DBS Gordão Chefe: Uma das figuras mais importantes do Rap nacional

Independente da sua idade, se você for um amante da cultura Hip-Hop e conhece a história dessa movimento em nosso país, com certeza já ouviu falar no mestre DBS Gordão Chefe, que é uma figura extremamente importante para a construção do Rap brasileiro.

Nascido em Carapicuíba/SP, Darci Braga de Souza, aderiu ao nome artístico de “DBS”, que é a sigla de sua identidade, e também a abreviação de seu grupo chamado Dinastia Black Social, fundado em 1992.


Conversei um pouco com DBS para saber qual foi a sua trajetória no Rap – que não é curta -, e como ele se sente nessa atual fase da música.

Com nostalgia, o rapper relembra como o seu primeiro contato com o Rap. “Tinha um DJ que chamava ‘Botinha’ na quebrada. Eu lembro de estar tocando o “Melô do patinho”, uma música que estava estourada no final dos anos 80. Quando escutei fiquei hipnotizado, fui na frente das caixas de som e pensei: ‘pô, é isso!’. Nessa época, no Brasil, as músicas americanas nós chamávamos sempre de ‘Melô’ de alguma coisa. Na verdade, essa música é do Mc Kooley ‘C’ e a canção se chama ‘Big D’, do álbum Our Time Has Come. Agora rap Nacional, a primeira vez que escutei, eu sempre me confundo se foi ‘A noite’, do Thaíde & DJ Hum ou ‘Nomes de Meninas’, do Pepeu. Foi uma das duas.”

Com apoio de grandes nomes do rap nacional, como Sabotage e KL Jay, DBS se destacou ainda mais no cenário depois de ser convidado para integrar a família RZO. Provavelmente você nem imagina, mas o rapper colaborou para composições de grandes álbuns do Rap, como “Evolução É Uma Coisa” de RZO, “Rap É Compromisso do Sabotage e “Antigas Idéias, Novos Adeptos” de Apocalipse 16.

Como influenciador de várias gerações, DBS explica como a Rap o influenciou. “Eu comecei como observador e apreciador da música. Então primeiro veio o entretenimento, com a dança e os bailes. Depois já veio uma parte política com algumas canções, com a questão de afirmação de você ser negro, principalmente com os Racionais, além de um grupo que me influenciou bastante, o Câmbio Negro, com o primeiro álbum deles ’Sub-Raça’. Essa questão do firmamento da sua cor e quem você é já acontecia lá fora, nos anos 70, mas no Brasil com a Ditadura Militar se prolongou e começamos a ter esse movimento e experiência no final de 80 e começo dos anos 90. Depois disso, eu despertei e deixei de ser ouvinte para ser uma voz ativa.”

Segundo DBS, mesmo sendo uma criança agitada e bagunceira, ele sempre foi bom aluno, porém por ser “negro, gordo e favelado”, tinha todos os aspectos para sofrer o tão temido “bullying” durante sua infância e adolescência. E para bater de frente com esses preconceitos impostos pela sociedade, o rapper começou a provar através de suas letras, que esses padrões estavam distorcidos. “Quis mostrar que o ‘gordo’ pode ser inteligente ou ouvir dos caras que faziam bullying que ‘ele mora no barraco, mas já viu as letras dele?’. É isso, dar um contraponto do que para eles é ruim. Esse contraponto é importante, em um mundo que seria comum os diferentes, mas as diferenças são massacradas. As composições vêm dessa forma.”

Quando se trata de composições, DBS é considerado um mestre das rimas. “No início da minha carreira, eu comecei a escrever já com o beat. Quando iniciei não tinha essa coisa de produzir em casa, YouTube e todas as facilidades. Você precisava ir na Galeria 24 de Maio, lá tinha uma 4 ou 5 bases e você cantava. Às vezes você ia cantar nos bailes e tinha um amigo que ia se apresentar e tinha feito uma música na mesma base que você, porque tinha alguns beats que eram bem populares”, relembra. Depois de um tempo, o rapper começou a se adaptar com as novas tecnologias e criar suas letras com mais facilidade ainda.

