Foto: Maria Emanuelle | Show da BS MOB no Bairro Copacabana no ano passado
Foto: Maria Emanuelle | Show da BRAIN no Bairro Copacabana no ano passado

Descentralização da cultura em Belo Horizonte e o rap no vetor Norte da cidade

Belo Horizonte historicamente sempre teve um riqueza cultural e extremamente necessária no país. Rock, pop, MPB e sertanejo são alguns dos gêneros musicais onde a capital mineira se destaca no cenário nacional. Não sendo diferente no Rap, a cidade passou por muitos anos sem visibilidade no Brasil e fora da rota do mercado financeiro da cultura. Numa década onde o Duelo de Mc’s debaixo do Viaduto Santa Tereza teve uma relevância principalmente com o Youtube, ainda havia a discussão sobre a falta de visibilidade nos artistas enquanto o foco nacional ia principalmente para o SP e RJ. Me lembro até hoje do grupo do Facebook RAP BH, onde pensávamos caminhos para mudar esse jogo e nossa cidade ter mais atenção.

Em uma época em que o foco estava todo em artistas brancos da cena, o “Efeito Sulicidio” fez que os olhares se desviassem pra outros artistas, outras cidades e outras regiões. Nessa leva de “novos” mc’s e grupos, veio também para o centro do mercado o grupo DV Tribo que além de fazer história em atividade, impulsionou diversos artistas belorizontinos pro país. Com a grandeza de BH, não seria diferente que alertaria as suas regiões administrativas, principalmente onde eu moro, a região Venda Nova e todo o seu entorno.

Em uma conversa com Winy Franklin que é advogada, gestora de carreira da artista Tamara Franklin e coordenadora da Biqueira Cultural, Winy destaca que a falta de recursos para a região é o motivo que impossibilita artistas e coletivos de produzirem mais atividades no local. O por quê disso, se dá pela falta de informação que os produtores culturais tem e também pela falta de organização entre os coletivos para que os artistas possam ser beneficiados.

Sarau Biqueira Cultural em 2019 numa escola em Venda Nova

Falta um pouco de organização dos coletivos. Quando sai um edital, uma chamada, um concurso ou uma premiação, tem uma dificuldade das pessoas se submeterem a legislação por falta de documento, registro de trajetória, falta um release…

Winy Franklin

Com 7 anos de experiência em produção cultural, a advogada sugere que os movimentos devem fomentar informação para os artistas e coletivos de como os editais funcionam, para que os mesmos possam ter acesso e assim fortalecer a cultura de uma região onde praticamente todas as atividades são realizadas inteiramente pelos próprios produtores locais. Winy complementa que os organizadores de ações culturais são autônomos e que estão tão acostumados a “se virar nos trinta” e acaba que não trabalha com a possibilidade de procurar saber sobre recursos da cidade.

Dueni, meu amigo há quase uma década e Mc no coletivo em que participo, pôde desfrutar dos variados encontros de rap que acontece na região. Assim como me disse, ele teve a oportunidade de colar em praticamente todas as batalhas e um ponto importante que o Mc frisa, é que em praticamente em todos os eventos, os organizadores abriam um espaço para que outros artistas apresentassem alguma letra ou algum poema levando visibilidade à outras pessoas e reafirmando que no vetor norte da cidade, existem muitos que estão correndo atrás de viver de arte.

Dueni em apresentação da BRAIN no Bairro Copacabana em 2019 | Foto: Maria Emanuelle

Um exemplo de união em que quando as pessoas estão dispostas a trabalhar na mesma causa pode ter uma visão diferente foi a criação da BRAIN que segundo Dueni, o coletivo pode mostrar caminhos profissionais para os artistas do grupo.

Depois que a gente criou a BRAIN SAI, as coisas mudaram. Hoje eu vejo algo muito mais profissional e muito mais rentável comparando ao que era antes

Dueni

Ele acredita que os artistas da região vão alcançar grandes coisas na cultura da cidade. A certeza que tempos melhores virão é nítida na fala do Mc. Há muitas barreiras que aparecem na frente da construção de uma carreira artística e a maior é o dinheiro, acaba que atrapalha sonhos de alguém por que quando o dinheiro entra, a prioridade nem sempre é investir em música, mas sim colocar comida dentro de casa.

Posso ser bairrista demais por defender tanto a cultura de Venda Nova e a zona Norte de Belo Horizonte, mas o debate é super importante para o fortalecimento do Rap em si. Os anseios que a gente tem e as propostas de mudança, valem tanto pra cá quanto pra qualquer região da capital mineira. Seja Venda Nova, Norte, Barreiro, Centro Sul, Oeste, Leste, Pampulha, Noroeste e Nordeste. Já presenciei diversas vezes amigos meus sem 4,50$ pra passagem até o centro. O acesso a cultura que pra muita gente custa pouquíssimo, pra outras pessoas, valem muita coisa. É inaceitável que o lazer de alguém seja impedido por dinheiro! Por essas e outras, que a proposta de descentralização da cultura em Belo Horizonte é algo urgente e necessário ser apreciado pelos agentes culturais que detém um certo poder nos eventos da cidade.

Isso é Zona Norte, isso é BH! Nosso Rap tá forte, tô pra ver quem vai vir discordar.

Dueni na música Sufoco. Lançada em meados de 2018 com produção de Akin Ayo