BK, Scalene, desarmamento e público

BK anunciou no decorrer da semana que sairia uma colaboração com a banda brasiliense Scalene. Na sexta-feira, dia 29, saiu o lyric do som que conta com a união do rap e do rock nacional. A primeira orelhada pode soar estranha, mas depois de ouvir com mais atenção é possível perceber as diversas nuances sobre o que se trata a música e a colaboração dos dois artistas que vem de uma cena do underground para a ascensão. Não é atoa que ambos irão tocar no Lollapalooza Brasil, um dos maiores festivais de música do mundo. A música se chama desarma e traz um posicionamento e uma mensagem muito importante para o Brasil que estamos vendo e vivendo.

Eu particularmente achava que o som seria mais dividido entre os dois artistas quanto a questão dos vocais, mas é BK quem cospe suas linhas em cima de uma base de bateria e guitarras distorcidas, enquanto o vocalista da banda Gustavo Bertoni fica por conta do refrão.

Vivemos uma discussão muito forte no Brasil e no mundo sobre a questão das armas de fogo. Infelizmente, estamos dentro de um contexto onde o Presidente da República é abertamente a favor da ditadura, tortura, do aval para matar das PMs e do armamento civil. Existe a bancada BBB no nosso congresso, do Boi, da Bíblia e… da Bala. Sabemos também que família Bolsonaro é, em algum grau, ligada a milícia. Ao mesmo tempo, ao redor do mundo, vemos acontecer diversos massacres com o uso de armas de fogo. Aqui no Brasil teve Realengo, e mais recentemente Suzano. O Brasil também tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo de acordo com a Organização Mundial da Saúde em 2018. Se quiser saber mais é só clicar aqui. Isso tudo sem o facilitamento da posse de armas. E fica os questionamento, até onde ter uma arma em casa ajuda efetivamente na nossa segurança? Qual é a prova de que não viveremos um verdadeiro bang-bang nas ruas? Como se as favelas, as ruas, já não vivessem. A quem beneficia o armamento tanto civil quanto militar? São questionamentos que ficam no ar para a gente pensar. Clique aqui e saiba mais sobre o tema.

É importante quando o artista se posiciona no meio do olho do furacão. BK sabe da dura realidade das ruas, onde está o povo. A música traz versos diretos e fortes.

Eles vão matar mais inocentes 
Com a desculpa que na guerra 
Sempre morrem inocentes (…)


Se as armas libertassem 
A fábrica da Colt era o jardim do Éden

Um dos argumentos de quem é pró-arma é de que existe um alto grau de violência nas ruas. De fato, existe. Mas as armas não aumentariam ainda mais a nossa violência? Mesmo que tentem mascarar isso, o Brasil vive em constante guerra civil, é guerra nas favelas, é genocídio de negros e mulheres, é a milícia comandando um país inteiro. Há uma onda de medo que prejudica a população e beneficia os políticos e mais ricos desse país. Esse medo é criado por essas pessoas para vender armas, drogas, entre outros. A violência só faz gerar mais violência. Sem contar que esses discursos só legitimam mais ainda a militarização do povo, e quando as mortes acontecerem eles vão fazer como BK fala nos primeiros versos.

O problema não é ele falar que é a salvação 
E sim acreditarem nisso 

A raiva rasga, mata e cala 
A morte paira ali com você 
A vida cai, desgasta e fala 
Que arma, que arma, que arma, que arma o quê? 

BK toca num ponto muito importante e me faz lembrar quando ele cantou que falsos profetas iriam vir, mas só o fortes iriam ver o inverno travestido de verão. Muitos de nós tememos quando a figura de Jair Bolsonaro despontava como forte candidato a ser o presidente do nosso país. O que talvez a gente não imaginava era que tantas pessoas pudessem seguir essa figura odiosa, preconceituosa e burra. Seus discursos de ódio deram legitimidade para que a violência crescesse no Brasil, e a morte que talvez seja mais reflexiva disso foi a de Moa do Katendê. O capoeirista baiano foi morto não muito tempo depois de Bolsonaro falar em metralhar a petralhada.

