RND Entrevista | Froid fala sobre volta do UBR, detalhes do ‘Pior Disco do Ano’ e mais

Meteórica. Essa com certeza é uma das palavras que pode definir a chegada de Renato Froid, o primo do Guilherme, dentro da cena do rap nacional.

Para entendermos como o menino de Brasília ganhou tanto destaque dentro do jogo, é preciso voltar ao fim de 2015, quando ele, Sampa, Yank e o produtor Disstino formavam o grupo “Um Barril de Rap” e lançaram o álbum “2° Via”, com bastante sucesso de público e crítica.

Recheado com boas camadas de autenticidade, o grupo brasiliense rapidamente formou uma grande fanbase e começou a escalar a montanha do reconhecimento. O UBR, infelizmente, acabou em fevereiro deste ano deixando milhões de fãs órfãos (inclusive esse, que vos escreve), porém, os projetos solos dos seus integrantes continuam a todo vapor, como o EP Sincero, do Sampa.

Mas e o tal do Froid? O que andava fazendo o rapaz dessa entrevista? Dono de um talento inegável, Froid estava fazendo seu nome. Com participações e singles solos, antes mesmo do fim do grupo, Renato aumentava seu repertório progressivamente e – de forma até involuntária – crescia mais do que os seus companheiros de UBR.

Além de integrar o grupo Um Barril de Rap, Froid participava das Batalhas do Museu, em Brasília, no Distrito Federal

Hoje, o artista da família cheia de artistas, prepara para lançar “O Pior Disco do Ano”, seu álbum de 12 faixas, produzido pelo Luan LK (3030) e gravado na Novo Egito – gravadora e selo de Froid, 3030 e Rodrigo Cartier. Esse e muito mais assuntos (como uma possível volta do Um Barril de RAP no ano que vem) você pode conferir no bate-papo aqui embaixo. Pega a visão!

Os fãs estão bastante ansiosos para o lançamento do álbum. Fala um pouco sobre “O Pior Disco do Ano”, se ele atrasou mesmo, e o que está faltando para ele ser lançado.

– O álbum tomou forma de álbum pela primeira vez em março, por isso digo que ele é ariano. Eu entrei em agosto para fazer a primeira sessão de estúdio, que foi o momento da gestação, quando todas as músicas e todos instrumentais estavam praticamente prontos.

A produção é toda do Luan LK. Eu produzi apenas uma faixa, a música com o BK, onde eu usei o sample de “Vida Loka”, o mesmo do Atletas do Ano”. Outra tem a produção do Mestre Xim, que é a faixa com o Qualy. Além dos dois, o disco ainda terá participação do Makalister, Nissin, 3030, Rodrigo Cartier, Cynthia Luz (em uma faixa que se chamará Lamentável Part 2 com Prod. do M Lima) e mais uma com o Luccas Carlos. A do Luccas ainda não sei se entrará no disco porque a gente não terminou de produzir.

Nós temos quatro clipes gravados e pretendo lançar o primeiro deles em setembro. Daí soltamos os outros três e depois disponibilizamos o álbum para download em todas as plataformas. Esse disco registra um período muito louco da minha vida. Escolhi esse nome (Pior Disco Do Ano) por causa da intensidade. É um disco sobre pressão. Ao mesmo tempo em que é o melhor momento da minha vida é o pior também. Um registro que pode parecer meio confuso, mas é de coração.

E como você trabalha a questão da promoção do disco, o chamado hype?

– Eu ainda não tinha pensado em nada tão comercial até porque eu nunca trabalhei em comercializar minha arte. O UBR era totalmente underground e a gente trabalhava mais o lado artístico do que a promoção. Eu pretendo lançar meu som com bastante conceito e espero que isso sirva para promover o álbum.

Makalister Renton e BK serão algumas das participações do “Pior Disco do Ano”

Como se dá o seu processo criativo na hora de compor? Costuma escrever “de cara” (sóbrio)? 

– As minhas piores músicas foram as que eu escrevi “de cara”. Tem umas três que já escrevi e que eu não gosto. O processo criativo é uma entidade, um Deus, que a gente não sabe explicar. É um acontecimento, um nirvana, espontâneo, um acidente. Qualquer outra coisa é forçar a barra.

Você é um cara muito conhecido pelo seu flow e pela sua escrita carregada de metáforas. Considerando que o ideal é sempre unir os dois, já ocorreu de você abrir mão de um para valorizar o outro?

– O flow é a dor da minha voz. Ele não é uma coisa tão mecânica como as pessoas usam. Ele é uma consequência, é o jeito que eu sinto os instrumentos da base, tentando fazer minha voz mais um dos instrumentos. Então eu acho que o flow é o sentimento que acaba sendo a consequência da escrita.

“Antissocial” é um dos últimos lançamentos de Froid onde ele mostra todo seu repertório e une uma escrita espiritual ao lado de um flow “cheio de dor”

Na sua turnê você tem se apresentado ao lado do Disstinto e do Menestrel, certo? Como tem sido a repercussão das apresentações e como é a participação deles no show?

