A coisa tá ficando preta! Rincon Sapiência lança seu primeiro álbum, ‘Galanga Livre’

Com uma mão no bolso, outra segurando uma breja gelada, gingado leve e sorriso de canto da boca, Rincon curtia o som de Rincon Sapiência na exibição de seu primeiro álbum, “Galanga Livre“, que aconteceu na noite de ontem (24) na capital Paulista — horas antes do disco ser lançado oficialmente.

Galanga? Também me perguntei e fui atrás do significado com muito afinco… pelo google. “Chico Rei, nascido no Reino do Congo, chamava-se originalmente Galanga. Segundo a tradição mineira, Chico era o rei de uma tribo no reino do Congo, trazido como escravo para o Brasil. Conseguiu comprar sua alforria e de outros conterrâneos com seu trabalho e tornou-se ‘rei’ em Ouro Preto“.

Mas voltando… Era ele, depois de tantos anos de trabalho — 17, mais especificamente — lançando seu primeiro CD, recheado de personalidade, ritmos, letras de mensagem, músicas de protesto, love songs, e, como já dizia Racionais, rimas repletas não de gírias, mas dialetos.

Muitas pessoas são envolvidas no projeto né, então obrigado pela presença de todos aí, é meu primeiro álbum, meu primeiro trabalho” introduziu Rincon, assim que aumentou o volume de convidados. Finalizado seu breve discurso, olhou para um lado, para o outro, viu-se no centro da roda e apressado, comentou rindo: “agora vou sair aqui do meio né“. Misturou-se rapidamente com os que vieram prestigiar seu mais novo trabalho.

O emecee da zona leste de São Paulo aborda ao longo de suas 13 faixas oficiais — a primeira é uma introdução de 25 segundos, aliás, se isso for spoiler me perdoe — temas fortes e sérios: racismo, preconceito, machismo, a questão do estupro, do medo em comum entre os brasileiros, sobre as dificuldades que esburacam a vida de muitos deles — e delas. Encaixado com esses assuntos narrados em rimas, os beats feitos 90% pelo próprio manicongo (certo?) misturam estilos musicais que mergulham nas praias do blues, da ciranda, da capoeira, da tropicália, do rock’n roll (acredite se quiser!) e dos outros gêneros musicais que autorizam melodicamente que esses sons sejam sampleados. Invenção de moda?

Dentro — e agora fora — da Boia Fria Produções, Rincon chama essa nova vertente de afrorap. “O afrorap seria um dos modelos brasileiros de se fazer rap. Esteticamente pode ser muito diferente — ou não — do rap tradicional, mas o grande detalhe é que ele tem como estrutura a música afro, que pode ser o samba, a ciranda, o marakatu, o carimbó, ou pode ser algo do próprio continente africano… Então essa música que se baseia em percussão, na rítmica, eu defino afrorap“, explicou.

Aproveitando pra falar sobre a quarta-feira de ventos gelados e vielas abafadas na capital, o mestre sala comentou: “essa noite é bem especial porque a gente tem uma história muito extensa até tá selando esse primeiro disco“. Ele ainda contou que, além do prestígio de ver reunidas todas as pessoas desde anos até seu momento contemporâneo, a nostalgia de ver velhos amigos também contribuiu pra emoção.

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Sentada ao lado da caixa de som, pude não só ouvir as músicas, como senti-las vibrando em ondas sonoras. Batuques, bateria, guitarra, flauta. Manas convidadas — ou damas, como Sapiência gosta de dizer — não conseguiam ficar paradas. Manos próximos à mesa de som cantarolavam trechos das músicas, fazendo scratches no ar nas viradas já decoradas de tanto ouvi-las durante a produção. Outros, em grupo, comentavam uns com os outros entusiasmados pelo evento tão esperado. Estava acontecendo.

Gostei. Por mim foi aprovadíssimo. Digo isso, não porque sei que ele ou a equipe dele pode ser que leiam esse texto, mas porque reconheci no conjunto da obra que há sinceridade tamanha, que permite que o rapper de 31 anos faça um álbum maturidade musical tão presente. Uaaaah, diria ele.

Essas 13 faixas me fizeram crer que Rincon é sim um emecee acima da média. E descobri porque que ele tem propriedade em dizer que, se dependesse dele, a cultura do mestre de cerimônia nunca iria acabar… Nos tempos de moleque, aos 15 anos, Rincon assistiu o rap brasileiro sair do ninho pelas calçadas de São Paulo. Aí fica claro. Sua música transborda sinceridade porque ele viu com os próprios olhos o que hoje chamamos de origem ou raízes do rap. É mole?

Sequestrei Rincon alguns minutos dos abraços longos e fotos rápidas com a galera, e o levei para o primeiro ambiente da Patuá Discos, loja temática localizada na Vila Madalena, local onde aconteceu o lançamento na noite do dia 24. Com bonezinho fazendo sombra nos olhos avermelhados pelo ponteiro do relógio, conversamos entre uma ou duas interrupções. “O que essa noite representa na sua carreira?“, perguntei. “Tem a parte da arte, e a arte onde a gente evolui como artista no dia-a-dia, é um caminho que vejo a se evoluir ainda daqui pra frente“.

Como esperado, Rincon comentou que seu planos “são os maiores possíveis” tentando não se deixar influenciar pela rapidez que as informações estão circulando hoje em dia, mas ao mesmo tempo sem pensar duas vezes em um possível curto intervalo de tempo entre um projeto e outro. Aliás, seu álbum já está disponível nas principais plataformas e estará à venda nas livrarias no dia 15 de junho.

Resumindo, se isso é que é “Galanga Livre”, que libertemos já!