A tão esperada continuação da vida de Axel Alberigi

Após quase 6 anos de espera, chegou as ruas o novo disco de A.X.L, a continuação de ‘A Vida de Axel Alberigi: Antes de Tudo‘, lançado no final de 2014. ‘A Vida de Axel Alberigi, Parte II – Tudo de Novo‘ -, tem inicio a partir de ‘Cela Sete‘, onde o pai de Axel está novamente nas ruas e pronto para tomar o bairro de volta.

A liberdade é um fato que, principalmente neste contexto, é questionável, já que, como será narrado no decorrer do disco, ainda que livre, o pai de Axel parece mais do que nunca preso a essa vida e suas repetições, preso a seus inimigos e prendendo quem está a seu redor nisso tudo. Descobrimos que a liberdade após ‘Cela Sete‘ é simplesmente ilusória e tem um preço alto, podendo custar desde a segurança, a estabilidade da família até mesmo a vida de terceiros.

No segundo volume do projeto, Axel apresenta um nível de narrativa ainda mais concreta, o que coloca o ouvinte praticamente dentro do que está sendo cantado, a partir de diálogos, pensamentos e as clássicas inversões de papéis que já existiam também em Antes de Tudo. Com uma caneta que mais parece uma câmera, o MC traz detalhes da vida bandida que lembram histórias cantadas anos atrás por Brown, a escolha dos instrumentais, principalmente os boombaps sujos reforçam ainda mais essa característica.

A Vida de Axel Alberigi, Parte II – Tudo de Novo

Com elementos sonoros que vão além da música, como toques de telefone, tiros, sons de insetos que parecem enormes, buzinas, é redundante falar sobre a qualidade cinematográfica que Axel traz nos dois volumes do projeto, tanto na narrativa quanto na interpretação, característica esta que, no segundo volume está representada também no visual, com uma capa que remete muito a filmes de gangster dos anos 70.

Meses atrás, antes de “reiniciar” o Instagram, o MC de Jacareí postou uma foto de “The Godfather 2” no story anunciando o segundo volume da trilogia, que, por sua vez, também traz em seu enredo arapucas, jogos de poder e questões familiares. Aqui não temos personagens, mas histórias que se situam em algum lugar entre o mal e o bem. 

Agora somos apresentados mais efetivamente ao pai de Axel, ao ponto de este quase ganhar um rosto, um nome. Conhecemos seus anseios, suas preocupações e as atitudes que é obrigado a tomar, porém, na mesma medida, o inimigo também se aproxima e leva consigo a face de Juninho na mira. Inimigo este que agora é desconhecido – “Já não sei (…) se é policia ou se é bandido” – e parece estar sempre de campana, pronto para atacar. A faixa 8, ‘Histórias Perdidas‘, que soa como um flashback, um extra, traz a tona histórias do Pai de Axel, o qual é citado quase que como uma lenda, com esplendor, e contribui para entendermos um pouco mais a personalidade, a vida que levava.

Contracapa de ‘A Vida de Axel Alberigi, parte II: Tudo De Novo’

O corre nas ruas, uma caminhada espiritual, tomar o mundo, perder o bairro, pisar de volta onde tem de sair buscando lugares cada vez mais longes; o ponto onde não há mais retorno é o mesmo onde tudo se repete, tudo de novo e de novo, sem interrupções, sem tempo pra erros.

Os dois lados da moeda estão em cheque em um embate que pode custar caro e são apresentados logo ao inicio, em ‘BIG FI$H‘ – que representa o glamour, o poder, os frutos e as consequências de se ter o nome que tem – e ‘Marimbondo’ e ‘Mamangava‘, as faixas que sucedem, mostrando o outro lado se fortalecendo e crescendo os olhos, obstinado a acabar com isso tudo.

No centro de toda a história temos o jovem Axel, até então uma criança, assistindo de perto o que poderia estar em um filme que passa na TV ao final da noite. Silenciado por um sentimento que grita, o menino encara junto com o pai as consequências de seus atos, assim como quando foi visita-lo na cadeia, história contada em ‘Aquela Noite‘ faixa do disco anterior.

