[Entrevista] A’s Trinca, a inspiração em Maria Bonita e a ascensão do rap brasileiro

O Rap vem crescendo e se mostrado um estilo de música cada vez mais forte, popular e ao mesmo tempo ainda enfrenta diversos preconceitos. Com muita garra e representatividade as mulheres vem diariamente quebrando tabus, ocupando seu espaço e sendo voz através de muita luta.

Com letras onde expressam suas ideologias e a valorização da mulher, direto da cidade de Tiradentes, zona leste de São Paulo,  A’s Trinca iniciaram sua trajetória no ano de 2012 mas já carregam muita história e experiência desde 2000. “Trinca de AS” foi o primeiro EP lançado pelo grupo, junto ao clipe da música “Agressora”, que rendeu o prêmio de melhor clipe de Rap em São Paulo em 2013 pelo site Noticiário periférico.

O grupo é fundador do “Coletivo Mulheriu Clã” e participa do projeto “Divas dos Hip-Hop“.  A ideia por trás da “A’s Tricas” é unir e valorizar as mulheres do movimento, que em sua maioria  ainda não conseguem se expressar e vivenciar um espaço igualitário para divulgar o seu trabalho e mostrar que o microfone é um instrumento das suas lutas.

Com NayLopes, KelFidelis, NinaJuh eX-Jay, o  grupo é formado por “três minas no vocal e um DJ no vinil” — como diz o trecho da musica  “Se Identifica”, lançado em 2015 através do RAPBOX.

Desde então, as minas vem se destacando como parte da nova geração de mulheres no rap brasileiro, ganhando em 2016 o prêmio Sabotage na categoria melhor mc. Trocamos uma ideia com o grupo sobre alguns temas, entre eles a expansão do rap brasileiro e a busca pelos seus direitos, onde descobrimos que o grupo possui forte inspiração em Maria Bonita, e seu esposo, o Lampião.

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RND: Em meio a tanto estilos, porque o Rap?

A’s Trinca: Nascemos e fomos criadas na Cidade Tiradentes, tivemos nossa adolescência na década de 90, onde o Rap imperava no nosso bairro. Assim, tivemos diversas influências e enxergamos no rap a oportunidade de expor as nossas ideias sem sermos censuradas, pois o rap, naquela época abordava temas que pessoas periféricas como nós vivíamos no dia a dia, diferentemente de outros estilos musicais. Hoje em dia, o rap está mais aberto para falar sobre qualquer tema e essa é a liberdade que o rap trás desde aqueles dias, até os dias de hoje é que nos representa. Queremos ter a liberdade de abordar em nossas letras todos os tipos de temas. O rap tem sido nossa vida, onde acordamos, comemos e dormimos respirando rap, trabalhamos 24 por 48 nisso e não é apenas em dias de shows, existe todo um trabalho no dia a dia, sendo realizado através do rap em nossas vidas.

RND: Diversas mulheres em nossa história como Maria Bonita e Frida Kahlo tem uma forte representação na luta do posicionamento e fortalecimento social das mulheres. Vocês se inspiram em quem ou o que para escrever suas letras e lutar diretamente pelos seus direitos?

A’s Trinca: “Na história de Maria Bonita, Lampião, que até então não era seu esposo, ao conhecê-la fez o pedido para fazer efetivamente parte do bando de cangaceiros, assim se tornando a mulher dele, com quem viveria por aproximadamente oito anos. Maria morreu em guerra, degolada, ainda viva, assim como Lampião“. Diante desse resumo, pode-se notar o que nos inspira. Não é somente a luta da mulher e sua representação, mas também a união entre o esposo e a esposa, entre o homem e a mulher. Ela foi uma mulher forte no meio de vários homens, mas foi com eles que ela ficou até o final, até a morte. Essa deveria ser a verdadeira essência do feminismo, do hip hop e é nisso que a gente se inspira, na IGUALDADE de gêneros, onde um caminha com o outro sem distinção de sexo, estilo, crença e afins.

capture20160331225556518RND: Em alguns sites, recentemente foi divulgado que o rap nacional é o estilo mais popular e que atualmente mais cresce no país, principalmente fora das periferias. Algumas pessoas enxergam esse crescimento como algo negativo, principalmente em quesitos de desvalorização ou temáticas que não se relacionariam com o rap. Como vocês enxergam a expansão e a popularização do rap?

A’s Trinca: Recentemente vimos uma entrevista de um dos maiores da música brasileira, Rick Bonadio, onde afirmou que o rap será o próximo estilo musical a dominar a cena da musica Brasileira. E realmente é o que aguardamos que aconteça, o rap tem muito conteúdo para apresentar ao nosso povo, como citamos anteriormente hoje em dia ele está aberto para falar de diversos temas. Não enxergamos isso como algo ruim, e sim como algo bom para expandir a mensagem que estamos cantando. O rap sempre pregou a liberdade de expressão, agora estamos conquistando essa liberdade e não podemos ser calados pelo próprio rap.

RND: O Rap nacional sempre se mostrou um movimento dominado por homens, mas a algum tempo as mulheres tem conquistado o seu merecido e bem representado espaço. Rappers que chegam a ter repercussão nacional equivalente a qualquer rapper homem, como Negra Li, Flora, Karol Conká. Como vocês enxergam o espaço da mulher dentro da cena do rap nacional atualmente?

A’s Trinca: Quando iniciamos no rap no ano de 2000, não era como hoje, as únicas rappers que tinham reconhecimento eram do grupo Visão de Rua, hoje, muitos lembram apenas do nome da Dina Di, naquela época foram elas quem conquistaram espaço nessa “cena masculina”; e se era difícil o espaço para uma mulher, imagina para duas ou um grupo. Isso é o que acontece no nosso caso. O espaço na cena hoje em dia está muito mais amplo, existem diversos tipos de eventos, projetos e propostas para Mulheres e ainda existe muito para ser conquistado, sem dúvidas nenhuma. Se analisarmos a pergunta acima, apenas 3 nomes de rappers femininas foram citados e se fossem nomes masculinos, não caberiam todos nessa entrevista.

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RND: Muitas rappers tem escrito músicas com o intuito de acabar com os estereótipos, combater o machismo e atuar principalmente no movimento de empoderamento feminino. Como vocês enxergam a relação do Rap com o Feminismo?

A’s Trinca: O Rap sempre foi forte em sua liberdade de expressão, sempre foi e é uma fonte de luta da periferia. E porque não usar essa fonte de luta em diversas causas? O rap e a luta caminham juntos, abordam temas sociais do dia a dia do ser humano, assim, se torna natural a Mulher abordar temas como esses em seus raps.

RND: A Curto prazo, quais são os projetos de vocês para esse ano de 2016?

A’s Trinca: Projetos temos muitos, infelizmente não existe tempo hábil e grana para realizar todos (kkkk), pretendemos lançar nosso álbum, lançar mais videoclipes, fazer algumas parcerias.

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