Lerry e o rap nas encruzilhadas eletroacústicas do Hip-Hop tropical

“O sertão vai virar mar
O rio tá virando lama
Água boa já vai faltar
E a Chapada tá em chama.”

O interior se alarga através dos portais para o Sertão. Laroyê nas Encruzilhadas. Esse é o Lounge de Lucas da Feira, esta Deep African-House e Chill Out Brazilian-Bass. Para esta Bahia profunda e eletronicamente orgânica e ancestral, qualquer invenção conceitual não pode ser feita apenas de jogos de palavras.

E se o rap tá tão trap ou o raga rasga o rec. e o boogie volta com tudo do blues, então para além do dubstep, vamos ver o que o som da cena FSA tem a oferecer para o cenário do Hip Hop e do Rap Nacional? A partir da fusão das formas musicais orgânicas e eletrônicas justapostas por um artista que une o raro talento do multi-instrumentista com a relevante e comprometida pesquisa do sound designer, qual o resultado?

Nas palavras do DJ Lerry, é simplesmente: “ouça e dance” ou, então, deixem vibrarem através dos corpos os pêndulos que acionam e mobilizam, a um só tempo, o que tem por trás dessa sonoridade de invenção, ou seja, a ressonância acústica que se dá nos encontros com o “elo sonoro entre o ancestral e o tecnológico”.

Com ele o “Clima tá quente” e “Ela balança”, então já dá pra gente saber que segurar a vibe do selo “Onda Doida Records”, dessa vez, não será assim tão fácil. Lerry, que lançou o EP Tabatenu (2017) em pleno carnaval baiano, combinando a sua profunda intimidade com as entranhas da música eletrônica contemporânea como, p. ex., a dinâmica psicodélica das raves com a percussividade e o instrumental orgânicos de ritmos como o pagode baiano e o rock; somam-se para além de um balanço-funk aos toques, uma intersecção de atmosferas ancestrais e atuais que arranjam beats qual trap music. O trabalho autoral contou com arte de Don Guto e masterização de Anderson Cedraz.

As conexões entre os giros das órbitas do cotidiano sertânico e do universo relativamente atemporal das tradições musicais que conferem uma identidade híbrida e ativamente inventiva ao som de Lerry, vêm sem dúvida de um aspecto relevante em sua obra: a cultura do baile. Lerry que já foi atração em uma das noites do “Baile Pelo Certo”, em Cachoeira, no Recôncavo baiano, apresenta sim no seu som um balanço inconfundível. Algo que bate-certo como se diz: e aí, tá batenu?.

Como na segunda faixa do seu primeiro trabalho, com participação de Gibran Azuos e Bomani, onde se canta e toca para a entidade espiritual, deusa africana, orixá nos candomblés yorubás, Iansã, Oyá Balé, Yabá dos ventos, dos raios e tempestades que vem em terra dançar nos terreiros bem como conduzir os espíritos em sua viagem ao outro mundo. “Oyá Balé Lariô/ Oyá Balé// Oyá Balé Lariô/Olha o Baile”. Logo, onde a ancestralidade orienta e organiza a subjetividade do artista criador, de sua obra e, consequentemente, de seu público, a estrada à frente se alarga, e os caminhos abertos anunciam a novidade.“Ô levanta yayá vem pra Feira/ Olha o Baile.”

Na faixa “#pagotrance” uma base que, pode fritar ou literalmente derreter seus neurônios, sustenta-se num instrumental que aciona a coordenação motora desde seu inconsciente até mesmo seus mais imprevisíveis reflexos. Então, entre o Pagodão e o Psytrance, emergem as linhas que contornam a timbragem do “Pagotrance”, levada que, da psicodelia do Trance ao Goa indiano ou o Techno europeu, compõem a sustentação eletrônica para o looping & samples de ritmos e claves da matriz africana tão presente em nosso imaginário, religiosidade e manifestações culturais mais vernáculas.

