O hip-hop é antifascista porque o fascismo é anti-hiphop

O hip-hop é desde sua origem uma cultura essencialmente negra e periférica, e por assim ser, sempre fez parte do movimento de resistência do povo contra a opressão.

Trazendo em suas letras através do rap e do grafitti denuncia o sistema que assola o povo trabalhador e, principalmente, o povo preto no mundo. O capitalismo, que utiliza o racismo como as demais opressões como forma de aprofundar ainda mais a exploração.

Fica claro que o discurso fajuto que advém de alguns MC’s, que são minoria, mas existem, de que não devemos falar de política, ser a favor nem da esquerda nem da direita, é um discurso despolitizado e que favorece nosso verdadeiro algoz. É o discurso que eles querem que endossemos.

O rap é político, precisa ter lado. E tem.  

Na época das eleições presidenciais, em 2018, diversos expoentes da cultura rap organizaram um manifesto pela democracia, na ocasião obviamente contra o candidato Jair Bolsonaro. Clique para assistir.

“O hip hop é uma cultura internacionalista de união e resistência popular, artística, cultural e política, que nasceu e se desenvolveu como movimento de combate à violência interna – entre os jovens, negros, mulheres e pobres do mesmo grupo social – e de autoproteção contra a violência estatal promovida pela polícia.”

São essas movimentações que precisamos fazer ganhar força nesse momento, embora na verdade isso precise estar em voga para além de momentos pontuais onde casos de racismo ou manifestações da extrema direita neonazista ganham visibilidade. O outro lado se organiza constantemente, nós também precisamos.

O que o fascismo representa pra cultura?

O fascismo como sendo um instrumento político utilizado pelas grandes elites, “em especial o capital financeiro, para dar sobrevida ao capitalismo” nos direciona a analisar que a nova onda mundial do fascismo se baseia em alguns pilares: o aprofundamento da exploração através da retirada de direitos, reformas e o discurso repressor em relação as minorias políticas de gênero, raça e sexualidade, a censura, a dominação através da repressão, o nacionalismo e o combate a um inimigo maior – o comunismo. Tudo isso apoiado pelos grandes monopólios capitalistas.

Pois bem, no atual governo, assistimos ao desmantelamento do Ministério da cultura que se tornou uma secretaria especial anexada a pasta do turismo, em 2019, ter 4 secretários diferentes, o terceiro deles: Roberto Alvim, dramaturgo subserviente às elites e sem nenhum compromisso com a cultura brasileira, fato que se comprova com a publicação de um vídeo que todos acompanhamos onde praticamente copia um pronunciamento feito por Joseph Goebbels, ministro de propaganda na Alemanha Nazista de Hitler. Embora Bolsonaro seja declaradamente contra toda e qualquer minoria política e faça a manutenção de um governo antipovo que aprofunda desigualdades, o que significa a morte da cultura popular, essa fala de Alvim explicita um projeto específico que pretende aniquilar toda a cultura que não se alinhe aos interesses da burguesia. Em outras palavras: nos censurar.  

O que vimos depois disso, foi a tentativa frustrada de dar a tão aclamada neutralidade à pasta. Regina Duarte, artista conhecida por seu alinhamento a setores do agronegócio assume a secretaria e no meio da pandemia do corona vírus não apresenta nenhuma proposta que vise atenuar a dificuldade pelas quais passam os artistas de rua, os poetas que trabalham nos transportes públicos e segue sendo uma marionete dos interesses da burguesia representados pelo governo Bolsonaro, exaltando a ditadura militar de 1964 e reforçando o discurso do qual precisamos fugir: “o pessoal de cultura não tem partido, cultura tá acima dos partidos, das ideologias”. Sabemos que isso também é mentira.

Isso se evidencia, ainda, na atual presidência da Fundação Cultural Palmares, instituição ligada a secretaria, por Sérgio Camargo, outro membro do governo que contrariando toda a história de luta do povo brasileiro, exalta a Princesa Isabel e rechaça Zumbi dos Palmares, grande e verdadeiro herói do povo preto desse país.

Qual o papel do hip-hop diante disso tudo?

Ao longo de muitos anos vimos as rodas culturais serem reprimidas e diversos artistas serem censurados e presos ao se colocarem contra a violência policial. Desde 2018, por exemplo, o organizador da Roda Cultural da Central, o rapper Rodrigo GTA, está preso injustamente por desacato à autoridade, segundo policiais. A perseguição contra esses artistas acontece justamente por fazerem parte das camadas sociais mais pobres e pelo fato de sua arte naturalmente atacar diretamente as elites do país. Além desse exemplo tão próximo de nós, sabemos de diversos outros como a prisão de Emicida, em 2008, quando repudia a ação violenta da PM no despejo das famílias da Ocupação Eliana Silva, em Minas Gerais; a invasão da Polícia Militar no show de BNegão por ele ter dito durante o show que dias antes a própria PM agrediu dois produtores.

Essa “arte de resistência ocupa um espaço negligenciado pelo poder público […] não só com repressão policial, mas com falta de acesso ao saneamento básico, a cidade e ao lazer. O rap cumpre esse papel não só de denúncia, mas também proposição e alternativa, através das rodas culturais que acontecem em sua maioria sem nenhum patrocínio ou incentivo do governo. Essas rodas trazem o lazer, o debate político de pertencimento e perspectiva de vida para jovens moradores das periferias que diariamente sofrem com a falta de acesso à educação e ao emprego.”

Por isso, o movimento Hip-Hop como um todo historicamente se coloca como aliado e construtor do poder popular, ou seja, tem lado. É inaceitável que os artistas do movimento hip-hop não se posicionem politicamente se mascarando na falsa neutralidade. Isso está diametralmente da contramão da história do hip-hop. Precisamos resgatar nossa história e radicalizá-la. Precisamos honrar o quinto elemento. Conhecimento é conscientização política. E conscientização política é antifascismo.

FOGO NOS FASCISTAS!