Roteiro de um prólogo, um clímax e um epílogo por Don L

Tornou-se frequente as produções influenciadas pela quarentena ou feitas durante este período com a intenção de retratar todas as implicações do isolamento. Extremamente válido, quando entendemos que a arte é fruto das vivências somadas as sensações particulares de quem a faz. Porém, muito tem se encarado esse momento e todas suas consequências como algo inédito, contextos até então nunca vistos. Bem, nem tanto, a periferia continua saindo pra trabalhar, a polícia continua matando, a depressão e solidão continua assolando a juventude e ainda temos um bossal na presidência. A pandemia é apenas mais uma das pautas e uma potencializadora de todas as agendas sociais e políticas que sempre nos preocuparam.

Nem sempre percebemos as nuances de tudo que tá acontecendo, mas existem exceções. Quem consegue, apresenta-se como “atemporal“, por desde anos atrás conseguir definir bem o que rola em nossa política, sociedade e até mesmo no rap. Nada melhor do aproveitar os 3 anos do lançamento de “Roteiro Para Aïnouz, Vol.3” do Don L, para falar um pouco de quem tem um dos melhores feelings relacionado às conjunturas mundanas.

Gabriel Linhares da Rocha (Don L) é dono de uma das histórias mais majestosas (em todos os sentidos) impressas dentro do rap nacional. Saindo de casa aos 16 anos para a Favela do Marrocos em Fortaleza, dando início a sua caminhada com o Costa a Costa em 2005, ao lado de Nego Gallo, Berg Mendes e Flip Jay, colocando o nordeste no mapa com “Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa“ e seguindo sua prolífica carreira solo, a vida de Don é marcada por transições. Entretanto, cada um desses ciclos carrega bagagens construídas por seu passado. A famosa experiência, sabedoria e sagacidade, de quem consegue enxergar além do que vê. A mixtape “Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L” (2013) já trazia o conceito de que viver tá mais do que na rotina, sendo na real, pautada na liberdade e na verdadeira sensibilidade dos corpos e sentimentos. Ordenada principalmente pelo presente, a mix tratou muito do agora, de sentir o momento, porém sem se render ao imediatismo. O propósito era criar imagens de alguém que participa de maneira ativa desse rolê chamado vida.

Já em seu EP lançado em 2017, o MC procurar relatar de uma maneira mais vasta sua essência. Levando cada vez mais em consideração as marcas deixadas pelas metamorfoses da sua vivência, Don tratou de ser um observador detalhista, que brinca com o tempo e acontecimentos que vivenci(a)ou. Este conceito tem seu início no próprio título do trabalho, sendo o último volume de uma trilogia apresentada do fim ao começo. Engraçado perceber que mesmo assim Don L consegue falar do agora, iniciando a saga de onde encontra-se no momento, para depois dissertar sobre sua caminhada pregressa. Surgindo como um agente do caos, o espaço/tempo não importa para ele, esse é o lugar em que relata suas frustrações, vindas da atenção com que observa o mundo e consegue refletir os contextos em que se insere. O êxodo de quem sai do Nordeste em direção ao eixo, e como já não bastasse, tem que lidar com isso dentro e fora do rap e ainda necessita encontrar um direcionamento mental, físico e espiritual são uns dos atravessamentos do trabalho.

O descontentamento de quem já viveu bastante e compreende as construções sociais dos lugares que percorreu constroem o diferencial de Don L. Sabendo apresentar as nuances da sua maturidade e juventude, o rapper nos leva nessa viagem que resgata elementos passados e constrói uma visão influenciada pela vida presente. Uma alimentação continua da arte, vinda pelo anseio do amanhã, um aproveitamento do passado e intensa valorização do agora.

De forma prática já vemos isso na primeira faixa do EP, “Eu Não Te Amo“. Aqui temos acesso ao entendimento que Don tem da cena do rap nacional e sua relação com o mercado da música. Entretanto, essa relação arte e capital flui para além do campo das produções e refletindo nas circunstâncias sociais do país.

