RND ENTREVISTA: WELL SOBRE O EP SPARRING

Nesta terça-feira (08) Well lança seu novo trabalho, “Sparring”, com três faixas e um interlúdio. Tivemos uma conversa com ele sobre esse EP: dissecando mais sobre as escolhas criativas e mostrando que o vulgo “Designer de Flows” continua atual, com o artista indo do Garage ao Boombap, passando por um Drill.

Este novo EP foi produzido na quarentena e aborda como isso está presente, junto com seu teor crítico e suas rimas ácidas.

Confira mais sobre a conversa que tivemos com o MC:

RND: Quais foram suas inspirações e como elas estão presentes nesse EP? 

Well: Minha maior inspiração é o meu próprio corre, minha própria vida. A gente buscou uns conceitos antes da gente começar e tal, e foi pensar como a gente vai representar essas coisas, então a gente começou a buscar conceitos que tinham a ver com o que meu trampo representa. Que é tipo assim é sobre a luta mesmo, luta diária, de fazer a parada acontecer, são muitos desafios que não só eu mas vários outros artistas independentes.

E o conceito de “Sparring” a gente tirou disso, que em uma linha geral, é como um treino, só com as regras oficiais de torneio. Não é a luta ainda, mas você luta do mesmo jeito. Esse significa isso, me dediquei tanto quanto se fosse um álbum, corri atrás como se fosse um álbum, tá ligado, a gente joga com as mesmas regras, porém ainda não é o álbum, é só o treino.

RND: Como foi seu processo criativo? E como o mundo ao seu redor está presente, o design aparece nesse Ep? E de que forma?

Well: O design permeia todo esse processo, porque antes eu não tinha essa visão geral assim, eu fui o diretor de arte desse trampo, aí eu tive outros braços assim pra conseguir toda a estética e conceito. Então eu acho que o design está presente desde o começo, desde quando a gente parou e pensou no processo, até conseguir fazer a capa.

Por conta da pandemia a gente teve muita limitação, mas isso já era esperado, o design também ajudou a contribuir nesse processo tá ligado, e o conceito de design está presente em todo EP. É o Sparring, a luta, então a gente pensou em 2 caminhos pra seguir, a gente pensou em como aplicar o conceito, já tinha a parte escrita e tava em duvida em como transmitir pro visual, então foram escolhas entre ser muito literal, que é o mais convencional, mas tivemos a escolha de lateralizar as coisas.

Vamos fazer uma abstração das coisas, qual é a minha luta? Eu não sou um boxeador sabe, a minha luta é diferente sabe, minha luta é na rima, em outro trampo, é o corre pra conseguir gravar no meio de uma pandemia de forma segura, essa é a minha luta. Daí que surgiu a capa, que são imagens sequenciais e embaçadas, e essa escolha foi pra transmitir essa sensação de estar sempre em movimento, essa é a nossa luta.

Outra escolha bem importante foram as tipografias, já que a principal é muito robusta, chique, muito bonita enquanto a tipografia secundária é toda zuada, escrita a mão, rabiscada. O que também quer dizer que essas tipografias tão brigando entre si, são essas pequenas escolhas que a gente faz e que a gente coloca esses processos de design dentro do corre. Hoje ser graduado em design me faz ter essa visão, do porque a gente tá escolhendo isso, não é aleatório, não é por ser bonito, é por sentido junto ao todo em relação à obra. 

RND: Como foi a produção do EP em meio a quarentena? 

Well: Às vezes eu me sinto solitário, um artista solitário, que fica aqui igual um idiota tentando propor soluções para contornar a pandemia e continuar fazendo arte. Esse é meu primeiro desabafo, mas esse foi um processo que a gente se preocupou muito e pensou em todos os aspectos disso, se a gente for fazer um clipe tem que mobilizar gente, mas eu não quero por quem corre comigo em risco, não quero ser o artista que provoca uma aglomeração e fingir que nada tá acontecendo. É o contrário, eu quero buscar formas de fazer o trampo funcionar sem ter que por ninguém em risco. E foi isso que aconteceu, fizemos tudo online. Pegamos os beats, as vozes eu já tinha, fizemos a mixagem online, a gente utilizou o Discord, o Ableton Live e Audiomovers. A gente usou essas ferramentas para mixar o EP todo, com várias e várias revisões, fazer ajustes. Aí surge outro problema, a parte visual e eu não queria fazer ilustração, pela forma que limita, pois você fica sem foto pra divulgar, sem material pra trabalhar. Aí tivemos que fazer presencial, com todos os cuidados necessários, máscara, álcool em gel, distanciamento.

Mobilizamos a Camila Alda que tava no projeto, e a Fexa Criativa, e a gente fez as fotos e os materiais de divulgação, todos foram feitos em um dia. Mas pra fazer essas paradas a gente precisava de algo que gerasse impacto visual, e como a gente ia fazer isso? Aí entrou o George que além de produzir beats, ele é a mão invisível do projeto, participou de tudo, visual, mix, mídia. E ele tinha esse conhecimento de como fazer os vídeos no GTA, foi uma ideia super nova pro Brasil, de realizar todo o clipe em machinima. Aí entrou o Neto que é especialista em Rockstar Editor, e a gente voltou pro Discord e ficamos montando a ambientação do clipe, cenário, personagens. O clipe mais seguro foi gravado em tempo de quarentena, e a gente pegou o resultado e deu muito certo. 

RND: E a escolha de variar os estilos, não ficando só no Grime dessa vez, como foi essa escolha para transitar entre 3 estilos tão diferentes como o Drill, o Garage e o Boom Bap. Está  explorando sua musicalidade como artista?

