Lívia Cruz analisa letras machistas do Racionais e avisa: “Nós somos mulheres merecemos respeito. Ponto e acabou!”

Nesta terça (11), Lívia Cruz comemorou mais um ano de vida, e para a alegria de todos os amantes do rap (ou não), a cantora publicou em seu canal no Youtube mais um vídeo! Sempre polêmica e sempre mexendo na ferida, o assunto abordado dessa vez foram as letras de “Mulheres Vulgares” e “Estilo Cachorro“, dois clássicos do Racionais Mcs.

Desde que lançou “Eu Tava Lá”, sua resposta a “Quem Tava Lá?”, a pernambucana tem recebido muitas mensagens em suas redes sociais dizendo que ela precisa bater em todas as letras de rap com conteúdo machista. Mais uma vez, ela explicou que não quis comprar briga com ninguém, mas apenas discutir sobre um assunto que é muito importante nos dias de hoje.

— Eu acho interessante essa perspectiva ainda mais neste momento. Senti vontade de falar sobre isso porque as pessoas me cobraram: “Ah, você bateu nos moleques! Quero ver você falar…”; não bati em ninguém! A gente está falando de ideias e não de pessoas. E aí que está: essa ideia de que existe uma mulher vulgar e para a contrapartida tem a mulher feminista. Isso é muito louco, né? Porque é uma linha de raciocínio que os caras usaram na música. Inclusive fazendo uma pesquisa, porque todo mundo fala que as letras dos Racionais, as letras do 2Pac, as letras e não sei mais quem têm conteúdo machista… Amigos, minhas letras têm! Porque a gente vive em uma sociedade que é machista, a gente cresce, aprende, se desenvolve e morre no patriarcado since Babilônia. Ninguém que está aqui trocando ideia com você inventou isso!

Logo de cara, Lívia analisou o trecho: “É bonita, gostosa e sensual/ Seu batom e a maquiagem a tornam banal/ Ser a mal, fatal, legal, ruim…Ela não se importa! / Só quer dinheiro, enfim

— Tem alguma rima que fala de maquiagem, que fala da roupa e é exatamente essas coisas que nós, feministas, não estamos mais tolerando de que exista esse tipo de regra para nos definir. Afinal, o que define uma mulher vulgar? É o olhar do homem? Do que a gente está falando? De que parâmetros a gente está falando? É uma obra que é recorte de um tempo e tem essa parte muito interessante de falar da mulher feminista, é valorizar a mulher feminista, mas ao mesmo tempo coloca em cheque todas as questões, do tipo, quem define o que é uma mulher vulgar e o que é uma mulher de valor? Exatamente são esses conceitos muito antigos, que são intrínsecos nossos, da nossa sociedade, de uma mulher que merece respeito e de outra que não merece respeito

Uma coisa é fato: dentro de um universo dominado por homens, como é o rap, a pernambucana faz parte do time das minas que se destacam e vem fazendo um grandioso trabalho. E uma questão que ela faz questão de frisar quando o assunto é o machismo é que não é apenas o hip hop que sofre deste mal, mas (infelizmente) o mundo inteiro.

— Nós somos mulheres merecemos respeito. Ponto e acabou! Queremos ser vistas como seres humanos, como um sujeito de direito na sociedade, na política e no rap também. Esses parâmetros não nos definem mais, aliás, ainda definem, mas a gente está trabalhando para descontruir esses parâmetros e não nos definir mais por aí, não aceitar mais esse tipo de afirmação sobre quem merece e quem não merece respeito

Lívia bate na tecla de que é importante desconstruir todos os padrões impostos pela sociedade para que a convivência e o respeito consigam reinar.

— Essa coisa dos camarins, das Maria Camarim é muito louco porque eu sou artista, por exemplo, e nunca fui tratada no camarim ou raríssimas vezes porque existe esse conceito básico de que se você é mulher e está no camarim, está disponível para ser, enfim, assediada e para qualquer fim definido pelos homens que ali estão porque é coisa de homem ou de puta. Alô? Eu estou trabalhando! É esse tipo de paradigma que a gente tem que quebrar. As minas que estão no jet também e quer conhecer seu ídolo e tal, às vezes até, pô, quer sair com os caras, por que não? Afinal, mulheres gostam de sexo também. Por que tem que maltratar qualquer pessoa? Você pensa assim: “Trata bem quem está trampando”, o segurança, seja lá quem for, aí é sua fã e você vai tratar mal? Vai tratar que nem lixo? Tipo, se a menina está tendo alguma atitude que é degradando para ela, porque eu sei que isso acontece, você está se degradando também dando atenção e deixando a coisa toda acontecer. Então, é isso, a palavra do momento é descontruir, descontruir todos esses parâmetros e padrões antigos

Para a rapper, o machismo não oprime somente as mulheres, mas também os homens, pois não é uma questão de ser o gênero dominante, mas também de impor o capitalismo de forma que, para muitos jovens, conquistar uma mulher só é possível quando a pessoa possui bens de consumo, que funcionam como um atrativo para as relações.

