O processo de cura e desconstrução de Ogi em RÁ

Muito se debate na hora de definir o que é um clássico da música. Alguns entendem como um definidor de um modelo de futuras produções, outros como um exemplo de roupagem e estética atemporal que soará bem e atual para sempre. Outra forma é quando um artista extremamente talentoso cria algo no mais alto nível de qualidade dentro de suas propostas. Chegando de assalto como um grito, o álbum “” de Rodrigo Ogi, lançado em 2015, é uma das demonstrações de uma das experiências mais completas da década, no que diz respeito às skills de um MC, um verdadeiro clássico.

No alto dos seus 40 anos (35 na época em que lançou o disco) Rodrigo Hayashi (Ogi) conseguiu vivência e sabedoria de sobra para poder tornar-se um dos maiores e melhores do rap nacional. Ogi começou sua carreira com o grupo Contrafluxo onde participou de dois álbuns, após isso, já em carreira solo, lançou os clássicos “Crônicas da Cidade Cinza” e “” (que falaremos sobre aqui) e o EP “Pé no Chão“. Antes de sua bela discografia, o MC já possuía uma longa caminhada como pichador. Esse percurso de resistência contribuiu para que ele conseguisse conhecimento geográfico, imagético e social para que construísse suas famosas crônicas. Com influências de Mzuri Sana, Rua de Baixo, De La Soul e A Tribe Called Quest, o artista conseguiu transformar-se em um dos mais respeitados MC’s da história do rap nacional, seja por sua incrível capacidade de criar narrativas ou por seus flows, métrica e lírica afiada.

Todo seu primor técnico é elevado a décima potência em ““, que contou com a colaboração de um sempre inspirado Nave na produção e uma capacidade exemplar de transformar o abstrato em concreto. Mais do que uma exibição de um MC cuspindo fogo, a obra é literalmente uma sessão de terapia, onde é discutida a liberdade artística e o peso de ser um narrador da realidade ao seu redor. Aqui Ogi reflete o peso de ser “o bardo” não só de seu mundo, que se exibe através das ruas de São Paulo, mas também do rap nacional.

Muitos MC’s quando criam um trabalho conceitual utilizam de introduções, interlúdios e skits para facilitar a compreensão ou transmitir de forma mais explícita suas percepções. No caso de Ogi, suas conversas com o psicólogo ao longo das 16 faixas do trabalho, tratam de cuidar da completa imersão do ouvinte. Os “outros” não servem só como referência para o entendimento, mas sim como parte integrante do funcionamento desse roteiro. Toda parte musical do disco possui uma grande aura de respeito com a música brasileira, com a cultura hip-hop e com a arte como um todo. Utilizar da intro como ferramenta narrativa também é uma bela referência aos trabalhos tradicionais do rap nacional e internacional dos anos 90/00. Como o contador de histórias de respeito que é, o MC não nos apresenta apenas uma coletânea de relatos frutos de suas observações, mas entende seu próprio álbum como o fio condutor desses pequenos contos que formam os capítulos da grande história que é ““. A chegada na sessão de terapia é o pontapé inicial da discussão que leva a história para a frente.

Grito por Liberdade

As quatro primeiras faixas após a introdução funcionam como pilares que sustentam e apresentam as problemáticas tratadas por Ogi. Em “Aventureiro” temos uma apresentação de quem é o MC, onde ele exibe suas habilidades nas rimas, mostrando o sucesso de sua caminhada e sua capacidade de vencer seus inimigos. Aqui o artista ainda está numa posição de poder, numa postura um pouco impassível para quem foi buscar ajuda na terapia. Soa justamente como no primeiro contato com um psicólogo, onde o paciente ainda encontra-se impossibilitado de se abrir totalmente e cria suas próprias barreiras. O “bragaddocio” é a manifestação de um Ogi ainda meio preso dentro de sua própria obra e que aos poucos vai soltando-se e abrindo espaço para seus pensamentos.

Esta construção descritiva da situação fica explícita e proposital quando percebemos alguns versos:

“Técnica do Wu mais os golpes de Jeru/ Estilo imbatível do meu Kung Fu/ Com os cinco pontos de Pai Mei/ Lhe explodirei em 5, 4, 3, 2, 1”

“Lhes pisoteei e transformei em sátiras, atirar, atingir e baquear/ Assim como intrusos no sistema hoje nós iremos hackear/ Deus sabe que nunca vou fraquejar/ Quebro ossos, creck, crá!”

O uso das referências e das onomatopeias demonstram o cuidado para criar verossimilhança, ao relacionar Ogi com suas influências musicais e dos quadrinhos. Mesmo com toda sua resistência a abertura, sua arte acaba transmitindo inconscientemente seus gostos e personalidade.

Na Estação da Luz” e “Correspondente de Guerra” indica um passo no caminho para a vulnerabilidade. O cenário construído pelo MC é resultado de sua vivência na pichação, que o possibilitou entrar em contato com diversas perspectivas da cidade de São Paulo. Ogi resgata sua realidade passada para apresentar seus pontos de vista ao psicólogo (ouvinte), num exemplo de que chegou mais perto de entender que é necessário expor seus anseios. Falar de uma caminhada relevante é uma dessas maneiras, onde o rapper apresenta todo seu talento de cronista, enriquecido justamente por todo este caminho percorrido. “Na Estação da Luz” funciona como uma exibição mais impessoal de realidade, enquanto “Correspondente de Guerra” dá espaço para exibir a visão social de Rodrigo. Deste em ponto em diante percebemos uma vulnerabilidade mais perceptível.