Depois de “Zé”, uma faixa em que, Don Maths (Dj/Mc Roça Sound) e Bel da Bonita (Africania), colaboram sobre o tema da narrativa do sertanejo que é antes de tudo um preto, um índio, um forte. O Ep. segue uma esteira de colaborações com uma pancada nas vozes de Helena Trabuco & Duqueza para aos modos do cangaço fazer jus a qualquer um dos grandes parceiros neste projeto que nos revela um “Original…Lerry”, para que todos possam respeitar as herdeiras de Maria Bonita, “[…] pegou a visão B?”, então: “Make the Revolution”!!!Porque ainda tem “Maré de Xangô” que é a última faixa do compilado, trazendo junto como o àlafin de Oyó, a rainha das águas doces, a senhora Oxum, além das referências ao Aiyê e ao Orún .

E, neste sentido, principalmente, é do axé, do pagode e do jazz que o Dj extrai seu DNA sonoro para produzir, compor e mixar suas faixas que escalam um balanceamento das linguagens eletrônicas e tambores e pandeiros, bem como contrabaixos, guitarras acústicas, sintetizadores e mídis do seu teclado. Assim, que em processos de criações coletivas como em suas parcerias com Bomani, Don Maths, Bel da Bonita ou Roça Sound é quando o sound designer elabora e compreende uma linguagem que – em regimes experimentais de improvisos com timbres e arranjos singulares – caracteriza a estética do seu prisma musical.

Lerry, Onda Doida Records, Studio Home.

A partir de agora, Lerry se concentra em seus novos projetos. Em entrevista ao RND, realizada no seu estúdio, onde ele prepara os próximos lançamentos do seu selo “Onda Doida Records”, o Dj nos contou um pouco sobre sua trajetória, formação e expectativas para o seu trabalho. Após passagens por grupos como Uyatã Rayra e A Ira de Rá e Africania, e pelo selo de psytrance Olotropo Records, agora em parcerias com novos colaboradores como Gilmar Araújo (Quaternália), La Lunna (rapper de Vitória da Conquista), Felipe Azevedo (Sax) e novamente ao lado de Helena Trabuco (vocais), Lerry nos apresentou os originais do seu novo trabalho a chegar nas pistas, que vai envolver não apenas uma coletânea diversificada mas também um projeto autoral com inspiração na soul music e nos timbres vocais de Tim Maia. Uma breve prévia do que podemos esperar deste artista imprevisível para os próximos meses.

Lerry aí “Te chama pro Baile”, da psicodelia do psy ao pagotrance, as sonoridades deste artista desaguam num oceano eletroacústico, e este teaser é só pra te deixar na vontade do que ainda vem por aí. Um trampo fino e firme, com a característica marcante de seus beats, uma engenharia e programação sonora que privilegia o balanço ritmado da pista, e nesta nova realização, a pulsação da soul music chega junto e com força, atualizando as heranças de Tim Maia, nos timbres de voz e sints. Se liga que é só o sopro da ventania que o Dj baiano vem trazendo nas asas dos seus mixs. Em algumas semanas estaremos apresentando um mini doc. de um de seus novos trabalhos, desta vez uma colaboração com COLETIVIDADE MOLOTOV #ARTE LGBTERRORISTA, em matéria exclusiva que você vai poder conferir aqui no RND, em primeira mão.

É possível que desde o Dj Baauer e sua Harlem Shake, a possibilidade de trazer à tona boa música numa pegada tipo hip-hop eletrônico como através do pagotrance ou trapagodão, tenha encontrado no Brasil uma expressão por demais genuína em Lerry, que no dia 28 deste mês é uma das atrações da noite “NORDESTE, NÃO TESTE”, ao lado de Rapadura e Efeito Zumbi, no Offisina Music Lounge, em Feira de Santana, sob a organização do Feira Coletivo. A gente se vê lá!

Confira um pouco do que já está disponível, enquanto as novidades chegam…