— Aí se você for ver, a ideia central de “Mulheres Vulgares” e do “Estilo Cachorro” define, exatamente, isso porque diz que o homem para ter uma mulher, aí ele já pensa nela como bem de consumo, pre-gui-ça, ou várias mulheres, ele precisa do kit, ele precisa de um tênis, do relógio pá, da moto tal, e aí que a gente vem no Estilo Cachorro que ele começa: “Conheço um cara que é da noite, da madrugada/ Que curte várias fitas, várias baladas Ele gosta de viver, (e viajar)/ Sem medo de morrer, sem medo de arriscar/ Não atira no escuro, um cara ligeiro” e vai descrevendo um cara muito da hora, eu gostaria de conhecer esse cara! “Esse cara é bandido, aham, objetivo/ Um bom malandro, conquistador/ Tem naipe de artista, pique de jogador/ Impressiona no estilo de patife/ Roupa de shop, artigo de grife/ Sempre na estica, cabelo escovinha/ Montado numa novecentas azul novinha/ Anel de ouro combinando com as correntes/ Relógio caro é claro, de marca quente” e vai falando que ele tem as coisas tudo! E o refrão: “Mulher e dinheiro, dinheiro e mulher/ Quanto mais você tem, muito mais você quer“. Nessa ideia, imagina lá um moleque de quebradinha que nunca teve as coisas e as minas não dão atenção para ele porque elas estão dando atenção para esse cara, ele cresce com essa coisa na mente, de que ele precisa ter mais do que ser. Então, o machismo oprime todo mundo! Ele põe todo mundo dentro dessa caixinha do bem de consumo. Aí segue a letra e o Brown fala “Não é machismo”, é sim, amigo!

Para terminar com chave de ouro, a “tia Lívia” explicou, de maneira bem didática, que sua intenção é dialogar, criar um debate e que, desta forma, todos podem crescer e evoluir para tornar o mundo um lugar melhor.

— E fala: “Mulher finge bem, casar é negócio“; mas aí que está, o preceito, a base da família, toda essa coisa é baseada no capitalismo, na posse. Você precisa ter uma mulher e garantir que os seus herdeiros sejam somente seus, aí você cerca essa mulher pelo casamento e pela monogamia, e tudo isso vai garantir que você tenha a sua fazendinha, a sua vaquinha e seu dinheirinho embaixo do colhão. Ok, os tempos mudaram! Não é mais babilônia, não é mais burguesia, estamos aí, estamos livres, #SÓQUENÃO porque essas ideias são sempre massificadas, tanto para os homens quanto para as mulheres, que a gente precisa seguir esse padrão para manter as coisas como estão. Não! A gente não quer manter as coisas como estão! A gente quer outros modos de vida, quer outros modos de se relacionar, a gente não quer ser subjugada e atacada só por ser mulher. E tenho certeza, amigo, que você quer sair com uma gatinha que goste de você pelo que você é e não pelo tênis que está no seu pé, chapa! Então, a gente tem que todo mundo desconstruir essa ideia e não é vocês enchendo o meu saco, dizendo que eu tenho que bater nas letras machistas de todo mundo, não! Eu fiz um negócio que é para cortar isso, que eu não gostei, que eu fiz, não vou ficar falando da minha diss a vida inteira, não vou [risos]! Mas enfim, que é para eu bater nas letras machistas dos caras e, pô, não é essa a minha função! A função de todos nós é dialogar. Se até os pokémons evoluem por que você não pode? Claro que você pode! Estamos aí para evoluir, para trocar ideia, para desconstruir esses parâmetros antigos que oprimem todos nós, não só as mulheres. Ok, o homem está em uma posição privilegiada no rolê, em alguns parâmetros, mas a gente não pode esquecer que é toda uma engrenagem. O sistema não está mamão, não é fácil de desconstruir! O buraco é bem mais embaixo, mas se a gente começar a desconstruir aqui, nós para nós, as coisas melhoram.