Do amor a consciência: um paralelo histórico social do disco Boogie Naipe!

Imagem retirada da matéria feita com Mano Brown a Revista Trip. Fotos por Klaus Mitteldorf.
Imagem retirada da matéria feita com Mano Brown a Revista Trip. Fotos por Klaus Mitteldorf.

O título desse texto diz respeito a dois momentos em que eu queria ter soltado ele. O primeiro seria no dia dos namorados, mas enrolei tanto pra terminar que resolvi por tentar soltá-lo na Semana da Consciência Negra. No fim não saiu em nenhuma dessas datas, mas espero terminar o ano com esse texto na pista.

No dia 25 de maio de 2020, Mano Brown, em uma live com Rincon Sapiência, disse estar preparando um álbum de rap. Mas ai eu pergunto a você, caro leitor, você ouviu Boogie Naipe? Você gosta de toda aquela onda sonora vinda do soul dos anos 70 e 80? Então vamos embarcar nesse álbum!

Boogie Naipe é um emaranhado de influências que Brown carrega desde o inicio de sua carreira com o Racionais Mc’s. O disco traz elementos da Soul Music misturado com a Disco Music e o Funk, que dominaram dos anos 60 a 80 nos EUA. A história desses ritmos negros se confluem a todo momento.

De James Brown a Michael Jackson, de Stevie Wonder a Parliament-Funkadelic! A Black Music é uma multiplicidade de sons, balanços, estética e sentidos. Da evolução das sonoridades e das festas (as festas têm um significado, mais de um na verdade) surgiu o Hip Hop. Esses ritmos chegaram ao Brasil e fizeram as cabeças e corpos de jovens negros e não negros dos anos 70 em diante.

O fato do Brasil ser um país de dimensões continentais, e com a maior população negra fora do continente africano, trouxe uma diversidade de sentidos muito ampla. Um baile em Salvador tinha conotações diferentes de um baile no Rio de Janeiro, por exemplo. Os bailes tinham muito o aspecto da diversão, do encontro, das roupas. A própria Disco Music nos EUA surge em meio ao luxo, ao dinheiro, a diversão, drogas e tudo mais que a noite de Nova York poderia dar.

A semelhança é que os bailes black são os grandes responsáveis pela disseminação da música negra estadunidense no Brasil. No começo do livro “O Mundo Funk Carioca“, Hermano Vianna conta sobre os primeiros bailes e as grandes equipes de som que surgiram. Existem histórias como a raspagem dos discos com a música do momento do baile. A ideia era que a equipe tivesse a exclusividade do hit. Vianna também aborda a importância dos Dj’s, que tinham o poder de controlar a energia da festa com suas músicas.

A realidade dos Bailes Blacks em São Paulo é parecida. As equipes como a Chic Show, que Brown cita em “Quanto Vale o Show“, eram as grandes responsáveis pela temperatura das festas. Aqueles espaços dos salões tomavam a forma de diversão, romance e resistência da população negra. Os bailes serviam como espaço político também, como mostra esse artigo do escritor Márcio Barbosa. E assim segue até hoje, em outros formatos.

A começar pela estética, o cabelo black, as roupas, tudo fazia parte de um processo de resgate da autoestima do povo preto. O movimento Black is Beautiful (Negro é Lindo) na década de 60, sintetiza esse momento de autoafirmação da beleza negra. Essa corrente também alcançou o Brasil e, talvez, tenha no seu grande expoente Jorge Ben Jor.

Por mais que nem todo baile tivesse um aspecto político, diretamente falando, o contexto da época foi pano de fundo para o movimento black acontecer, como aborda esse artigo. Nos EUA era a luta pelos direitos civis da população negra, já no Brasil era o período de ditadura militar. Influenciados por esse contexto, o povo negro expressou sua força através da arte. A aproximação e o deslocamento desses corpos tem vários sentidos, e é dai que o Hip Hop nasce também no Brasil.

A repressão policial e o racismo sempre fizeram parte do cotidiano das pessoas negras. O filme “Branco Sai, Preto Fica” de Adirley Queirós, é a representação da ação violenta da polícia em um baile black de Brasília. O grito do título do filme pela PM aponta o racismo sofrido pela população preta até nos momentos de lazer. A película ainda insere ficção científica a trama, e se torna um filme documental, pois aquele baile aconteceu na vida real.

A partir do momento que resolvi escrever esse texto, busquei conhecer mais da Soul Music brasileira. Soul significa alma, Soul Music então é a música da alma. O movimento brasileiro do gênero tem grandes artistas. Com isso, decidi por criar uma playlist no Spotify que acompanha esse texto. O link vai estar ao final da matéria.

Tim Maia, Cassiano, Carlos Dafé, Gerson King Combo, Banda Black Rio, Jorge Ben Jor, Hylton, Toni Tornado, entre outros, foram os principais arquitetos do soul e da disco music brasileira. Num período mais recente, Ed Motta (aposto que Anderson Paak. escuta Ed Motta) é um dos grandes expoentes da música dançante. Ele que, inclusive, fez alguns shows com Brown na tour Boogie Naipe.

Mano Brown e os Racionais são frutos desse ecossistema. Da luta e da música, são filhos e netos. Brown com seu Boogie Naipe, que significa um estilo original, independente, carrega toda a influência do Soul Brasileiro.

