O Rap gaúcho chuta a porta!

Sessenta e seis vezes. Esse é o número de edições seguidas da Batalha do Mercado, evento de rua mais tradicional do Hip-Hop gaúcho. Ponto de encontro de várias gerações, a Batalha, que acontece no centro de Porto Alegre, foi o carro chefe do crescimento avassalador do Rap gaúcho nos últimos três anos.

Enquanto outras regiões fora do eixo Rio/SP puderam marcar seu espaço no último ano, o Rap gaúcho passou por um período de fomento e profissionalização. Multiplicaram-se os eventos, os estúdios, o público, as festas e os próprios MC’s. A fase de correria e amadurecimento agora dá lugar a uma nova etapa: O Rap gaúcho nunca esteve tão bem. É um fato consumado que a escola de Rap do RS está chegando com os dois pés na porta em termos de projeção nacional.

Separei alguns indícios que comprovam essa minha afirmação para vocês analisarem comigo:

#1: O RS é um dos maiores polos nacionais de Batalhas de Rap:

Batalha do Mercado em Porto Alegre.

A cena de Batalhas do RS é uma das mais avançadas do país. Já na sua segunda geração de MCs, as Batalhas firmam o encontro de uma diversidade enorme de apreciadores, formando um público muito fiel. Com uma cena totalmente independente, as Batalhas já “nacionalizaram” alguns MCs gaúchos, sendo que a molecada que está chegando é tão boa quanto. Por aqui, as Batalhas são uma sensação entre os adolescentes nas escolas e viraram até atração de TV em horário nobre (!!!), além de  estarem espalhadas por todas as regiões do estado, movimentando grandes marcas e patrocínios.

#2: Grande avanço em termos de audiovisual:

Que o RS é um grande polo de cinema, todo mundo sabe. A novidade, no entanto, é o crescimento do nicho de videoclipes e em especial de videoclipes de Rap. O salto qualitativo passa por nomes como Hálex Marinho, hoje um dos maiores do país em termos de filmes e clipes de Rap (Cacife Clandestino, Costa Gold, Sain e etc) e outros manos que estão chegando, como Artur Tuts, Pig e Vinicius Action.

3#: Eventos e público cada vez mais expansivo:

Todos os meses, grandes artistas do Rap nacional lotam as casas de show do RS. O mercado de Rap no RS é um dos mais promissores do país, mas está passando por um processo de “colonização” por parte dos artistas de fora. Agora que as casas e os produtores começam a dar um olhar mais especial para os artistas locais, que estão cativando um público cada vez maior. Esse, aliás, tem sido uma das grande dificuldades nesse processo de profissionalização: o RS importa muitos artistas de Rap e exporta poucos.
Longe de ser uma questão de “talento”, essa questão passa por um amadurecimento do mercado e do público local, investidores e pessoas de visão que preencham os espaços necessários para criar essas condições, o que na realidade é só questão de tempo (assim como foi com o salto qualitativo no audiovisual e nas produções).

4#: Estúdios e Beatmakers:

Multiplicaram-se os estúdios gaúchos focados em produção de Rap. SaunesPro, Néeô, PrimeirArteGueto Anonimato, Trinca e Plano-D são hoje os principais responsáveis pela profissionalização do que se produz em termos de Rap no Rio Grande do Sul. Graças ao trabalho de caras como Pig, Rafael Singh, Bertoi, Ibrahits e Jay Gueto, grandes artistas puderam materializar suas obras. Além disso, com o advento da internet e das redes sociais, ficou muito viável produzir beats e nesse aspecto, os gaúchos também tem formado uma grande escola de beatmakers, com nomes como Djalma Gautama, Ioda, Pig, Tuts, Choco, Zilla Sonoro e tantos outros.

#5: Casa da Cultura Hip-Hop em Esteio:

Casa da cultura Hip-Hop foi destaque na mídia.

A casa da cultura Hip-Hop, na região metropolitana de Porto Alegre, é a maior conquista política do movimento no Rio Grande do Sul e uma das grandes conquistas do Hip-Hop nacional. Marcada como ponto de cultura, com incentivo financeiro através de edital, esse promete ser um grande espaço de fomento do Rap gaúcho nos próximos anos. Com uma perspectiva de espaço público construído pela comunidade, a casa do Hip-Hop de Esteio tem a missão de democratizar e viabilizar todas as práticas relacionadas à cultura. Correria da molecada do grupo Rafuagi, contou com reconhecimento e colaboração de artistas como o próprio Emicida, que apareceu por aqui para dar aquele salve e reconhecimento no projeto.

#6: A exportação de MCs:

Com todo esse circuito em ebulição, a exportação de MCs gaúchos para fora do estado já é uma realidade. Cachola e Zudizilla são dois nomes muito lembrados fora do RS, Zudizilla, inclusive, lançou um FreeVerse pelo RND e Cachola teve uma participação muito merecida na sua passagem pelo RapBox:

O grupo ANX também firmou uma conexão em São Paulo com o Atentado Napalm recentemente, além de uma parceria de longa data com o Lado Sujo da Frequência, coletivo paulista que tem visitado o Rio Grande do Sul para filmar alguns clipes:

Pok Sombra em parceria com Dario, de CWB, apresentou no final do ano passado seu emocionante álbum “Cartão Postal”, assim como a rapaziada do D’lamotta, que também veio com o “Dádiva de vida”, álbum marcado pelo fechamento com a 1Kilo, do Rio de Janeiro.

Crescem os rumores de que o Rap gaúcho está brotando com os dois pés na porta na cena nacional, trazendo todo o aspecto lírico dos MCs gaúchos, representando o legado do Da Guedes e de todas as gerações anteriores.

Na realidade, esse processo é extensão e consequência direta do crescimento do Rap em todo o país. O público se multiplica entre nova e velha geração, rompendo com a questão etária, com a questão racial e de classe. Sempre bom lembrar que o Rap é um eixo dentro da cultura Hip-Hop e que a grande luta hoje, é pela preservação do Hip-Hop como um patrimônio cultural cujo Rap faz parte, e não o contrário. Certamente, não consegui colocar aqui todas as pessoas e artistas que batalham no dia a dia pra manter o Rap gaúcho de pé, mas mando um salve pra todas elas. Tenho certeza que a nossa hora chegou.