“E é tudo superficial/ Se é mentira, não importa, é oficial/ O mocinho é o boy ou o policial/ O bandido: herói, quando morre, ou é virtual”

Nos versos acima, o MC refere-se aos rappers que querem adotar uma postura de “gangsta“, sem compreender todas as circunstâncias que levam a alguém a falar da realidade do crime. Tentando glamourizar e tornar romântica uma vivência dura e dolorosa, vários artistas adotam esta faceta por pura estética. Longe de querer ditar o conteúdo da música de cada um, Don aqui tenta demonstrar o peso da posição de quem se encontra no meio da criminalidade pela falta de escolha e depois ainda tem que enfrentar a marginalização, cárcere e sofrimento gerados por um sistema que não os deu escolha. Essas contradições sempre foram presentes, desde o momento que o rap viu-se entrando no mercado e tendo seus artistas capitalizando seus versos. Entretanto, é sempre bom ver quem tem tamanho e percepção de ver que essa lógica mercadológica é baseada em descredibilizar circunstâncias sociais delicadas, marginalizando quem é afetada por elas e premiando quem não vive nesse mesmo mundo.

“Eu vim pra tomar o jogo/ Não pra ser um boneco exótico/ E forjar um sotaque meio robótico/ Com um papo Buda zen/ Pra sugar bem/ Pagar cinquenta ao bamba rei do samba/ Se é MPBoy a grana vem”

Toda a narrativa é construída pela perspectiva de quem já tá há muito tempo dentro desse jogo. Don L conta suas aspirações e as posturas que assumiu para ir de encontro a essa “gentrificação“, salientando que isso é um posicionamento constante e que serve de combustível pra suas produções. O rap sempre serviu como alternativa a más expectativas, nesse casso Don oferece sua música como resposta a gourmetização do hip-hop. Indo contra as lógicas de mercado, o MC anda em consonância da esperança de fazer o talento sobressair ao “mainstream“. A apropriação estética do rap vai além da música, é consequência da lógica eugenista e branca do capitalismo que de forma incansável executa um projeto de embranquecimento da cultura negra. Claro que alguns artistas adaptam-se artisticamente na tentativa de romper essas engrenagens, porém o questionamento de Don é se seria realmente necessário fazer essas concessões? Chupar a Lavigne é válido até que ponto?

Não são ataques pessoais ou bragaddocio barato, é problematização de um sistema predatório. Inevitavelmente todos estão sujeitos às problemáticas apresentadas, o ponto é buscar soluções práticas que alcancem a liberdade artística e pessoal do ser. “Fazia Sentido” carrega o espírito do jovem Don L, meio que num tom de resposta, de quando os caminhos se confundem e a resposta está no começo. As rimas são as soluções desde o princípio, os versos no estado mais cru, o hip-hop na sua origem.

“Sou eu e minhas rimas contra o mundo num quarto sem reboco, me exercitando a cada dia até me sentir como se eu tivesse um exército comigo, como uma rebelião de escravos se preparando pra tomar a liberdade à força” (Don L em entrevista à Red Bull)

O resgate da juventude através das punchlines vai além de uma reprodução de força, sendo o exemplo de quem já versa há tempos. Como já mencionado, o MC tem experiência e percepção para compreender como funciona o caminho de quem vem de onde ele vem. Pavimentando sua arte no nordeste e fazendo um barulho nunca antes visto, e ainda assim tendo que buscar seu espaço indo até São Paulo. De qualquer forma, as linhas de Don que o guiaram até sua posição, atravessando quilômetros, xenofobia e meio musical que nega cada vez mais a relevância do rap nacional. O entendimento do rap como principal ferramenta de emancipação perpassa o simples reconhecimento e segurança financeira.

“Isso num é sobre onde cê vem, é sobre onde cê quer chegar/ E o que vai mudar pra quem vem de onde cê vem quando tiver lá”

Encarar o movimento hip-hop em sua essência, como uma iniciativa coletiva de minorias marginalizadas, é uma resolução que ultrapassa os limites artísticos. É a mudança prática e simples, de reverter toda conjuntura do capital. A resposta real de transformação social para o povo, e nesse caso para os próprios MC’s, vem de uma organização coletiva que atenda e garanta os interesses dessa massa que infelizmente tem pouco poder representativo. Este é o verdadeiro ponto do Don L, trazer a visão micro do jogo do rap e a expandir, de forma com que conseguimos analisar toda a sociedade brasileira. Atender as raízes da nossa cultura não vai nos tornar duros ou não “progressistas artisticamente“, e sim vai consolidar a ideia de um retorno comunitário para o próprio hip-hop. Não serão mais necessárias concessões, quando nossos ícones e ídolos não forem exceções dentro do meio musical. Esse sonho nasce quando Don junto com os seus, fazem seu corre no rap e beneficiam sua comunidade, alcançando assim a liberdade.