Acho que todo mundo sabe que o nome Racionais vem do disco “Racional“, de Tim Maia. Ou conhece a releitura de “Jorge da Capadócia“, de Jorge Ben Jor, que abre o disco “Sobrevivendo no Inferno“. Sem contar nos diversos samples usados dos artistas já citados. No disco de 2016, o líder do maior grupo de rap do Brasil escancara ainda mais o leque de suas influências e de sua maestria.

Mas antes, no final do disco “Cores & Valores” (2014), Brown já dava pistas do que estava por vir. Com “Te Proponho“, produzida por Dj Cia e Kl Jay, a canção romântica sintetiza muito o que seria posteriormente o disco solo de 2016.

Um beat que começa com um sample de soul e tem uma virada para o que eles transformaram num boombap bem gansta love para Brown cuspir todos seus sentimentos. A faixa ainda fecha com um sample de Cassiano. A partir daí, o camisa 10 do rap nacional alçaria vôos tão altos como o soco no ar de Pelé.

Capa do álbum Boogie Naipe

Esse resgate das temáticas do soul brasileiro misturadas aos novos sintetizadores, instrumentais, samples, resulta numa nova musicalidade que o próprio Mano Brown disse em uma entrevista sobre o projeto solo.

O ambiente sonoro criado por Mano Brown e Lino Krizz é um soul muito futurista, mas sem esquecer da raízes, das referências. Então, a participação de Hyldon, Leon Ware (que foi artista da Motown), Carlos Dafé, William Magalhães (Banda Black Rio), é toda a ode a quem construiu esse som.

Seu Jorge, Don Pixote, Dado Tristão, Max de Castro e Wilson Simoninha (ambos filhos de Simonal), Ellen Oléria e Dj Cia, são os nomes que fazem parte da história da música negra mais recente, dos anos 90 pra cá. Além do imprescindível Lino Krizz, que Brown fez uma alusão a ser o Nate Dogg brasileiro.

Lino Krizz, que é produtor musical do álbum, coloca sua inconfundível voz a disposição do Boogie Naipe. É um verdadeiro maestro.

Boogie Naipe traça muitos paralelos com a referências de Brown. Se a gente for pegar as canções de Cassiano, como forma de exemplo, elas trazem à tona temas parecidos com os tratados nas canções do Boogie Naipe. E é muito bonito porque mostra o laço de Brown com esse movimento artístico, ao mesmo tempo, o modo de cantar o amor é único. O Emicida em um show que eu fui em Belo Horizonte, exaltou a importância de termos um artista como Mano Brown falando de amor.

Pesquisando sobre, creio que o disco Boogie Naipe é o resultado de um artista e ser humano mais amadurecido. Não é Brown de Pânico na Zona Sul“, nem o do “Sobrevivendo no Inferno” e “Nada Como um Dia Após o Outro Dia“. Mas é também, entende? A sua poesia de guerra, como o próprio denominou, é de extrema importância pra gente entender quem é Mano Brown hoje.

Brown nunca deixou de ser romântico, mas por falta de boa interpretação da sua arte, o taxaram quase que como um homem mal. Na entrevista do Roda Viva de 2007 (disponível no youtube), vemos vários dos rótulos que foram construídos sobre ele. Muitos que não fazem nem sentido já naquela época. No final, em uma pergunta que o Pedro Paulo Soares Pereira tinha sido deixado pra trás, ele disse que em alguns anos Pedro Paulo voltaria ao seu posto.

O que a gente pode ter visto e ouvido em Boogie Naipe foi Pedro Paulo assumindo seu lugar. Boogie Naipe é o Brown despido de rótulos. Cada vez mais elegante, cada vez mais rua e cada vez mais romântico. Sorridente sem ter que se explicar. E quem já teve que explicar porque estava sorrindo? Durante uma época, justamente Mano Brown.

Os versos expressam a conquista, o romance, frustrações e desilusões. O disco que é a realização de um sonho, mistura o gangsta love, o romance dos bailes black e toque de desamor que vem do samba e do soul brasileiro.

O líder dos Racionais foi firme ao falar no programa Metropólis que o seu projeto é feito para o gueto. Sempre foi e sempre será, como ele mesmo afirma. E tudo que foi contado nesse texto mostra como Boogie Naipe é um trabalho de resgate, mas não somente.

Brown faz diversas reverências aos mestres do Soul, da Disco e da música brasileira como um todo. Fala de Clara Nunes, canta Nelson Ned, envolve personagens da cultura pop, mas a sua visão é a frente. O interesse de Brown, tanto para ele quanto para o seus, é o futuro!

E por fim, quero abordar a sensibilidade e habilidade pra falar de amor. Seja sendo nostálgico como em “Baile Black“, extremamente soul em “Felizes/ Heart 2 Heart” ou cantando uma desilusão em “Mal de Amor“. Além do amadurecimento pra colocar esse disco no mundo, a escolha dos músicos, das participações, levam Brown a direção desses vários amores que ele quer contar.

E não só contar o amor por uma pessoa, mas pela cidade, pela cultura, pela vida. É poesia de guerrilha como sempre foi, mas dessa vez ensinando a gente outros caminhos de sobreviver. E de viver essa vida que precisa ser vivida!

Fica o agradecimento imenso a Mano Brown por ter soltado mais uma grande obra-prima dentro de sua discografia. Boogie Naipe é, e vai continuar seguindo, atemporal!

Segue abaixo a playlist (curtinha por sinal) que passa por alguns caminhos do Soul/Funk brasileiro: