‘Negra Melodia’ de VH O Escrivão é o começo do fim de OFEDS; entenda

A segunda mixtape solo do cara mais brabo da cena atual do rapper goiano VH, O Escrivão está quase no fim. Quando acharmos que finalmente será lançada, perceberemos que já acabou. Pra quem não se deu conta (ou já tá ligado), há anos estamos inseridos nessa mixtape “O Frágil Exercício de Ser” (OFEDS), que vem sendo apresentado em drops por VH desde 2019 com a canção “Habitat” e, de clipe em clipe, vemos, ouvimos e refletimos suas poesias em Boombap & Lo-Fi.

Além de Habitat, já foram lançadas as faixas “Anti-Herói ft. Vant”, “Tinta nos Lábios ft. Guilherme Eurípedes”, “Manifesto 062 ft. Akin 47”, “Verso é Vida ft. Devito” e “Tanto ft. Dam”. O trampo está sofrendo um processo bem espaçado de lançamento justamente porque cada faixa ganha um projeto audiovisual dedicado e bastante experimental.

VH considera que músicas com videoclipes tem mais chances de serem apreciadas do que um álbum todo só com canções. Por isso veio essa ideia. E nessa estratégia, o artista inverteu a expectativa de estreia de um trampo musical. O que não é mais novidade, na real a mixtape já é sucesso no cenário goiano há quase dois anos sem nunca ter sido oficialmente lançado.

“Essa mixtape é minha trajetória pós-Peles Negras Máscaras Brancas. Foi um processo de descobertas, basicamente um percurso da minha vida, a qual passei por diversas transições. Da primeira pra última faixa hoje são muitas águas que rolaram para encontrar essa persona que conhecemos como VH, O Escrivão”.

VH, O Escrivão

Temos só mais uma faixa bônus com participação do produtor Janjão para sair e só então encerrar essa travessia musical do VH. Portanto, podemos considerar que o lançamento de hoje “Negra Melodia ft. Gigante no Mic” é o começo do fim ou o próprio fim da “jornada do heroi”. Confira:

Com produção musical de Oluás e Mix/Master do Saggaz, “Negra Melodia” é mais uma obra do VH que dialoga sobretudo com referências. Esse nome por si já é autoexplicativo no que diz respeito à herança da música negra para o artista, como o próprio rap.

Enquanto ponto de afirmação da sua identidade musical, a escolha do nome levou VH aos anos 1977 e faz alusão principalmente a obra, do cantor, compositor e poeta Jards Macalé, da qual VH muito se inspira.

“A escola da poesia marginal com a qual ele dialogou, as relações com o Wally Salomão, a ideia do ‘maldito’ que também remete ao Itamar e outros grandes compositores… Enfim, sinto muita identificação com a obra dele de modo geral, tanto musicalmente como no que diz respeito a composição mesmo, a poesia”, explica VH.

Provocativos nas ideias, a densidade é o que une os dois poetas. Para VH, uma das características marcantes das composições de Jards Macalé é o sentimento de angústia, que por vezes impulsiona o ato criativo, se tornando talvez uma condição existencial a isso que ele chama de frágil exercício de ser.

GIGANTES NO MIC

Outra referência de peso para VH nessa faixa é o próprio feat. com o Gigante do Mic (que já deve ser referência até pro Balck Alien). Desde quando começou a conhecer o cenário do rap em Goiânia, VH conta que ouvir Atentado Napalm foi o principal ponto de identificação para hoje estarem dividindo versos.

“O Napalm é um rolê muito importante né. Não só pra mim mas pro Caseiro (grupo em que VH faz parte com Dam) também. A gente colava em todos os shows e cantava todas as músicas. Por isso até o Gigante fala em algum momento da canção assim: ‘lembro de você em frente ao palco do Martim’. Isso faz uma alusão direta a essa trajetória”, relembra VH.

O caminho trilhado pelo Napalm é importante para a formação artística de vários rappers goianos. VH nem sonhava em fazer rap, Gigante no Mic com o Atentado Napalm já era uma referência na cena. E tê-lo em sua mixtape vai além de um feat. colaborativo, tem muito dessa memória afetiva entre os dois.

SAMPLE AUDIOVISUAL

Da última vez que o Gigante esteve em Goiânia, VH não conseguiu gravar com o rapper. “E eu pensei ‘porra, queria que fosse algo foda’ porque é uma faixa muito importante pra mim no fim das contas’”, e foi aí que VH teve a ideia de convidar o artista Robin O Robbit (@robbit.art) para criar pela primeira vez um clipe em colagem para a faixa Negras Melodias.

O clipe possui um audiovisual com recortes absolutamente reflexivos. Ouso destacar a cena do livro “Genocídio do Negro Brasileiro” saindo da cabeça de Machado de Assis, ou então a obra Sobrevivendo no Inferno flutuando num céu azul entra a fronteira da Zona Sul. Tem também aquela do Cartola tomando seu café atrás de uma fazendinha desértica e tantas outras referências no que diz respeito a composição e a identidade dos artistas. A análise é infinita para quem aprecia narrativas com certa psicodelia. (Um trabalho assim eu não curtia desde “Rolo Compressor” do Mr. Niteroi).

Robin, O Robbit

Robbit trabalha com artes visuais há 2 anos apenas, mas é perceptível sua afinidade e domínio com essa linguagem estética. O convite pra esse trabalho desafiador veio através de muita conexão a partir de um bate-papo sincero sobre arte e música. Robbit apostou todo seu talento neste som do VH com o Gigante que pra ele é um sonho realizado.

“Já acompanho o VH desde a primeira mixtape dele e o Gigante há muito tempo também. E recentemente trocamos uma ideia sobre os últimos lançamentos. Mostrei um trabalho meu que fiz pra um beatmaker de Goiânia, um flyer superanimado com estética de colagem. E daí o convite veio pra fazer esse trampo audiovisual da música. Pensei: ‘Que responsa!’. Mas eu consegui.”, comenta Robbit, com muito orgulho do resultado.

Robin O Robbit é um jovem preto e periférico, cria da região Noroeste de Goiânia, que encontrou na estética da colagem uma aproximação grandiosa com o Hip Hop e com sua própria identidade artística. Ele compara seu trabalho ao processo de criação do próprio rap.

“O gênero utiliza recortes de samples, sabendo de onde está retirando aquele elemento musical e ressignificando aquele trabalho novo. E é isso que eu faço com as imagens, eu sampleio elas”, explica ele.

O videoclipe parece ilustrar toda essa jornada musical do VH até aqui. E o que eu chamei no início do texto de “começo do fim”, nada mais é que uma estreia-despedida de OFEDS para uma outra fase de VH, O Escrivão. O artista garantiu que tem várias no pente pra lançar ano que vem.

Nesse HABITAT musical em que VH nos inseriu, estamos superando esse ANTI-HEROI que ele mesmo criou. E apesar do escurecido MANIFESTO, ainda temos TANTO pra aprender com sua NEGRA MELODIA. Mas já podemos cantar com certa TINTA NOS LÁBIOS e compreender através da sua arte que VERSO É VIDA.

Acompanhe o artista no Instagram – @vhoescrivao

Pra quem não acompanhou O Frágil Exercício de Ser desde o início, entenda essa jornada do poeta ouvindo e assistindo abaixo faixa por faixa:

  • Habitat
  • Anti-Herói ft. Vant
  • Tinta nos Lábios ft. Guilherme Eurípedes
  • Manifesto 062 ft. Akin 47 | Sorga
  • Tanto ft. Dam Caseiro
  • Verso é Vida ft. DeVito Cxrleone