– O Disstino está comigo desde o UBR, é o DJ que eu confio. O Menestrel foi porque ele sabia todas as letras. Depois tomou outra proporção porque eles criaram o seus próprios públicos. É muito interessante porque cada um tem sua fanbase. Também levo a Cynthia Luz, que tem seu público. Acaba que eu trago mais gente pro meu show e deixo ele mais interativo e performático, o que deixa a apresentação bem mais interessante.

Froid se apresentando em turnê ao lado do DJ Disstino e o rapper Menestrel.

Como você vê o rap daqui a 15 anos, e o que você pretende alcançar nesse tempo?

– É impossível mensurar o que vai acontecer com o rap daqui a 15 anos. Há cinco anos atrás, quando eu fiz parte do rap, eu vi uma evolução descomunal, então não consigo mensurar. O que eu espero é que a indústria não use o RAP de forma negativa. Não corrompa do jeito que já está acontecendo, que as pessoas consigam manter os pés nos chão, não se iludam com mulher e droga e ataquem as pessoas que a gente precisa atacar, porque o rap não é uma música igual as outras, ela tem um cunho social importante. E não é aquele papo de “rap de mensagem”, só em você estar falando com uma linguagem diferente, você já é um ativista. No mais, eu espero conquistar o mínimo: conforto pra minha família e liberdade pra mim e quem escuta meu rap.

Na mesma linha de pensamento, qual é a principal diferença pra você entre o público do rap da velha escola e o atual?

– A diferença é que o público da velha escola enfrentou muito mais problema por gostar de rap do que o da nova escola. Antigamente as pessoas eram vistas com outros olhos quando se falava de rap. Essas pessoas da velha escolha que eram fãs de rap com certeza enfrentaram a questão do preconceito (no sentido de ser visto como bandido e tudo mais). O público da nova escola pode gostar de rap porque a sociedade evoluiu muito. Hoje a gente tem uma cabeça muito mais aberta. Então, não é sobre o rap, é sobre ter a cabeça aberta. As pessoas conseguem se respeitar mais, por isso hoje é mais simples gostar de rap.

O UBR deixou um legado de fãs órfãos. Seu entrosamento com Yank e Sampa no mic criou algumas das tracks mais criativas e envolventes dos últimos tempos. Existe a possibilidade de novas músicas com participação deles?

– O UBR foi um grande acidente. A gente criou uma coisa que só agora conseguimos ver o tamanho. Meus melhores amigos ainda são o Sampa, Yank, Disstino, Caique e o Nardin (técnico de som). Eu tenho plena certeza que a qualquer momento vai ter uma coisa nova nossa. Não agora que está todo mundo fazendo seus projetos solos, mas mais pra frente, talvez ano que vem, com certeza vai ter sim uma coisa nossa. A gente ficou muito afastado, mas nos últimos meses nos reaproximamos como eu nunca tinha visto antes. Então possivelmente tenha coisa nova do “Barril” aí. Nunca se sabe.

Froid deixou os fãs sonharem com uma possível volta no ano que vem do já marcante grupo Um Barril de Rap

Tanto no Brasil quanto na gringa existem rappers e grupos que quando alcançam um certo nível de popularidade deixam cair a qualidade musical por passarem a entregar músicas “mastigadas”. Você também enxerga essa queda e acha que esse é o real motivo?

– Isso é uma coisa que eu venho falando há anos. Eu não gosto de músicas mastigadas, que a mensagem é muito clara, mas isso também não quer dizer que ela tenha que ter uma linguagem rebuscada, que inibe as pessoas de conhecer você. Minha maior referência sobre isso é o Bob Marley, que tem letras simples e ao mesmo tempo carrega uma questão espiritual muito forte. Quando o grupo quer ser comercial ele vai ser comercial e você vai perceber que ele está ali se esforçando para vender a popularidade. Eu não tenho nada contra, nem nada favor, só como gosto pessoal eu prefiro a linguagem espiritual, que cativa a minha mente e me força a ter um pensamento sobre um ângulo que eu não tive ainda.

Qual foi o show mais foda que você já fez?

– Eu não sei qual foi o show que o público mais gostou, mas o que eu mais curti foi um em São Paulo, um acústico com a banda Medulla, porque eu gosto dos instrumentos, da banda, do entrosamento. Foi o melhor show por causa do felling, da vibe. Inclusive, quero investir mais nisso. A minha meta é trabalhar com banda e só, fazer um som mais orgânico.

Realmente, Froid demonstra gostar bastante do lado orgânico da parada. Enquanto o filho ariano, digo, álbum ariano dele não sai, confira um dos trampos recentes do rapper, um belo acústico ao lado de Pedro Qualy e da banda Medulla pra deixar qualquer fã de música boa com água na boca.

*Matéria com colaboração de Laísa Gabriela de Sousa e Raí Faustino.

Comentários
Carregando...