Tal conceito de autonomia inicia na vida política e artística, tendo seu fim no espectro sentimental. As sensações sempre foram tema central nós trabalhos do Don L e aqui elas tem a relevância que merecem. Desta vez, o MC trata várias vezes da constante busca por prazer e de seu caráter momentâneo. Após a luta pela arte e sociedade livre, o fundamental são corpos e mentes libertos que alcancem a mais plena possibilidade de aproveitar o cotidiano de forma quase elegante. A vida é só uma e viver pode ser encarada de variadas formas, entretanto, o essencial é ter soberania sobre seu ser e autodeterminar os direcionamentos sensoriais de seus sentidos.

“Mudando um fim de filme tão clássico/ E se sentindo noutro tão épico/ Gozou com minha língua tão rápido/ O zíper foi bater no concreto”

A partir da faixa “Cocaína“, o trabalho segue o rumo do regozijo, suas particularidades e variantes. Aqui encontramos o ponto alto do EP, onde Don disserta sobre seu relacionamento com a adrenalina e apaziguar seu coração. Inteligentemente, o lisérgico que tanto afeta o MC não fica explícito na letra, mas vemos que trata-se de uma luta entre emocional e racional. As contradições entre entregar-se de vez ao deleite, entender seus próprios limites e adotar uma redução de danos. Como todos esses conflitos expostos pelo MC são expostos de forma bastante particular, por meio de referências de filmes e sempre na primeira pessoa, o caminho que a canção percorre é sempre meio nebuloso. Contudo, nesse aspecto que reside toda a riqueza da lirica aqui encontrada. Essas incertezas feitas por esse horizonte obscuro refletem tanto o estado ébrio que o MC encontra-se, tanto a especificidade com que o prazer encaixa-se na vivência de todos. Não por fim, apesar de toda essa relação íntima criada nessa faixa, ela consegue ainda caminhar numa linha tênue de impessoalidade que gera uma baita identificação.

Mesmo no meio de todos os conceitos já citados, o que mais salta os olhos ao escutar Don L rimar é a elegância. Tudo é inspirador e extremamente rico, em todos os sentidos que isto possa significar. Em “Se Num For Demais” somos apresentados ao show de prosperidade em que o MC define sua subsistência. Entre as certezas, posicionamentos e escolhas, sempre há espaços para reconstruções, para redescobrir o que te leva para frente.

“E eu quero mudar o mundo/ Quero fuder o mundo/ Eu num tô feliz/ Eu preciso fazer um bagulho, eu preciso disso/ Eu preciso recomeçar e acabar com tudo que eu era/Eu juro que será um puta movie”

Durante todo “Roteiro Para Aïnouz, Vol.:3Don L estabeleceu de maneira renovada (pelo menos para o ouvinte) sua ética, política e suas sensações. Nos versos citados acima, encontramos a síntese dos aspectos que complementam esse viver. Acreditando na gênese de um novo amanhã a partir do maior proveito possível de seu cotidiano o MC, fixando o que é seu bem viver. Sobre isso que o trampo falava o tempo inteiro, as caminhos que permeiam o que é realmente estar vivo, sendo fiel a si mesmo, seus iguais e suas aspirações.

Há uma grande diferença entre o falar e fazer, alguns MC’s conseguem falar muito bem, já Don L aproxima estes diferentes entendimentos. Do Costa a Costa à sua carreira solo, o rapper já provou a si mesmo, o público e quem mais quisesse duvidar. Não é irreal colocá-lo no panteão dos maiores do rap nacional, entretanto templos são locais de divindades e Gabriel exibe-se cada vez mais humano. “Deus L“, como alguns chamam, é um grande conhecedor da vida terrena e seu funcionamento, talvez seja um semideus, por enquanto esperamos seus próximos grandes feitos.

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