Sobre a evolução do Rap desde os anos 70 até o cenário atual, DBS considera que os anos 80 e 90 foram uma das melhores fases do gênero, graças a renomados grupos que são lembrados até hoje como Public Enemy e NWA. Para o artista, uma característica muito forte no hip-hop brasileiro é a mensagem politizada que foi expressada e destacada durante muito tempo através das letras, porém, depois de um certo tempo, o Rap fugiu um pouco desse padrão e também passou a ser considerado entretenimento. “Sei que os saudosistas acabam não gostando e reclamando, mas eu prefiro ser um cara que entende e faz parte das mudanças, pois acompanhei as diversas fases do rap e que, na minha visão, estão funcionando”, explica.

Você sabia que o hit “Qui Nem Judeu”, lançado em 2006 é considerado o primeiro Trap do país? “Conversei com vários diretores monstros que sempre comentaram que foi um divisor de águas em vídeo clipe, isso em 2008, quando lancei o clipe, a música foi lançada em 2006. Nunca imaginei que hoje iriam falar que é o primeiro trap do jogo. Na época tive algumas influências, como o Gucci no comecinho, e outras caras que são do trap.” Para o cantor, o Rap pode ser dividido em dois períodos, o primeiro é a fase onde o próprio DBS surgiu, junto com outros grandes artistas como Negra Li e Sabotage, e a nova geração, como Djonga e Raffa Moreira. “O mais importante é que está sendo dentro do que imaginei, com diversos estilos e todos tendo respeito pela minha história e quem eu sou”, ressalta.

A relação de DBS com a música é de amor e ódio. Durante sua infância, ouvia os discos de seu pai escondido, já que ele poderia brigar se visse, o que despertava uma certa “emoção”. De certa forma, o Rap mudou a trajetória da vida do artista, já que seus irmãos eram envolvidos com tráfico. “A música me colocou em um lugar seguro para ter minhas escolhas… O Hip-Hop sempre deu um porto seguro de maturidade, obrigava a pensar, coisa que outros movimentos não traziam, e colocava em um lugar seguro para as escolhas”, afirma. Já o outro lado – que é o ódio -, para o rapper a maior dificuldade é mostrar para a sociedade que você é capaz de se sustentar com a música, de fazer as pessoas levarem o seu trabalho a sério. “Na hora que o público precisa entender a sua música, interpretar que você é merecedor, que vale a pena pagar um ingresso para te ver, traz preocupações, mágoas, frio na barriga… A relação é amor e ódio!” (Risos)

O rapper também é bastante conhecido por misturar outros gêneros musicais com o Rap, por exemplo, em um dos seus últimos lançamentos “Antes das 6:00 pt. 2”, que conta com a participação de Péricles e Projota, lançado pelo canal do 1kilo. “É uma outra página da minha história que será contada. Eu sou fã da música e de vários artistas, eu sempre imaginei várias parcerias, e quando tive a oportunidade dentro do meu trabalho, eu fiz.” Além disso também relembra grandes parcerias que teve com Planet Hemp, Edi Rock (Racionais) e Black Alien na música “Sinto Muito, Baby!”. Outro grande trabalho foi o mix do Reggae com Rap, no som “Formando a Tribo”, com participações de Rael e Fauzi (Tribo de Jah).

Quando questionado sobre seus próximos lançamentos, DBS afirma que o plano é trabalhar na música em 360°, “isso quer dizer em várias vertentes, pensando no todo, são conceitos importantes a serem aplicados em uma carreira. Trabalhamos com a Manicômio Sonoro, vendemos mais de 80 mil cópias. Eu sempre trabalhei dos dois lados também, como executivo, produtor, músico… Isso sempre foi necessário para que pudesse lançar meus trabalhos”.

Em seu escritório, DBS trabalha com artistas de funk como PH da Vila, Neguinho da VL, e agora estão procurando homens ou mulheres dentro do Rap para integrar a equipe. “Continuamos firme também com a nossa parceira com a Ugangue. Sempre estarei focando na minha carreira.”

Em participação com MC Mala,, DBS Gordão Chefe lançou seu último trabalho, “Tô na Bala” Produzida por Mortão VGM: