As incríveis trocas de protagonismo nas faixas “Trindade” de Ogi

Ano passado saiu o “RÁ!“, álbum do Rodrigo Ogi com produção do Nave. Produção cinco estrelas, da capa até o fim da última música. E dentro dessa obra impecável, o que mais me impactou foi, com certeza, “Trindade“.

Essas músicas são foda. Não só pelas maravilhosas construções e levadas do Ogi, mas pelo fato dele transitar com maestria entre vários personagens narrados em primeira pessoa. Passei muito tempo brisando nessa letra e finalmente consegui desenvolver uma ideia concisa sobre ela. Rodrigo Ogi assume o eu-lírico de várias perspectivas diferentes e constrói personagens profundos que interagem entre si. O elemento que determina a transição entre eles é, acredito eu, quando eles interagem ao mesmo tempo que está envolvido aquilo que os move (um bom exemplo é o dinheiro). Então convido a tu que tá lendo esse texto a brisar nesse som. Abre aí a música onde você tiver e bora junto!

Essa música começa na faixa anterior, depois que acaba “Correspondente de Guerra”. Os interlúdios que servem como espinha do álbum amarram as faixas através dos íntimos pensamentos que Ogi troca com um psicólogo. O que antecede “Trindade” diz o seguinte:

Nós somos facetas de um Deus de muitas caras. E não há impressões digitais iguais, doutor. Eu sinto que é como se tudo que eu visse, eu absorvesse, sabe? E isso faz eu me sentir possuindo vários impressões digitais, várias sombras. E eu confronto essas sombras. E a inquietação disso me assombra — Me fala mais sobre isso.

Trindade 1

O eu-lírico é um taxista que sai por aí na bandeira dois, no corre de dez merréis. Ele pega um cliente de semblante que fazia que lembrasse um cadáver ambulante e o leva, primeiro para um bar onde ele provavelmente compra droga:

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À frente, pediu pra eu parar
Trem tremelique, saiu no pique
Tem tique, pediu que eu fique por lá
No boteco sujo demais, onde gente entra e sai
Em sete minutos, vai e volta no gás, ó, Pai

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E depois para uma festa (com a Ju, o Raul e levando o azulzin). O tempo todo a narrativa em primeira pessoa olha da perspectiva do taxista, até que o dinheiro passa de uma mão para outra e ele encarna o viciado:

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Ao destino, eu cheguei e a corrida foi boa pra mim
Eu peguei o dinheiro
E agora me sinto um cadáver com calça de brim
Pelos fundos da casa, entrei, sem ninguém me notar
Num corredor escuro, andei, então, a festa eu pude alcançar

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Trindade 2

Ele. Chegou. No baile. E foi comprar uma bebida com um barman que parece o Felipão. Provavelmente ele pagou a bebida — ou o que o move nesse caso é o vício, e ele pega um Campari — e então se vê de bigode. Virou o barman. Se vê no espelho. E serve um bloody mary para uma loiraça. E vira a loiraça. Interage com uma ~cocotinha~ pinel de cabelo chanel que usa um anel — lhe rouba um beijo. Talvez o que as mova nessa hora não seja o dinheiro ou o vício, mas o desejo.

Ela é abordada pelo cara que ela via outra vez, que a entrega um papel — no videoclipe o papel é uma cédula enrolada para cheirar pó, mais uma vez o dinheiro e a droga envolvidos na troca de perspectiva da narração. Ele se vê então altão como o Lebron, no seu bolso cinco pinos e um maço de carlton e na jaqueta tem grudado um Bruce Lee no bóton.

Aí o coro come. Ele percebe dois estranhos que o notam. Delfin e seu parceiro. Começa uma perseguição que termina na morte do cara que então era o eu-lírico. Outra vez a perspectiva passa de um personagem pra outro quando os dois se relacionam entre si e com a presença de droga e dinheiro. A segunda parte termina assim:

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Perdi mercadoria e dinheiro e de repente em um beco meu fim vi
Apenas um clique. PÁ! Um clique. PÁ!
O clarão do cão foi realmente a última coisa que eu vi PÁ!

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Barulho de batimentos cardíacos cessando; Um carro sai cantando cantando pneu com Delfin e seu parceiro dentro enquanto uma mulher grita desesperada.

Trindade 3

Eles seguem em frente, nem abalam a mente e hoje vão dormir de boa. Um dos policiais é o eu-lírico. O outro usa a cocaína que eles pegaram do cara que eles acabaram de matar. Usa tão loucamente que seu nariz começa a sangrar. O eu-lírico então pega um táxi (o mesmo ambiente onde a história começou — vsf Ogi, tu é muito bom mano) e a perspectiva desse cara se encerra quando ele paga o taxista. O que move os dois nesse momento é o dinheiro. Essa transição se dá no trecho mais foda de toda a história:

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Mas a maldade o bem coage
Isso em mim reage, fúnebre o traje
Pro táxi encostar pedi, paguei, desci
E me senti careca gordo num Voyage

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Esse taxista de sotaque hispânico sente a vibe pesada do policial que ele levou e que matou alguém: “e o cara que eu deixei tinha el espírito caveira/ Que energia negativa…” E aí aparece o primeiro personagem movido por algo diferente de dinheiro, droga ou tesão: ele chega em casa e corre pra ver como seu moleque tá. Dessa vez a transição não se dá quando alguém a) recebe ou rouba dinheiro; b) usa ou recebe ou rouba droga; ou c) rouba um beijo. A transmutação do eu-lírico rola num ato de amor, quando o taxista beija seu filho que dorme feito um anjo e se conecta ao mundo das crianças.

Aqui o bagulho muda de feição totalmente e nesse final Ogi mostra sua maestria pra construir narrativas, colocando o rap entre um filme surreal e uma HQ dinâmica. Até então o eu-lírico que transitava pelo mundo sujo de adultos movidos por dinheiro, drogas e desejo entra nos sonhos de uma criança. E o que move uma criança é sua imaginação. No sonho, um cachorro lambe sua cara e, WOLF WOLF, o eu-lírico vira o cachorro.

O cachorro vê uma gatinha num telhado. Então começa um puta cena onde o eu-lírico observa a gata e a rata em combate, ambas movidas pelo instinto de sobrevivência. A gata quer comer e a rata quer não virar almoço. Elas brigam com combos de ciclope e Atektektukens até que a rata entra em um cano (e corre muito para não virar hamburguer). O cachorro tenta atacar a gata mas, estabanado, é atropelado e jogado num matagal.
Antes dele desmaiar, aparece mais um animal movido por instinto que provoca mais uma mudança. Em cima do cão moribundo, um corvo velho lhe bica a testa e voa. Brincando com a narrativa Ogi termina a música num tom cinematográfico e sobe ao céu feito um balão de gás hélio.

Pelo ar a flutar. Sobrevoando eu vejo a multidão“. Só imagino um quadro que vai se abrindo, mostrando cada vez mais uma cidade e seus milhares de personagens complexos, que interagem entre si a partir daquilo que move cada um.