Well: A variação foi justamente pra tentar fugir da minha bolha, da minha própria cabeça e conseguir experimentar outras coisas. Eu fico ate meio pá porque eu escuto muito grime, é o tipo de música que eu mais gosto, que eu mais escuto, é a parada que me mexe. Mas se for parar pra pensar eu tenho poucos grimes, tipo grime mesmo pá. Eu não sabia que era hora de me reinventar já. E a resposta foi sim. E eu mantenho as influências do garage, que antecede o grime, a gente ainda tá com um pé ali, por mais que não seja um Skepta type beat, é uma parada que tem um pezinho ali, mas não é. O drill também, mesmo sendo uma referência que veio depois, e também por momento, é o momento do drill eu vi isso e falei que tenho que fazer um. E o boombap foi justamente uma loucura da minha cabeça, de querer fazer porque eu acredito que o boombap, por mais que eu odeio admitir isso, o boombap é o lugar pro ce cuspir barras, tá ligado os 80bpm ali é fogo, no 140 da pra fazer mas não tem como a rima no boombap bate de outro jeito. Essa faixa que tá no boombap, ela é uma faixa que eu preciso que vocês escutem isso, eu preciso desabafar, e é por isso que é no boombap, vou meter o louco. Essa mistura aí desses estilos, eles não se conectam tão direto assim, mas faz um sentido dentro do que eu me proponho. 

RND: Em relação às parcerias, que além de serem novas em sua maioria (tirando o Mirral) são bem diversas, o que elas contribuem para o EP? E o fato de nem todas serem de BH como você, as referências regionais delas agregaram e estão presentes no EP?

Well: Eu assumi meio que o controle criativo, mas deixei cada um assumir da sua forma, então o beat do Enigma que foi o beat que veio, ele fez e falou: é isso. O George é um cara que já tinha aparecido em outras cenas, como a do indie, mas ainda não tinha recebido abertura dentro do rap, que é o foco dele. O primeiro contato que tive como som dele foi ouvindo o beat da pprt, que é a última música do EP. O segundo foi o de fml, tá ligado? Ele absorveu muito bem a ideia e imprimiu a visão dele na parada.. O segundo foi o de fml tá ligado. Ele absorveu muito bem a ideia e imprimiu a visão dele na parada. O Bakkari acrescentou muito no refrão, é o feedback que eu mais recebo, gente falando do refrão, e reclamando que não para de cantar, beleza por mim isso é ótimo. E o Mirral também, a gente sempre troca figurinha de música, e ele é o artista que eu mais gostaria de ver prosperando, um cara que eu torço de corpo e alma. Torço por todos que estão no projeto, e que são meus amigos e não tão no projeto. Mas o Mirral é o cara que tá no top 1, além de tudo é um grande amigo. É uma galera que tá ao meu redor e sinto orgulho demais, são pessoas que eu quero que façam parte. 

RND: E sua parceria com o George Lucas Type Beat, ele está na maioria das faixas, qual o peso dele pro projeto? 

Well: Foi meu braço direito, foi um cara que abraçou o projeto, assim também como quem tá mais as sombras como a Gabi, que também viveu intensamente o projeto. Foi uma galera que me encontrei, quem tá vivendo essa parada junto comigo. É uma equipe que contribui muito para esse corre, to bem confiante neles, e eles vão estar comigo na grande luta. 

RND: A estética do EP veio bem diferente do que você normalmente traz, ela marca uma nova era do Well que conhecemos?

Well: Marca uma nova era, mas não é um Well diferente, é como se fosse uma skin nova, eu acho que sou o mesmo, mas a gente vai mudando com o tempo, talvez eu não perceba isso. Mas visualmente e musicalmente falando, eu vejo que evolui bastante, em questão de trabalho em equipe eu vi que evolui bastante. E é uma parada que vai vir pra balançar, sem deixar a dever pra trampo nenhum. 

RND: Sobre o nome das músicas, que são palavras abreviadas ou siglas: ntj; fml; tlg?; pprt, por que essas escolhas?

Well: Justamente pra brincar com o momento atual, a gente vê muito isso no Twitter. Cada música representa esse sentimento, fml quer dizer família mesmo, po chamei os manos que eu me identifico, quem tá comigo, conheço o Bakkari de longa data, quando cheguei no grime era tudo mato, e o Bakkari capinando. fml vem disso mas não queria escrever família, ou buscar uma desculpa pra manter isso, queria manter uma unidade. E pensei nisso, não ia ter jeito fraga, tlg é tá ligado? Fraga? É manter o padrão e não sair do conceito. A intenção é ser curta e com sigla para ser rápida a associação. Usando essa linguagem pra conseguir passar essa mensagem, e também não ser literal demais. 

RND: Onde você quer chegar com esse EP? Sendo seu primeiro projeto “maior” desde Gênese, quase 5 anos depois.

Well: Pra ser bem sincero, o ponto de lançamento foi até onde eu pensei tá ligado, o resto é o que vier pra mim eu já estou bem satisfeito. Não dá pra ficar almejando, almejando que vai mudar minha vida, que vou ser ouvido em todos os lugares, que vou ganhar tal prêmio. Porque pensar assim, se o que dá um passo atrás, e vai se frustrar. Ir sem expectativa pra curtir o momento eu colho os frutos do meu trabalho. Meu objetivo é zero expectativas, mas fica uma marca ali que mostra que isso aconteceu. Um exemplo é com fml e em como o garage tá começando a formar uma cena no Brasil. Quero propor algo novo, instigar as pessoas a fazer algo novo.

Essa foi a nossa conversa sobre o EP SPARRING, que você encontra nas principais plataformas de streaming, junto com o clipe de fml que conta com a participação de Bakkari, Mirral ONE e George Lucas Type Beat.

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