A dialética em Victor Xamã

É patente que Victor Xamã é hoje um dos melhores artistas do rép nacional, e que vem consolidando sua posição com seus últimos trabalhos. O emici e produtor manauara, é o principal representante da cena da região Norte, ainda muito invisibilizada no mainstream nacional. A qualidade nos versos e nas produções, e o sentimento dialético, talvez sejam os principais motivos de seu destaque, que busca construir imagens locais que escapem aos estereótipos que impregnam a imagem do Norte.

Seu disco de estreia, Janela (2015), apresenta o artista como um ser sensível, em um álbum repleto de elementos locais, como a abundância da água  — que serve de metáforas em variados versos —, a mata e a cidade grande. Nesse disco, o emici busca se apresentar como um talentoso artista, repleto de habilidades técnicas, rimas internas e versos dialéticos que serão ainda mais comuns em seu trabalho posterior:

O cinza dessa cidade mescla com o verde da mata
As cinza do meu cinzeiro eis de me matar, eis de aliviar a dor
Suor cai no asfalto
Nesse dias quentes o meu coração aperta
Sinto teu calor teu cheiro
E lembro das pétalas da rosa branca
Que encontramos no chão largo

VE,CG (2017) — verde esmeralda e cinza granito —, seu segundo disco, constrói a imagem de um eu lírico que foge de simplismos. Ao se caracterizar como uma contraposição de ideias, VXamã constrói sua identidade dialética, observável no nome do artista, das músicas e na capa. Ele é ‘desenfreado e tranquilo’, é o ‘encontro das águas’, é a ‘pele cabocla’ que cresceu na cidade em que:

O caos abraça a tranquilidade, amor
Na cidade onde cresci
Isso te explica um pouco quem eu sou
Desenfreado e tranquilo

Esse é o local intermediário onde Victor se localiza. Entre a necessidade de modernização defendida pelos discursos capitalistas e os resquícios de modos de vida tradicionais, parcialmente destruídas pela ideia do progresso. A sensação é muito característica de sociedades terceiro mundistas em que o período colonial e o posterior mito da modernização caem por terra, se revelando projetos fracassados que alienaram populações de suas tradições e integrando-as na periferia do sistema capitalista.

O audiovisual de Verde Esmeralda & Cinza Granito, lançado em 2019 e dirigido por Isa Hansen, é um belo jogo de imagens e cores que ilustram essa percepção de quem vive na periferia da periferia do capitalismo.

Já em seu último trabalho, o EP Cobra Coral, o letrista encontra a iminência de novo polo, o cinza granito, dessa vez acentuado. Ao descer de Manaus para São Paulo, “da cidade que não faz frio até a cidade da garoa”, o artista busca retratar o processo de adaptação em sua nova cidade evocando a imagem da cobra coral. O ritmo da cidade causa estranheza ao artista por sua velocidade, seu tempo e ritmos acelerados. Na faixa San Pablo, os hi hats soam como os ponteiros do relógio que comandam as experiências da grande metrópole sempre apressada, pouco comunicativa, pouco viva. Afinal, “a multidão é um monstro sem rosto e coração”. Aqui deixar “de lado a pressa desse cinza, cinza granito” e encontrar o equilíbrio é mais difícil.

Entretanto, Victor não perde seu norte e a rotina mecânica não o mata. Mesmo com as vias de comunicação fechadas, as veias da região conseguem irrigar outras regiões com águas do Rio Negro e flores tropicais em fuego. O produto e suas camadas, evidentemente, não são para “consumidor preguiçoso”.

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