Sobre o Festival D.I.Y., o melhor rolê da minha vida

Nesta semana o pessoal da NOUNOUHAU soltou o after-movie — junto com um texto que também vale super a pena conferir — da segunda edição do Festival D.I.Y. (sigla que significa ‘faça você mesmo’ em inglês) de Rap Alternativo, realizado em Curitiba entre o final de Agosto e começo de Setembro do ano passado. Usando esta ocasião de ensejo, gostaria de falar um pouco sobre a minha experiência realizando a cobertura do festival em nome do RND.

Falar em rap alternativo num cenário tão novo como o nosso pode parecer viagem, mas a line-up de fato envolveu nomes que estão entre os melhores artistas-que-fazem-um-som-foda-mas-não-tão-comercial do país. Encabeçada por niLL, Oddish, Makalister e contando com nomes como U.L.O, FVST e os locais Lyn’C, Castanha e Som 172, a escalação de artistas não podia ser mais diversa e, ao mesmo tempo, orgânica. Durante as várias horas de som num pico bem intimista, a vibe que seguiu do início ao fim do festival foi bastante estável e contagiosa.

O evento em si foi sensacional, no nível de bons eventos de Sampa e tudo mais, mas não chega nem de longe aos pés do que foi o restante do rolê. Como o próprio nome já indica, o festival foi organizado por produtores independentes naquele esquemão de sempre de dinheiro do próprio bolso e já planejar o evento considerando um provável preju. Quando perguntei ao Rafa e o Edu, cabeças da produtora, sobre isso, eles me explicaram que o mais importante era que o evento acontecesse de fato e não as tretas financeiras envolvidas. Nem questionei. Já fiz o mesmo e entendo o pensamento deles. Tem gente que se preocupa mais com a cultura que com o próprio bolso e isso é louvável — e quiçá necessário para que nosso rap conquiste algumas coisas.

Kado, do U.L.O, Skin e Nill, integrantes da SoundFoodGang

Enfim, vou evitar os devaneios pra não me perder do assunto principal desse texto: a hospedagem dos artistas. Sem hotel 5 estrelas pra levar mina menor de idade depois do show e outras feiuras que esses grupos grandes fazem. Todos artistas ficaram hospedados na aconchegante Casa Verde, local ‘chefiado’ por Bira que abriga músicos e demais viajantes que sejam chegados no estilo colaborativo que permeia o lugar. Entre lavadas de louça, vaquinhas pra cerveja (que em CWB se chama carinhosamente de bera) e churrascos, grande parte dos artistas do festival ficaram em contato constante desde dias antes do festival começar até dias depois dele acabar. Esse detalhe possibilitou um intercâmbio entre mentes de diversas regiões do país e um contato humano que só o hip hop real proporciona.

Erreá, do DoisDeNós, Mano Will e China, ambos integrantes do U.L.O

Durante mais de uma semana, nomes promissores do cenário compartilharam a rotina e trocaram conhecimento. Sem ego envolvido ou views no youtube. Arrisco dizer que a internet só era usada pra manter a trilha sonora do enorme rolê que ocorreu na Casa Verde. Os jundiaienses da SoundFoodGang, que arrisco rotular como nossa OddFuture, tamanho o talento e a sede por inovação dos caras, o jovem Maka, o baiano Oddish, o pessoal da 0800 Crew, BFace e vários outros artistas que por lá passaram, à época do lançamento de “Sulicídio”, provaram com músicas e clipes a mensagem da música de que existe muito ouro fora do eixo sendo preterido por este mesmo motivo.

https://www.youtube.com/watch?v=PeP5U_5Ifhw

O preço de ser vanguardista é, muitas vezes, a falta de reconhecimento, mas o esforço de todos que trabalharam para que o festival acontecesse será, com certeza, lembrado por todos que dele participaram. Após minha breve passagem por Curitiba, voltei para Goiânia com muitos aprendizados, empolgado pra caralho e com o coração aquecido por saber que existe gente que ama o hip-hop tão profundamente a ponto de transformar estranhos de estados diferentes em bons amigos que trampam juntos. Ficou no peito também a saudade e a certeza de que meu padrão para eventos seria altíssimo depois deste festival. 7 meses depois e nada o superou ainda. Como dizem por aí, é o rap!

p.s.: continuo achando um tremendo vacilo tentar descrever em palavras uma parada que me tocou tão profundamente, mas a supracitada tentativa está aí pra todos lerem.