Lady Laay e a cena do rap feminino

Para Elaine Una, Laísa Gabriela
e Remís Carla (in memorian).

Verão (2017/2018), entre dezembro e janeiro. Entre a primavera de setembro ao solstício de verão, em dezembro, este é o intervalo em que escrevo-e-não-escrevo por aqui. Mas agora há outras razões. O poeta oposto da pista, aposta no posto, um outro de si. Um-dois. Uma dupla numa relação entre a música e os mortos, entre os movimentos e as metamorfoses. Um duplo risco de acertar na cara da sorte, paulatinamente.

Um começo, um vislumbre de sonhos que reluzem no horizonte, num palco, num arco de tempo e lastro de terra, que é chão para semear e pisar firme, como quem deixa pegada na trilha da vida e vai adiante. Eu, estou a morar em Olinda, há pouco mais de um mês, sob alguma forma de vontade de voltar a viver. Sob o efeito das forças de reaprender a estar de pé em meio à multidão e, às vezes, também em solidão, mas não mais sozinho.

Num desses entres, houve um momento em que era uma noite especial, não apenas por ser um aniversário, mas, ao mesmo tempo, por ser uma noite em que por sorte eu havia tido a chance de estar em um evento. Foi a festa de pré-lançamento do EP. Faro, da rapper pernambucana Lady Laay, disponível na rede há alguns dias. O sarau, a roda de conversa sobre “a saúde mental em meio tantas opressões”, as presenças de militantes feministas negras comoviam qualquer alma presente ou corpo ausente.

Numa produção local, em que se realizou também a gravação de um clip para uma das faixas do EP., “A justiça não é cega”, numa realização do projeto TV Amaro Branco, apoiado pelo Funcultura do Governo do Estado de Pernambuco, a equipe do Sistema Amaro Branco de Comunicação, iniciativa da Casa Coletivo, esteve presente na experiência da noite do dia 26 de dezembro de 2017. E nós do RND, além de noticiar o surgimento do disco, aproveitamos para fazer uma entrevista com a artista, que sairá em alguns dias.

Reunidas, a turma do “Slam das Minas” (PE), entre elas Bel Puã, a Isabella Puentes vencedora da última edição do “Slam BR”, junto à plateia do rap e a galera ligada na performance do Coletivo Bartira além da discotecagem de Dj Novato,  que foi responsável pela produção de todo o disco desde os beats, a gravação, mixagem, masterização de forma totalmente independente em seu home studio, ele próprio tocou o berimbau usado no instrumental da intro., assim nos ofereceram uma grande lição de resistência, sensibilidade e coragem sob o efeito de uma grande emoção decorrida do impulso nefasto do recente feminicídio da jovem Remís Carla, ocorrido dias antes do evento, na cidade do Recife.

Havia muita empatia e revolta. Uma reunião de mulheres atuantes na sociedade pernambucana através da arte e da política como Hilda Torres, da Secretaria das Mulheres, entre outras, que em um ritmo incessante que oscilava entre consternação e bravura, encontrava-se amplificado nas vozes das meninas que rezavam/revezavam-se uma a uma entoando poemas em alternância com um coro comum: – “Remís Carla, presente!”. E como um mantra, a ecoar por todo o espaço do “Burburinho Bar”,no Recife Antigo, repetia-se cada vez mais alto: – “Remís Carla, presente!”, “Remís Carla, presente!”.

Enfim, então o papo aqui é das minas. Sobre o som que sobe das margens do Capibaribe, na beira do cais onde tanto aconteceu e acontece. Foi em dezembro, o lançamento da primeira metade do disco “Audaciosa”, de Elaine Silva, a Lady Laay, o Ep. FARO, primeira parte da obra, que vem com sangue nos olhos, como a gente esperava. Quem já teve a oportunidade de conhecer o trabalho dela, já sabia o que viria por aí: aquela pancada segura num misto de ativismo, subversão e combatividade.

Desde Dina Di, passando por Nega Gizza e Negra Li, a caminhada feminina na cena do Rap Nacional alça, atualmente, nomes como Áurea Semiséria ou Clara Lima, entre outras como Drik Barbosa e Mirapotira. Lady Laay, está também presente na cena Hip-Hop, esta muitas vezes descrita como machista do ponto de vista hegemônico, no entanto, para a artista e ativista pernambucana: ousadia e acidez são suas palavras chave. Uma política audaciosa de engajamento e enfrentamento marcam seu estilo e personalidade artística desde o início. A sua coragem criativa e a ludicidade para lidar com estigmas e problemas sociais são mostras de sua versatilidade e preocupação crítica que embasam seu trampo sonoro e poético.

“Não foi miscigenação, foi estupro / Forjaram, Inventaram
Esse termo e gritaram MESTIÇA / Pra em vão
tentar me fazer não / enxergar a injustiça

E tentar me fazer / Não perceber
Que sangue que aqui corre,
É o mesmo que escorre…”