Dr. Drumah comanda a viagem por uma África futurista e ancestral

O hip-hop nasceu agregando para si os mais diversos elementos musicais, estéticos e comportamentais. Quatro elementos ligados pelo conhecimento, feitos por negros, latinos e brancos periféricos, com influencias da disco, reggae, blues, jazz e etc, deram luz ao que conhecemos e temos contato cotidianamente com esta cultura. O resgate destas características fundamentais, ultrapassa as barreiras de um movimento cultural e oferece uma verdadeira viagem no tempo, unindo passado e presente. A linguagem única dita pelos samples, colagens e batidas possui o poder de moldar a realidade, fazendo uso de componentes ancestrais para dar nova identidade a música, o hip-hop atravessa barreiras sendo guiado por nomes talentosos.

A bola da vez é Dr. Drumah, alcunha do baterista e beatmaker baiano Jorge Dubman. Assim como Madlib e Quasimoto, por exemplo, o artista também divide personas e produzindo batidas digitais é responsável pelo criação de um universo próprio. Em sua beat tape lançado em maio de 2020, intitulada “The Confinement Vol. 1”, nos guia para uma África que assim como o hip-hop, respira do futurista e ancestral simultaneamente. Construindo este itinerário a partir das bases de seu acervo de discos africanos, Drumah produz oito faixas instrumentais e duas com a participação do MC australiano Liam Monkhouse AKA Mista Monk (do grupo Black Jesus Experience).

Em tempos de total foco em apenas um elemento da cultura, o MC, Dr. Drumah transmite através de sua arte os conceitos de quem sabe a quem pertence os alicerces de toda história. As batidas vieram antes dos versos, a sabedoria anciã da África é progenitora como mãe e compreendendo estas facetas, o artista concebeu um lindo trabalho. Influenciado pelas produções africanas dos anos 70, podemos perceber referências a Fela Kuti e ao afro-groove setentista. Dividindo espaço com samples que revisitam estes estilos, os timbres soam extremamente familiares e aconchegantes. Os 20 minutos de audição transpiram talento e a multiplicidade do continente africano, sendo uma viagem sonora pelas paisagens da Nigéria, do Benin, da Etiópia, de Burkina Fasso e de Gana.

A África é o berço de toda música negra já produzida no mundo, direcionando suas estéticas, ritmos e espiritualidades. Soul, funk, jazz, reggae, salsa, cumbia, samba são expressões continentais que são constantemente renovadas, promovendo ramificações como afro-funk, makossa, afrobeat, ethio jazz e voodoo funk. “The Confinement Vol. 1” é responsável por sintetiza toda esta troca temporal, ao exibir uma multiplicidade rítmica e identidade própria. Mesmo com poucas palavras, ensina de forma clara o quão incrível soa a cultura nas mãos de quem a conhece e ama.

Confira: