Rap de direita conservadora, faz sentido?

Estamos em tempos difíceis politicamente falando. Cada discussão ideológica acirra ainda mais a eterna guerra entre esquerda x direita. Um lado acusa o outro de corrupção, violência, fascismo, entre outras coisas. E não é que essa treta chegou no Rap?

Recentemente um novo “MC” lançou um álbum intitulado “Rap de Direita“. O conteúdo? Dedicatórias a polícia, Bolsonaro, a pátria amada, Olavo de Carvalho, pregando o anti-feminismo e criticando até a Lei Rouanet (segundo os direitistas “coisas da esquerda”).

Bom, difícil saber por onde começar para citar as incoerências. Sei que o Rap está em alta e atingiu várias camadas da sociedade. O Rap cada vez mais deixa de ser marginalizado como era antigamente. Os temas mudaram em relação ao seu início, o que causou uma certa liberdade para que outros assuntos fossem abordados. Muito deles não fazem minha cabeça, como a inserção repetitiva de letras tratando como positivo o uso de drogas, da objetificação da mulher e a perda significativa do elo entre o Rap e a cultura Hip Hop. Normal se formos comparar a cena do Rap estadunidense, que queira ou não é sempre a nossa referência.

Deixemos de lado esse ponto da discussão e vamos partir para o principal: já que alguns estão colando no Rap com ideologia de direita conservadora, o Rap sempre foi de esquerda?

Vejamos bem, os “direitistas” taxam como “coisa de esquerda” temas como: o combate a desigualdade social e racial, luta contra o racismo, a conscientização acerca do feminismo, a causa LGBT, e até a Lei Rouanet (pasmem!). Apenas uma pergunta que faço a esses que estão chegando agora no rap com esses pensamentos: Você sabe aonde, quando e porque o Rap e a cultura Hip Hop surgiram? Difícil acreditar que saibam ou se tem conhecimento, como querem pregar que cansaram dos “mcs de esquerda”?!

Então para eles o Rap não deveria falar da reintegração social de presos, da fuga da vida do crime, do cotidiano violento da periferia, dos abusos da polícia, da valorização da mulher, da desigualdade racial nem do racismo?

Isso é necessariamente ser se esquerda ou simplesmente seguir o que uma cultura prega?

O Hip Hop nasceu e cresceu nas periferias e bairros pobres, dando voz a milhares de homens e mulheres que queriam expôr a sua realidade, as suas críticas, os seus sonhos e anseios baseados na vida sofrida e cheia de adversidades que os mais abastados nunca chegaram perto de vivenciar.

Em tempos de guerra politica e perda da ideologia do Hip Hop, no meu ponto de vista, é extremamente perigosa a tentativa de corromper todo um histórico de décadas de luta com valores totalmente contrários da cultura. E se esse discurso ganha espaço? E se ao invés da voz do oprimido, o Rap tornar-se a voz do opressor?

O Hip Hop continuaria salvando vidas como sempre fez? Boa parte dos seguidores de políticos conservadores aplica o velho discurso de que “bandido bom é bandido morto”. Eles tem noção de que uma das principais virtudes da cultura sempre foi o de regenerar pessoas que cometeram crimes? Assim como o esporte, a música tem o poder de mudar vidas e pensamentos e já salvou muitas pessoas da vida criminosa.

Essa tentativa de contradizer o nosso tão amado movimento Hip Hop é a prova de que a “apropriação cultural” existe sim. Querer transformar a voz do oprimido na voz do opressor é grave para um estilo que sempre buscou a igualdade social e expôs as diversas atrocidades e preconceitos da sociedade em que vivemos.

O que notei em comentários que elogiam esse “rapper” é que sem dúvida não tem a menor noção e conhecimento algum de Rap. Colocam a desculpa de que finalmente existe “um rapper decente” e por isso nunca escutaram outro MC. Leiam esses comentários: “A esquerda dominou totalmente a cultura, e tá na hora da direita ter sua vez!”, “Logo eu que não gostava de rap, tô ouvindo esse várias vezes”. Totalmente ultrajante ler argumentos como esses. O que querem? Recriar o movimento Hip Hop? Sequer gostam ou entendem de Rap.

A cultura que perdeu no meu ver parte de sua ideologia e passou a aceitar muita coisa sem qualidade e conteúdo, vai aceitar essa afronta aos seus próprios valores? Vale uma reflexão. Hip Hop é muito mais que rimas e roupas. É modo de vida que dá voz aos oprimidos, é esperança de mudança através de um microfone, de uma pick up, de passos de Break Dance ou de uma lata de spray. Eles literalmente não entendem nada disso. Senão suportam a ideia de escutar quem prega igualdade, nunca entenderão a nossa cultura. Voltem para o que faziam até descobrir que poderiam esbravejar os ideais de vocês com rimas. Mas por favor, não confundam rimas com Rap. Rap está acima disso. É cultura, é mensagem dos excluídos, é a voz de Bambaata, Grand Master Flash, Kool Herc, Tupac, Big, Public Enemy, Nas, Racionais, Rzo, Sabotage, SP Funk, Emicida, Facção, DMN. Isso é Rap e isso vocês não são. Música de origem de lugares e pessoas que vocês detestam, evitam e tratam com desdém. Pessoas que vocês não tem a capacidade de sentar para escutá-las com suas verdades e suas vivências, pois para vocês é puro “mimimi”. Pessoas que sofrem na mão dos heróis de vocês chamados policiais.

Rap é rua e rua vocês nunca serão!

Banha meu símbolo, guarda meu manto que eu vou subir como rei
Cês vive da minha cicatriz, eu tô pra ver sangrar o que eu sangrei
Com a mente a milhão, livre como Kunta Kinte, eu vou ser o que eu quiser
Tá pra nascer playboy pra entender o que foi ter as corrente no pé
Falsos quanto Kleber Aran, os vazio abraça
La Revolução tucana, hip-hop reaça
Doce na boca, lança perfume na mão, manda o mundo se foder
São os nóia da Faria Lima, jão, é a Cracolândia Blasé
Jesus de polo listrada, no corre, corte degradê
Descola o poster do 2pac, que cês nunca vão ser
Original favela, Golden Era, rua no mic
Hoje os boy paga de ‘drão, ontem nóis tomava seus Nike
Os vira lata de vila, e os pitbull de portão
Muzzike, o filho de faxineira, eu passo o rodo nesses cuzão
Ando com a morte no bolso, espinhos no meu coração
As hiena tão rindo de quê, se o rei da savana é o leão?”