Literatura, São Paulo e referências: O impacto do primeiro disco do A.L.M.A

É um dos que eu chamaria clássicos silenciosos do Brasil. Underground não, silencioso mesmo: Tá lá, impactou muita gente dentro e fora da cena, tem sua presença reconhecida mas não faz barulho; Esse álbum na cena é o equivalente àquela pessoa amada introvertida, a companhia faz muito bem, mas passa despercebido pra alguns e tem seu valor ignorado por quem é trouxa.

O álbum é o suprassumo da vanguarda do rap nacional, literária e literalmente. Na literatura, a era das vanguardas foi marcada por diversos movimentos, completamente variados uns dos outros, com o conceito comum de: questionar o que caracteriza arte, redefinir estes alicerces enquanto respeita a estrutura comum; Antecederam o Modernismo, onde a arte diferenciada e excêntrica passou a ser popular e ter seu espaço consolidado. Tratando a onda de trap que vivemos como o modernismo, o estranhamento e a crueza da inovação vanguardista é sintetizada nesse album, que pavimentou a rota pra cena do futuro.

Track 1: Poetry n’ Madness. Um puta refrão com valor de choque pelo encaixe na base, com valor lírico após algumas audições e minutos pensando, rodeado de versos em sintonia e desconexos. Dadaísmo foi um movimento literário de vanguarda, idealizado num bordel, no qual os limites da arte eram quebrados e tudo passava a ser visto como arte, não havia necessidade de ter sentido para ser bom, bem feito e apreciado. Essa faixa transborda o mais puro sulco de Dadá.

Rica em ilustrações de São Paulo e seus personagens, Lamentar do Cinza é o choro que as paredes de SP gostaria de por pra fora. Futurismo foi um movimento vanguardista que era tarado por velocidade e consequentemente o caos promovido pelo desenfreio. A base, produzida por Xiz, é acelerada e gatilho de ansiedade, o refrão soa desesperado pra acompanhar o beat e agressivo pelo esforço. É o retrato fidedigno da intensidade da cidade atingindo os moradores, quase uma ambientação psicológica. A metáfora de que nossa realidade é o próprio inferno é só a cereja do bolo.

Em uma das explicações mais chulas, o Expressionismo só queria expressar o que estava acontecendo, não só na sociedade, mas dentro do homem. “Boca Aberta” é um desabafo, ou melhor, dois desabafos. Wendel abre citando Fernando Pessoa, subverte o ideal clássico de 50 cent, se mostrando vulnerável e problemático. Felix, por sua vez, mostra a outra versão do ‘boca aberta’, o questionador e por vezes até agressivo, que nunca deixa de ser frágil e se retrair.

Mesmo sendo ótimos sons, as faixas 4 e 5 serão puladas, só nesse texto, nas audições nunca. Player e Hipnocidade unem ideais de tanto o cubismo, quanto o surrealismo. Do primeiro, a multiperspectiva e maneira de encaixar fragmentos de coisas aparentemente distintas, na construção de algo expressivo, junto com a fragmentação da realidade, deixando a interpretação para quem consome. Vide Wendel cantando que ‘sim, tem tudo a ver’ e pouco depois Boca cantando que ‘não tem nada a ver’. O surrealismo é mais gritante, no cerne da questão de fazer arte, da forma mais psicanalista possível.

Com Órfão I e II, sendo a segunda uma incorporação do conto de Édipo (nosso órfão preferido) ao storytelling triplo de um grupo de rap, o album se guia ao final. A música puramente surrealista “It was all a dream”, de beat e rimo aéreo e calmo, pra sossegar quem passou pela experiência que é o trabalho completo. Daqueles que cresce a cada audição, onde dá pra achar detalhes da música e novas interpretações pras letras, mesmo mais de 4 anos após o lançamento. É um clássico, é uma aula lírica, uma aula literária e acima de tudo: 8 faixas de rap do bom.

Playlist do album