Projeto Sonhadoras apresenta: ‘O tombo é certo’ de MC Tainá e ‘Mina favelada’ de MC Jayne

Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, é nacionalmente reconhecida por sua cena cultural fortemente baseada na ancestralidade herdada de África. Musicalmente se destacam o Samba de Roda – muito bem representado pela figura de Dona Dalva –  e o Reggae que lançou no cenário nacional grandes referências, como Sine Calmon e Edson Gomes, dentre outros artistas.

Há algum tempo, porém, um novo movimento cultural vem se consolidando e movimentando a cidade. A Cultura Hip-Hop emergiu dos becos e vielas de Cachoeira para reivindicar o seu espaço e, desde então, tem conquistado o seu público e revelado muitos talentos em potencial.  É nesse cenário que surge “Az Piveta das Área”. A dupla que é composta pelas MCs Jayne e Tainá, iniciou os trabalhos em 2016, se apresentando em eventos como o Baile Pelo Certo e a Parada LGBT de Cachoeira.

Mc Tainá e MC Jayne. Foto: Débora Melo.

Não demorou muito para que as meninas chamassem à atenção do público, através de suas rimas sagazes baseadas em suas vivências enquanto mulheres negras da periferia. Foi em uma das apresentações que aconteceu o encontro entre a dupla e as jornalistas Débora Melo e Fran Ribeiro e nasceu a ideia de produzir clipes individuais das MCs. Alguns meses depois se iniciava o Projeto Sonhadoras, pautado numa perspectiva de comunicação popular, como explica Fran Ribeiro:

– A gente teve a ideia de colocar em prática os nossos saberes, junto com os saberes delas pra poder lançar esse projeto e não só pensando a produção exclusiva das MCs, mas pensando que a partir delas a gente vai poder ter o contato com outros jovens que estão produzindo e que não tenham acesso a essa produção individual de se projetar mesmo, né? De criar site, criar páginas no Facebook, perfis em redes sociais e trocar a ideia mesmo sobre como é que eles podem ser os seus próprios agentes de comunicação. É uma troca autônoma de autopromoção.

Equipe do Projeto Sonhadoras. Foto: Débora Melo.

A equipe do projeto conta com cerca de dez pessoas atuando diretamente – incluindo familiares das MCs -, além de apoiadores indiretos que tem colaborado para a realização dos clipes “O tombo é certo” de MC Tainá e “Mina Favelada” de MC Jayne. Se liga na ideia das MCs:

Em entrevista, MC Jayne conta um pouco sobre a sua trajetória no Rap, referências musicais e planos para o futuro. Confira:

Quando e como você começou a rimar?

Eu comecei rimar em 2008 quando eu tinha 12 anos, através grupo de dança que eu fazia parte, o GAMGE, que é o Grupo de Apoio ao Menor Gotas de Esperança e por incentivo dos amigos da dança e meu professor Samir. Eu também escutava DVDs de hip-hop em casa, porque na época eu não tinha muito acesso às redes sociais e ao Youtube. Alguns cantores me incentivaram e através do som desses ídolos eu comecei a me reconhecer como MC, a ser uma MC, na verdade. Com o passar do tempo, por esses incentivos, eu comecei a escrever músicas falando sobre minha família, com os meus irmãos. Eu ficava no quintal com eles, eles batucavam no balde e eu cantava.

Desde 2016 você e MC Tainá formam a dupla Az Piveta das Áreas. Como surgiu essa parceria?

Na verdade, a gente se conhece desde pequenininhas que a gente estudou juntas no “Padre Roque” (escola), a gente tinha uns 3 ou 4 anos. Depois fomos estudar no “Edvaldo” (escola) já mais crescidas e de lá ela teve a vida dela. Ela foi pra um caminho eu eu fui pra outro. A gente se afastou um pouco, mas depois nos encontramos novamente no projeto do Cine do Povo, na praça onde teve uma apresentação com vários MCs. Lá a gente fez uma música chamada “Az Piveta das Área – parte I”, eu ela e Fred Aganju (Us Pior da Turma). Depois dessa música Fred sugeriu que a gente criasse uma dupla e sugeriu que o nome fosse Az Piveta das Área porque foi o nome da primeira música da gente. A gente gostou e aderiu o nome, também porque a gente é das área e a gente é piveta e tamo aí até hoje.

Qual é a principal mensagem que a sua música tem pra passar?

A gente geralmente relata muito sobre as vivências, sobre o dia a dia. Eu mesma nas minhas músicas relato o que eu tô vivendo, o que eu tô vendo. Eu moro em bairro pobre, em favela e costumo muito falar sobre o que eu passo, o que eu vejo, sobre a realidade da vida, né? Eu acho de suma importância relatar essas coisas porque tem muita gente que não é reconhecida na comunidade e eu preciso estar falando sobre essas coisas pra ajudar essas pessoas. Me parte o coração ver uma pessoa necessitada sem uma ajuda. A gente como pobre, negro e que mora em favela é mal visto, principalmente a gente que tá na caminhada do Rap. Eu pretendo trazer coisas boas com o meu som, pra galera parar pra ouvir, pensar, refletir que Rap não é bandidagem e que tem gente que precisa do nosso apoio. Então sempre eu tô relatando essas coisas no meu som, sobre a realidade da vida.

