Emicida fechou o festival Jõao Rock com chave de ouro; e nós o entrevistamos

No último sábado (10) aconteceu a edição de 2017 do festival João Rock, realizado em Ribeirão Preto/SP. E uma de suas principais características que vem se desenvolvendo ao longo desses seus 15 anos é conversar diversos públicos, unir pessoas pela música, um festival que mesmo dedicado ao rock nacional, desde sua primeira edição, trouxe ritmos diferentes.

Ano passado, o enceramento ficou por conta de Criolo, além de atrações como Planet Hemp e Black Alien, este ano o festival escalou Emicida que contou com diversas participações.

Emicida entrou no palco depois d’O Rappa com dez minutos de atraso, causados pela apresentação anterior. Apesar do frio de oito graus, que foi motivo de um esvaziamento precoce, a apresentação essencialmente política e plural do rapper foi um dos pontos altos do festival, em meio a uma série de repertórios vastamente conhecidos e reproduzidos no João Rock durante os anos“, lembrou a Rolling Stone em sua cobertura.

Apresentação na íntegra

https://www.youtube.com/watch?v=Hiv8hdi6eVA

Após o show conversamos com Emicida sobre o espaço que o rap vem tendo nos festivais, além de outras coisas.

E aí, como foi estar aqui hoje?

— Foi divertido, né? Eu tava feliz, tava falando com o Coruja, a gente vem de um gênero que não flerta com o rádio como os outros gêneros mais populares flertam, tá ligado? Então, imagina o quão é profunda a conquista de encerrar um festival que nem esse pro rap. O que aconteceu esse foi histórico, mano.

E você encerrou com o som Rincon, também cantou funk no meio do show, é uma mistura foda de gêneros, certo?

— É mano, porque assim, a gente só sabe sonhar se for no coletivo, é uma realização que não é só nossa. Isso aí a gente reconhece, a gente chegou até aqui porque muita gente trampou pra caralho. E a gente é algumas dessas pessoas que tão trampando pra que ano que vem outras pessoas estarem aqui no ano que vem e daqui a dez anos falarem “quando os caras invadiram o bagulho, nós abriu esse caminho e isso é foda”.

E isso vem acontecendo faz alguns anos já, ano passado tivemos Black Alien no palco principal, o encerramento do Criolo…

— Sim, eu acho que o hip hop é que nem uma corrida de passar o bastão, tá ligado? O Kool Herc, o Africa Bambaata, esses caras aí passou o bastão pra próxima geração, que passou o bastão pra próxima geração e isso foi se expandindo ao redor do mundo, tá ligado? Até chegar no momento que estamos vivendo hoje, e o mais foda: o que a gente tá vivendo aqui agora é parte dessa história também, e não é uma história local, é uma história global. Você mantém o hip hop vivo e isso influencia toda uma região e isso influencia uma outra região, tá ligado? Vai chegar um dia que as pessoa vão olhar pra história e falar, no Brasil aconteceu isso aqui também, e o hip hop tava vivião porque é tipo uma cultura global. O Hip Hop é uma comunidade muito foda, sejam em São Paulo, em Nova York, na Palestina, você vai encontrar alguém na mesma batida.

Com parcerias novas, o rap interagindo com outros gêneros tem se tornado cada vez mais popular, é algo que vem de bastante tempo atrás, você já faz há algum tempo, mas isso vem se tornando cada vez mais popular com o tempo. Além disso, o que você pretende fazer daqui pra frente, já que quanto mais se chega no topo, mais difícil é evoluir?

— Na verdade, eu não penso que fica mais difícil cara, eu penso que eu admiro vários artistas, eu escuto várias músicas, de vários gêneros, de milhares de artistas diferentes, e eu gostaria de colaborar com eles, tá ligado? Porque quando eu fazia batalha, você batalha num campo, era um contra o outro tá ligado, e nós vamos se xingar pra caralho, nós é amigo, mas vai se xingar pra caralho, é um ringue ali mano, chorou, parou, entende? E quando você vai pro estúdio, com um artista, eu sinto que é uma batalha também, mas é uma batalha dos dois juntos em prol de uma música cada vez melhor. Então cada vez que eu chamo um artista de fora do nosso rolê pra colaborar, eu entendo que a verdade dele, pode colaborar com a verdade da nossa, tá ligado? E a gente acaba falando pro Brasil que a gente precisa se unir mesmo mano, então foi do caralho hoje poder ter a Pitty, ter os moleques, ter a Vanessa da Mata, Entendeu? Porque a gente mostra pra todo mundo que a gente é um bagulho só mano, nós tem que tá junto, o Brasil precisa tá junto sempre. Fala-se muito de diversidade, mas não se exercita diversidade.

E sobre o álbum novo, o Língua Franca?

— Ah, o Linguinha Franca, mano, é algo que a gente fez assim, ficamos dez dias trancados lá em Portugal, e aí é um registro, é quase que um freestyle aquelas rimas ali, entendeu? Porque eu parava, eu tinha outros shows pela Europa, Fui pra Hungria no meio do bagulho, voltei, mas foi foda fazer, porque eu nunca tinha feito isso de ficar trancado no estúdio com outro pessoal que eu não conheço, tá ligado? Eu só conhecia o Rael, com quem eu já tinha feito música, já tenho uma intimidade, eu e o Rael funciona muito bem, a gente trabalha muito bem juntos. Imagina, você tá em outro país, como pessoas que você não conhece, num lugar diferente, num rolê que você se perde todo dia na rua, porque você não sabe o caminho de voltar pra onde você tá dormindo. E como são dez dias, um período curto, você não tem tempo de se adequar ao fuso-horário, então, você vai pra lá e continua no horário do Brasil, aí tá de madruga lá e aqui tá dia e você tá acordado no tempo daqui, sacou? Quando você começa a dormir, todo mundo já tá acordando, eu fiquei sem dormir nessa porra. Aí os caras ficavam falando que eu era o morcegão, tá ligado? Eles voltavam pra gravar o bagulho eu tava terminando uma rima.

E vem mais parceria internacional por aí?

— A gente vai fazer um lance no Rock in Rio, com o Miguel, tá ligado? Sabe o Miguel do R&B? Vamos fazer um barato com o Miguel agora e o que tá no radar é isso aí, tô sondando algumas coisas, mas ainda não tem nada sólido.