O lugar entre o céu e o chão na arte de Zudizilla

Gritar: Evidenciar sua presença; manifestar-se; Dizer em voz alta, de modo a fazer-se ouvir. (Dicionário Michaelis)

Talvez os maiores gritos que você deu na sua vida não foram ouvidos, e com certeza eles foram dados nos momentos mais relevantes e significativos de sua vida. Seja por ter ficado guardado dentro de ti, ou pela força necessária para impor-se estar em falta ou apenas porque algumas vozes nem devem sair de nós mas apenas existirem e cumprirem um papel que vai ser percebido no tempo certo.

Por que estou falando disso ao invés de estar logo falando sobre um rapper que lançou um álbum muito bom e decidi escrever, como sempre faço? Bem, porque o Zudizilla, artista de Pelotas (Rio Grande do Sul), não é apenas mais um MC, ele representa muito mais do simplesmente rimar e fazer parte de uma cultura, e sim, é um dos maiores talentos que a gente pode ter o prazer de presenciar. Zud faz parte de mais um desses “gritos silenciosos” do underground, que ressoam de forma discreta, mas que são impossíveis de não serem percebidos.

Por mais que eu esteja motivado a escrever essa matéria devido ao lançamento de seu novo álbum, “Zulu Volume 1: De Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Precisar Deixar o Chão“, que foi disponibilizado na última sexta-feira (13), há alguns o artista do Sul do país já cria clássicos contemporâneos. Com seu trabalho de 2016, “Faça a Coisa Certa“, já demonstrava o que queria como MC e agora em 2019, ele conseguiu chegar onde deveria estar.

Dentro das diversas imagens, metáforas e analogias que a lírica do MC trazem nesse trabalho, o que fica mais marcado em todo jogo de rimas, é a sobriedade em que todos os assuntos são tratados. Zudizilla, como um homem negro, representante de uma cultura muitas vezes marginalizada e natural da região mais racista do país, sabe exatamente como posicionar-se e está totalmente ciente da importância do espaço que ocupa. O discurso sociopolítico é marcante e contundente como deve ser, e realista e didático como poucos conseguem exibir. A faixa “Erro” é uma aula de sociologia recheado de rimas boas e um exemplo de tudo isso.

Como os gritos, a arte de Zudizilla não limita-se a ficar em um só lugar, e nessa viagem entre céu e chão ela vai nos guiando. Aqui o que interessa de verdade é a “vida real” e o aspecto mais interessante não é a separação entre MC e pessoa, mas na verdade como esses dois lados da moeda coexistem. O “céu” (MC) e o “chão” (vida pessoal), são impossíveis de serem desassociados, pois geram uma influência cíclica e o MC sabe muito bem expor isso. Esse é um dos pontos chaves do conceito do álbum, tanto que logo na primeira faixa, “Intro 11“, o debate é justamente sobre seguir em um caminho de equilíbrio. Tudo isso apesar de ser feito de forma tão marcante e certa, ainda é cercada de uma insegurança natural. Criada pela necessidade de se fazer ser ouvido, de viver e sentir-se invisível, e como a arte serve para buscar uma harmonia entre manter a vida seguindo nos trilhos. São dois lados do ser que muitas vezes são tratados como antagônicos, mas que deveriam conviver e crescerem juntos, e conseguir essa catarse é muito difícil. A faixa “Não Sei Se Me Ouvem” é a demonstração de que não é impossível, e que sempre há uma resposta.

Zulu Volume 1: De Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Precisar Deixar o Chão” é um trabalho sobre manter-se equilibrado, sobre perceber as diferentes formas com que a relevância surge em nossa vida. O poder de mudar, viver e manter-se focado no que importa e faz feliz de verdade. Ouvir o Zudizilla é como dar ouvidos a um ancião muito sábio, que geralmente não é ouvido, mas mesmo assim não desiste de suas palavras pois elas sobem ao céu, enquanto seu dever é agir aqui na terra, no chão.