Quais são as suas principais referências musicais?

Um artista que eu amo de coração é MV Bill, ele me inspira demais. Doas americanos eu gosto de 50Cent, Beyoncé, Rihanna. As MCs que eu gosto são Sara Donato, Flora Matos, Kmila CDD, Clara Lima, Sweet. São várias MCs, porque sendo mulher, pra mim já é tudo, já tá massa! Racionais também, eu amo Racionais.

O que o Rap representa na sua vida?

O Rap pra mim é tudo. Através dele, muita coisa na minha vida mudou. Foi uma das coisas que me salvou quando eu passava por um sofrimento. Eu escrevendo de madrugada e aí a inspiração veio e tocou no meu coração e falou “é hoje, é a hora de você se libertar!” e eu me libertei através do Rap. Rap é revolução, é a realidade dos irmãos, o que as pessoas passam, é uma forma de salvar as pessoas. E através do Rap eu aprendi muita coisa, eu me descobri no Rap, na verdade. Porque antes eu era meio menininha, não tinha muito contato com as coisas que hoje eu tenho. Eu aprendi várias coisas e ainda tô aprendendo. Quando tem alguma coisa que me machuca e me deixa triste, eu paro pra escrever e já fico mais aliviada, mais tranquila,  porque escrevendo Rap eu sou outra pessoa. Eu costumo dizer pra todo mundo que o Rap me transformou. Só saio do Rap quando eu morrer, porque ele tá me levantando, tá me fazendo caminhar, me fazendo chegar aonde eu quero chegar e eu não desisto nunca, quero alcançar meus objetivos através da Cultura Hip-Hop. Eu amo o Rap e sou muito feliz por fazer parte disso.

Como é pra você, enquanto mulher negra, ocupar esse espaço na cena do Rap que ainda é majoritariamente masculina?

Pra mim é gratificante porque são poucas minas na cena e eu estar sendo uma das minas na cena do Rap é muito foda porque aqui em Cachoeira tem poucas MCs. Me sinto feliz em ser a MC aqui de Cachoeira que tá movimentando, que tá fazendo a parada acontecer. Fico feliz que a galera gosta do meu som e isso me incentiva mais e mais a escrever e fazer parte do movimento. Me sinto empoderada em tá fazendo o que eu gosto, tá escrevendo, passando informação pra galera. Mesmo sendo uma das poucas meninas da cena, eu procuro empoderar as mulheres que estão no movimento e também as que não estão. Eu procuro sempre incentivar pra tá junto comigo fortalecendo a cena das mulheres no Rap. Eu digo pra todas que não desisto nunca e peço para as que já estão na cena e as que estão pensando em começar também não desistam porque a gente tem que se empoderar, tem que se juntar, tem que fortalecer o movimento. Temos que caminhar juntas, né? Crítica a gente vai ouvir sempre porque a galera tá acostumada a ver só homens na cena, quando vêem uma mulher sempre tem alguém pra falar que é isso, que é aquilo, é “machona”, “sapatona”. Mas pra isso a gente não tem que dar ouvido, a gente tem que levantar nossa cabeça e seguir em frente porque a gente tem capacidade de chegar até onde quiser. É isso mesmo, é isso aí!

Quais são os planos de MC Jaynne para o futuro?

Eu quero viajar pra vários lugares fazendo show. Quero ter a minha casa e estar feliz com a minha família. Quero criar minha filha, quero… Ai meu Deus, eu quero tanta coisa que se eu for falar aqui vai… (risos). Mas eu pretendo fazer vários shows em várias cidades, incentivar as meninas não só aqui em Cachoeira mas em qualquer lugar que eu puder chegar. Onde eu puder ir, eu quero sempre tá compartilhando as minhas coisas e as minhas atividades com a galera, principalmente com as mulheres. Quero mostrar que nós mulheres temos capacidade de fazer o que queremos! Pretendo fazer o Baile das Divas no mês de março que é o mês do meu aniversário e do aniversário da cidade (Cachoeira). Quero trazer as MCs de fora (da cidade), Djs e quero só mulheres. Eu tô acostumada a cantar nos bailes aqui em Cachoeira e nunca teve um evento só de mulheres. Eu tô pretendendo fazer um baile só de mulheres pra gente se reunir, se reconhecer uma na outra, bater um papo. E dessa vez, os homens vão ficar pra trás, infelizmente eu não vou poder fazer nada, né bi? Eles vão assistir, mas agora é nossa vez!. (risos)… Beijos da Diva!