“A visão arrepia, tô anestesiado/ Eu tive um devaneio me sinto agigantado/ Meu povo libertado, agora imaginei/ Mas fui alvejado, acordado sonhei”

Em “HaHaHa!!!” encontramos os primeiros indícios da realidade psicológica que encontra-se Ogi. Ao criar um personagem que relata suas aventuras sexuais com mulheres, mais do que fazer sua eventual narrativa crônica, o MC retrata seu desejo por liberdade e a incerteza da felicidade e plenitude. Fica bem claro que as histórias são inventadas e isso evidencia o desejo do artista de vivenciar novas experiências e as desventuras sexuais são a representação do cerne da emoção buscada. As frustrações de no fim o personagem ter um final trágico e tudo ser um sonho acompanham a instabilidade emocional de Ogi em tudo que relaciona-se a sua obra. Afinal de contas, todas suas canções nascem por meio de sua vivência, isto fica claro quando ouvimos o áudio de diálogo com o terapeuta:

“Eu chamo essa angustia pra dançar, sabe? A gente se atrela, eu deixo ela um pouco embriagada e ela tem picos de alegria, e muda até de nome, sabe doutor? Por algumas horas ela passa a se chamar felicidade, mas depois eu me canso e tudo volta a ser como antes…”

Processo de Cura

Entretanto, o rapper ainda não compreende o que motiva estas sensações, muito menos como lidar com elas. Sua resposta é dada através de sua própria arte, onde ele se liberta totalmente, tanto pessoalmente quanto artisticamente. As três “Trindades” completam-se numa das melhores e criativas construções de strorytelling do rap nacional. Aqui Ogi encontra-se em diversas perspectivas como um taxista e seu passageiro, um barman e uma mulher em uma festa e até mesmo um cão e um pássaro. Este seria o mais alto momento da produção artística de Rodrigo, onde os frutos de suas observações colocam-se de maneira tão real, que servem como uma metáfora para seu próprio estado mental.

“Voo sem asa, longe de casa/ Num matagal, arremessado fui/ Antes de eu desmaiar/ Um corvo velho a testa me bicou/ I believe I can fly, feito um balão com gás hélio”

O próprio MC tem uma explicação perfeita para as faixas, que deu em entrevista ao Tidal:

Esta música, desde a primeira parte, tem uma ideia de contar uma história passando por vários personagens. Começa com um taxista, eu encosto no taxista, viro o passageiro, e vou trocando. Viro polícia, traficante, o filho do taxista, o cachorro, e por último, um corvo. É uma analogia sobre a liberdade. Quando viro o corvo, que vai bicar o cachorro que morreu atropelado, finalmente me liberto.

Aqui Ogi consegue perfeitamente relatar sua angústia da maneira que ela é, sem a disfarçar com felicidade. Mais que isso, consegue utilizar sua escrita para relatar não só o mundo ao seu redor, mas para contemplar perfeitamente seu interior. A partir deste ponto, a gente consegue ver uma virada na história de ““, onde temos uma visão menos urgente e um pouco mais otimista.

7 Cordas” e “Virou Canção” são belas celebrações a diferentes momentos da vida do MC, onde sua tão buscada liberdade é alcançada. Na primeira, ele relata a vida boêmia, nascida através de sua poesia e representando a felicidade dada por meio da música. Eternizam-se os bons momentos de uma vivência ditada pela arte e pelo prazer de criar, isto reflete em seu cotidiano, onde Ogi consegue passar por situações interessantes, mas não traumáticas como em “HaHaHa!!!“.

“A melodia vem para coroar/ A poesia vais nos ajudar/ A levantar a poeira/ Vai servir também pra eternizar/ A boemia da mesa do bar/ A noite de sexta-feira”

Já a segunda faixa citada, relata as aventuras da infância, onde Ogi cria uma crônica um pouco mais pessoal. Escrevendo sobre as etapas e contextos de sua infância, podemos compreender sua construção como pessoa e até mesmo como ele define seu direcionamento artístico. O jeito que ele encontra para reviver suas memórias não descarta os percalços que passou, mas também recorda os momentos de inocência e ingenuidade. Percebemos que ele encara com naturalidade e maturidade tudo que já aconteceu consigo, dando um importante passo a sua cura.

“E mano meu torrando a face com 16/ É no freebase, terra sem leis é/ Ouvindo Racionais eu permitia que/ A minha mente se tornasse menos crazy”

Motivação e Posicionamento

Resolvendo suas questões emocionais, Ogi direciona o fim do álbum de maneira a tratar o seu posicionamento quanto a ética de sua arte. Trazendo suas crônicas o MC consegue deixar claro quais são suas motivações a partir de agora. “Escalada“, “Ponto Final” e “Faro de Gol“, demonstram seus estados de caráter, artístico e suas aspirações. Todas as questões reveladas aqui são resultado de sua sessão de terapia, um mergulho total dentro da mente de suas produções, que resultou numa resposta para seus questionamentos. Ogi sente-se livre para fazer o que sabe e nasceu, ser um observador e narrador do mundo ao seu redor, tal mundo que o construiu e o fez ser desta maneira.

No último “outro” de ““, ouvimos o fim da sessão de terapia e o pedido para que Ogi retorne, dando a entender que este processo é contínuo e cíclico. O álbum encerra-se de maneira coerente em todas as suas áreas, constituindo-se como a crônica maior, que trata de todos e principalmente de Rodrigo Hayashi (Ogi).

1 comentário
  1. Shitão Diz

    Excelente matéria meu amigo, você conseguiu colocar em palavras o que sinto ao ouvir esse álbum. Parabéns pelo trabalho e continue firme onde estiver.

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