Pensando em um monte de coisa que eu não consegui falar
Axel, por que você se esconde e de quem?
Saímos dali, tá tudo bem
Tenho pouco tempo
Tô confuso por dentro
Tão simples e tão difícil falar o que eu sinto
Que me parecia impossível
E naquele dia eu não falei
E naquele dia eu não falei
Achando que teria outra chance
A partir de agora, nada será como antes
Aproveite cada instante que tudo vai mudar

A.X.L em ‘A Maldição do Dragão’

Se palavras faltaram em algum momento, hoje são proferidas com maestria por Axel, que encontra na caneta o necessário para “aparar estas arestas”. Com uma lírica rica em imagens não só concretas como abstratas, é interessante a forma com que o artista fala “as bocas de lobo estão com sede“, em ‘Nada de Novo‘, como se o anseio do inimigo fosse estritamente da natureza, comum, algo inerente a esta vida de crime e que aconteceria em algum momento, ou também como o MC transforma a cidade de Jacareí em um cenário de filme policial.

São em ligações telefônicas repentinas os picos de maior tensão do disco, anunciando o início e o fim da caçada. É também em uma chamada um dos pontos mais marcantes da trama, a despedida de pai e filho aos berros, entre perdões e juras em meio a uma ameaça, ministrada com excelência por Axel em sua interpretação;

Axel, sai daí agora!
Arruma as coisas e vai embora!
Faz as mala, entra com sua vó no carro
Pega a estrada e não para!
Eu não confio mais nesses cara
Pai, me dá uma arma
Eu te ajudo
Filho, te juro
Vou resolver, só com vocês me preocupo
Vai, te prometo
Vai dar tudo certo
Segue o endereço
Sua vó tá com dinheiro
Me escuta
Tenho pouco tempo
Me perdoa
Faz boa escolha
Tenho que desligar
Eu amo você tá?
Assim que resolver eu vou pra lá
Acabou de começar

A.X.L em ‘Nada De Novo’
Capa de ‘Histórias Perdidas’

O projeto soa como uma memória também para os ouvintes, em decorrência da imersão, riqueza de detalhes e a forma com que o tempo –subjetivo – é apresentado na narrativa, onde, em um primeiro momento parece se passar tudo de um modo repentino, abrupto, quase que contingentemente, enquanto em um segundo ato, em ‘Guatemala‘, há um corte ao qual não se sabe ao certo sua duração e também são narrados fatos que parecem distantes, longínquos e duradouros, porém de maneira rápida.

Vivenciamos parte da história sob a pele de Axel e seu pai, história esta que parece ter um fim ou uma guinada quando o MC canta “Nada como um dia após o outro/ O mundo vai começar outra vez/ Antes de Tudo/ Tudo de Novo”, após o retorno do seu pai ao Brasil e novamente a partida, desta vez para os desertos do Texas – Após a ‘Maldição do Dragão‘, penso que aqui, o deserto também pode significar uma caminhada pra dentro, uma mudança interna.

Mudança esta que, só ficaremos sabendo com o lançamento do encerramento da trilogia de ‘A Vida de Axel Alberigi‘ – que como o próprio MC pontua, quando questionado sobre a sequencia de seus álbuns, sua vida continua, e continua todo dia -, porque o Vol. II logo termina com uma nova versão da faixa ‘Será Doce Morrer‘, com um novo take e guitarras de pai guga, onde o MC descreve sua relação com a mãe, que até então pouco aparecera nos discos.

Incrível como Deus usa suas peças
De um jeito que dá certo, use a chance que tem
São histórias complexas
As linhas se tornam disléxicas
Tem muitos extras
E agora que tudo começa
Tudo Mudou

A.X.L em ‘Guatemala’

Fruto do isolamento social, o disco foi lançado na meia-noite do último dia 25, estando disponível no YouTube e nas demais plataformas digitais, com instrumentais de k l vt, Coyote, Entidathe, Martché e o próprio A.X.L. Com participação de pai guga e scratches por DJ Cost, o disco conta com mix/master por Mendz e é uma realização da RUADOFLOW.

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