, mas por não ser do eixo, não são incluídos na engrenagem;

Troquei uma ideia com Aggin, de Brasília, sobre as dificuldades que enfrentou durante a carreira e o rapper falou algo que me chamou muito a atenção:

“Minha maior dificuldade é perceber que minhas produções tem mais pessoas de outros estados”

Pode até parecer contraditório o fato de um artista ter mais público fora do próprio estado, se estamos aqui criticando a falta de atenção dada para os artistas fora do eixo. Mas essa falta de notoriedade e reconhecimento do público local é fator crucial para que artistas de qualidade permaneçam no dito “underground”.

A crítica aqui é uma via de mão dupla: É muito importante o cenário do rap da sua cidade se organizar e alinhar para evitar que todo show e evento tenha line-up repetido, o que tornaria a cena local maçante.

“Me parece que o Eixo é mais organizado. Brasilia precisa de agenciadores de carreiras, de coletivos fortes e de gente que saiba fazer música sem se vislumbrar depois do seu primeiro show, o mercado deveria abrir um espaço para novos eixos” – Disse Aggin.

Também tive a oportunidade de conversar sobre o mesmo assunto com Carlos Gallo, de ponto de vista diferente, que concordo em partes, mas sim é muito importante ver tudo isso de uma outra forma: 

“Eu não vejo nenhuma dificuldade extra. Na verdade acredito ter uma vantagem nisso, de estar em outra região, pela riqueza e possibilidades de criação, sem interferência do que soa velho e fora da realidade do país e das pessoas por um ‘status quo’ que não ta dizendo nada, veja Baco e Don L, eles não são do eixo e é isso que eu falo. A renovação”.

E por último e não menos importante, eu conversei com o artista RT Mallone, natural de Juiz de Fora – Minas Gerais e ele me contou sobre sua realidade de ser um rapper fora do eixo:

“Juiz de Fora é uma cidade que não tinha uma cultura de rap em relação a casa de festas, em rappers locais se apresentando nessa casas, é um bagulho que tamo criando do zero e eu me orgulho de fazer parte da galera que tá fazendo isso e acredito muito que a nossa cidade vai fazer muito barulho ainda, o foda é não saber quando…”

Saber que só por não ser do eixo, sua música não vai ter a atenção necessária proporcional à qualidade do trampo é frustrante, o que resta é trampar e investir mais no projeto, até que a barreira seja furada.

“Conseguir show fora da cidade é muito difícil pra gente, mesmo eu, com o nome que tenho junto com a Artefato hoje, tenho muita dificuldade de fazer show fora, a nossa dificuldade de conseguir views é muito grande, porque ainda existe a cultura de que ‘o que é de fora é melhor’ exatamente por conta da internet mano e furar essa barreira é uma dificuldade presente”. 

Mas isso é uma parada que vai mudar muito em breve, pode ser daqui a 1 ano, daqui a uma hora, mas esse bloqueio vai ser furado e é muito importante esses artistas fora do eixo não pararem de lutar e de trampar e apresentar e reafirmar cada vez mais que o Nordeste, o Centro Oeste, os interiores dos estados, tem muito artista bom, que mesmo passando por todas as dificuldades, conseguem mostrar um trampo sincero e cheio de qualidade. Mas aí, vai ser necessário outro Sulicidio para tudo isso mudar de vez?