O refrão é cantado por Gustavo Bertoni, vocalista da Scalene, mas sempre com o BK falando ao fundo. A mensagem do refrão me lembrou muito o ataque em Suzano, o provável ódio que os assassinos carregavam e que levou à morte deles próprios, e pior, das outras pessoas da escola. Esses ataques pelo mundo abrem discussão pra um tanto de questões. Gênero, bullying, raiva, armas, entre outros são temas que estão envolvidos nessa onda de assassinatos. É durante a nossa infancia que aprendemos a sermos assim, leia aqui E a vida se esvai enquanto pessoas acreditam que combater o preconceito, o machismo nas escolas é “ideologia de gênero”, é coisa de “esquerdista”. Creio que a escola é o local onde mais se reproduz esses aspectos da nossa sociedade, gerando um ciclo vicioso de ódio e preconceito. É preciso lutar contra toda essa toxicidade e a forma mais efetiva é através da educação. Nosso ensino continuará sendo sucateado enquanto pensarem que escola é só aprender português e matemática, formar e ir trabalhar para enriquecer mais ainda os grandes empresários desse país. Precisamos sair da lógica do mercado. Será que eles querem que isso aconteça? A gente não precisa de mais armas nas ruas, é preciso até pensar se a nossa polícia tá preparada pro uso delas.

Para alguns o barulho de uma arma soa como algo bom, potente, para outros é só o reflexo do medo. BK canta essa realidade, a mãe que reza para que nada aconteça com o seu filho la fora enquanto a bala ta comendo solta na favela. A gente não pode esquecer que também morre quem atira, nessa guerra morre inocente, policial, bandido, morre o povo. Não precisa ser um gênio para perceber essa realidade.

Eu olho pros meus 
Que não querem migalhas 
Mas é tudo que eles dão 
Uns falam sobre merecer 
Meus manos não sabem o que é ser 
Nem o que é ter 
Toda a vez que tu fala que é mimimi 
A bala vem de você

O rapper carioca é muito lúcido em abordar questões como meritocracia e vitimismo. Discursos que andam de mãos dadas, pois dizem que vivemos em uma meritocracia, logo falar em racismo, em cota, seria se vitimizar. Alto lá, vivemos num país com dimensões continentais, o desemprego chegou a porta de mais 12 milhões de pessoas, a desigualdade entre o nosso povo é gigante, sem falar nos mais de 300 anos de escravização dos negros. Ai vem uma turma com o argumento mais raso que um poça (acho que uma poça é mais profundo) de que é “mimimi”. A divergências de ideias é super normal e instiga o debate, mas pelo menos dialogue com coisas reais, com fatos. Quando um jovem negro não tem as mesmas condições de um jovem branco por exemplo, não vivemos em um país meritocrata. Não podemos analisar essas questões deixando de lado toda nossa história e contexto atual. Então, quando a gente usa esse tipo de justificativa rasa, a gente também ta apontando e apertando esse gatilho.

Por fim, fica uma reflexão sobre a junção de um artista do Rap e outro do rock. O Rock, principalmente o nacional, já foi “maior” do que ele foi, mas o público que envelheceu ouvindo esse gênero e os próprios artistas se tornaram, ou sempre foram, uns grandes duns reaças. Há bandas fazendo coisas diferentes e se posicionando na cena underground, a Scalene é uma dessas. Mesmo assim quando saiu a faixa com BK alguns comentários dos fãs diziam que a Scalene tinha “mudado”, logo em seguida a maioria se manifestou comentando que a banda de Brasília sempre foi politizada. Lógico que ter um artista como BK, negro, oriundo da favela, do rap, cantando as coisas de forma mais direta e da sua perspectiva é diferente, incomoda mais. Fica o questionamento se uma parte do público, isso vale até para o rap, não está só ouvindo o instrumental e deixando de lado a mensagem que está sendo transmitida. Em tempos que se acredita em rap de direita, é importante pensar na parcela de “culpa” que o público tem. O Rock passou por esse processo de reacionalização e estamos vendo que está difícil de sair essa mancha. Olhando por outra perspectiva essa junção foi interessante de ser ouvida, o rock tem uma vertente muito contestadora que vem do blues e do punk. A colaboração no meio musical é muito esperada e interessante de ver, principalmente quando rola entre diferentes gêneros ou gerações. Além de tudo, cada público fica conhecendo um novo artista, é uma via de mão dupla. BK você é brabo. #Elenão